Lovecraft Country tende mais ao sexo em episódio de body horror

Créditos da imagem: HBO/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Lovecraft Country tende mais ao sexo em episódio de body horror

"Strange Case" completa o bingo da HBO com tabu, nudez e violência

Marcelo Hessel
14.09.2020
10h49
Atualizada em
14.09.2020
11h10
Atualizada em 14.09.2020 às 11h10

Depois de ir do monstro na cabana à mansão mal-assombrada, o bonde de Lovecraft Country agora estaciona no body horror em seu passeio por subgêneros do horror. O quinto episódio da primeira temporada, “Strange Case”, aproveita as liberdades da HBO para colocar os corpos em evidência, em suas muitas formas de expressão, seus potenciais de expansão e suas deformações.

O body horror é um conceito relativamente recente no horror, embora suas origens remontem ao horror gótico de Mary Shelley no século 19. O conceito de “horror do corpo” foi cunhado no começo dos anos 1980 para dar conta de uma tendência de cinema presente cada vez mais em filmes de diretores como David Cronenberg, John Landis e John Carpenter, e é nessa fonte - popularizada em filmes como Os Invasores de Corpos e A Mosca - que bebe Lovecraft Country ao colocar Ruby, a irmã de Leti, como protagonista de uma história de transmutação à moda Um Lobisomem Americano em Londres.

Tradicionalmente esse subgênero trabalha em cima de dinâmicas e tabus do sexo, como nos filmes citados, e não seria diferente em um seriado da HBO, cujo próprio slogan faz questão de diferenciar seu conteúdo “adulto” daquilo que a TV aberta oferece. No caso, a nudez, o texto com temas tabu e a violência (o tripé da HBO) são triplamente contemplados em “Strange Case”, sempre tendo a atmosfera de assombro como liga. Em Lovecraft Country a catarse se confunde com o sobrenatural - como se os personagens descobrissem a si mesmos quando em estado de transe - e é o que acontece nas cenas de sexo e na revelação da homossexualidade de um dos protagonistas. 

Questões raciais à parte, que por si só já desarmam todo o espírito reacionário da obra de H.P. Lovecraft, é muito irônico que Lovecraft Country tenha encontrado no sexo um canalizador de sua dramaturgia, porque no geral a obra de Lovecraft é absolutamente pudica. Nos contos dos Mitos de Cthulhu, produzidos depois do divórcio do escritor, o sexo, nas raras vezes em que aparece, é visto como uma desvirtuação do corpo e do espírito, como uma operação violenta de destruição de corpo e de subjugação. Nesse sentido, Lovecraft não deixa de ser um precursor do body horror, o que se atesta pela influência que ele exerceu tanto nos EUA quanto no Japão sobre artistas que trilharam esse subgênero.

A transmutação principal que ocorre em “Strange Case” é muito diferente daquelas narradas nos Mitos. Quando mergulha de cabeça no body horror, Lovecraft descreve aterrorizado como o olfato reage à cena de um alienígena crustáceo vestindo a pele de um humano, por exemplo. Esse elemento do olfato, central na literatura de Lovecraft, curiosamente passa longe do seriado, porque a ideia aqui não é alienar o espectador mas estabelecer uma empatia através do horror. Quando Ruby se despe em sangue (meio Carrie nesse sentido), a ideia é que isso a faça transcender as noções que ela tem do corpo, e não deteriorá-lo. 

A ótima participação de Jamie Neumann no episódio merece ser mencionado porque é a segunda vez que a atriz aparece em Lovecraft Country, depois de fazer a caipira racista com os cachorros em “Whitey’s on the Moon”. Nesse universo de magia, é possível que Neumann tenha sido escolhida como avatar, o que permite que ela faça papéis diferentes. Se for então uma participação recorrente (ela está listada para mais dois episódios), melhor ainda. Não coincidentemente, Jamie Neumann brilhou até o ano passado em The Deuce, outro seriado de sexo da HBO que fica no limite entre o sensacionalismo e o empoderamento feminino.

No Facebook do Omelete, eu fiz uma Live para explicar o que é o tal de body horror e quais suas principais características: