Cena de Little Fires Everywhere

Créditos da imagem: Hulu/Divulgação

Séries e TV

Artigo

Little Fires Everywhere faz jus ao título e começa acendendo tensões

Nova série de Reese Witherspoon é promissora e prepara o solo para um conflito intrigante

Julia Sabbaga
15.05.2020
17h26

Já faz algum tempo que Reese Witherspoon se mostrou mestre em escolher projetos com protagonistas femininas interessantes. Isso vem lá de trás, quando assumiu sua primeira produção, em Legalmente Loira 2, mas a atriz tem trilhado um caminho cada vez mais afiado em seus projetos. Seja em Livre, Garota Exemplar ou Big Little Lies, Witherspoon demonstra um talento certeiro em adaptar obras com cérebros femininos complexos e nada ordinários, e sua nova série do Hulu - que chegará ao Prime Video no próximo dia 22 - segue essa empreitada. Little Fires Everywhere (ou Pequenos Incêndios Por Toda Parte, em português) traz mais uma vez o protagonismo de mulheres enigmáticas. Dessa vez, no entanto, não há vícios, psicopatias ou criminosos. O conflito aqui é mais simples, e talvez por isso mais próximo. 

Baseado na obra de Celeste Ng, Little Fires Everywhere discute e evidencia tensões em todo lugar, mas principalmente de raça e classe. A série parte da personagem da própria Witherspoon, Elena Richardson, uma rica e bem-sucedida mãe de família, jornalista de meio-período, que é basicamente uma extensão da personagem da atriz em Big Little Lies - inclusive com um marido bem semelhante, agora em Joshua Jackson. Em Ohio e no fim dos anos 90, Elena tem quatro filhos para cuidar e, no primeiro capítulo, conhece Mia (Kerry Washington), uma artista negra e mãe solteira que muda de cidade constantemente, mas encontra em Shaker Heights uma casa enorme e acessível. A residência cai facilmente nas mãos de Mia basicamente pela culpa que vem do sentimento de superioridade da inquilina. Elena é atraída por oportunidades de ajudar “os menos favorecidos” o tempo inteiro para se sentir bem, como ela mesma diz, já criando entre as duas protagonistas uma relação instável e rancorosa, que tempera Little Fires Everywhere a todo momento. 

Os três primeiros episódios da série, revelados com antecedência ao Omelete, são promissores. Os capítulos gastam um tempo bem lapidado em introduzir seus personagens, mas fazem isso com proeza narrativa, sem gastar tempo com tramas paralelas que amaldiçoam produções dramáticas do tipo. Existe o núcleo de Elena e o núcleo de Mia, e a série se desenvolve na tensão orquestrada entre os personagens de ambos, na relação entre os filhos de cada uma - como a filha de Mia, Pearl (Lexi Underwood), que desenvolve uma amizade íntima com Moody (Gavin Lewis), filho de Elena - e cada ato de uma família atinge a outra de modos repetidamente interessantes. Mas não é só de tensão que se faz Little Fires Everywhere. O interessante da série é o jogo de inquietude e empatia. As duas mães, por mais diferentes que sejam entre si, se entendem na maternidade e na sua própria existência feminina. 

Uma das maiores qualidades que Little Fires Everywhere tem é sua capacidade de deixar o espectador desconfortável, principalmente pela figura disruptiva que Mia representa no contexto em que se encontra. Intrigante e nunca entediante, a produção manteve, em três episódios, uma capacidade de criar um fluxo dinâmico que sai da bela construção de seus personagens e da base disfuncional de suas relações. Cada um dos filhos, que funcionam perfeitamente como o reflexo ou negação de suas matriarcas, tem seu brilho, seja no interesse de Pearl em se encaixar - que parte da rejeição de Mia de fazer o mesmo - na perfeita imagem que Lexie (Jade Pettyjohn) representa de Elena, ou na ansiedade aflitiva de Izzy (Megan Stott), a filha problemática, no meio de uma casa construída à perfeição. 

De tudo isso, o peso desfavorável à balança na trama da série é o desenvolvimento de personagens masculinos. Assim como em Big Little Lies, nenhum dos homens de Shaker Heights se apresenta como um humano completo ou digno de estudo, pelo menos até agora. Ainda, espera-se que Washington e Witherspoon tenham mais terreno para explorar suas habilidades dramáticas. No início de Little Fires Everywhere, ambas se limitam à reações familiares, com Mia se mostrando constantemente ofendida e Elena repetindo os trejeitos e a personalidade de Madeline, a personagem de Witherspoon na série da HBO. Na realidade, é difícil identificar se a semelhança da série com Big Little Lies é a causa ou um sintoma disso. 

Mas há terreno a ser coberto e mistérios a serem desvendados, claro, já que a primeira cena de Little Fires Everywhere é um literal incêndio misterioso que devasta a casa de Elena. As perguntas deixadas pelo piloto já seriam suficiente para manter a atenção, mas a série ainda mostra potencial de explorar muito mais, com personagens que apenas no fim do terceiro capítulo chegam à superfície. Com habilidade de despertar identificação e aflição, a nova série de Reese Witherspoon tem tudo para ser a próxima maratona da quarentena.