Jô Soares

Créditos da imagem: Zé Paulo Cordeal (Divulgação/Globo)

Séries e TV

Artigo

Sofá do Jô: O preço do pioneirismo é a eternidade

Jô Soares é a evidência concreta de que uma boa conversa pode sim marcar a história da TV

Omelete
5 min de leitura
05.08.2022, às 17H47

É fato que o impacto da TV na vida das pessoas é completamente geracional. Se você perguntar para um adolescente dos dias de hoje quem é Jô Soares, talvez ele se lembre do Programa do Jô, que o humorista apresentou entre 2000 e 2016 na Rede Globo. Quem for um pouco mais velho talvez lembre que ele veio do SBT, onde estreou o Jô Soares Onze e Meia, entre 1988 e 1999. Talvez o que pouca gente saiba é que antes de tudo isso, em 1973, Jô já tinha tentado trazer o talk show para terras brasileiras com um programa chamado Globo Gente, que mostrava como o humorista e apresentador era bom em conquistar a palavra e extraí-la como queria de seu convidado. Ele não inventou o formato, mas ele foi o nosso pioneiro na simples e boa conversa.

Se contarmos assim, por alto, vamos encontrar uma quantidade considerável de talk shows que pairam sobre a programação nacional. Existem aqueles que repetem a configuração “apresentador-sofá-convidado” como o Lady Night de Tatá Werneck (uma força feminina num formato dominado essencialmente por homens, sobretudo no
Brasil), como o programa que Fábio Porchat tinha na Rede Record e que agora evoluiu na Globo para um compilado de histórias engraçadas. E existem transformações naturais que se revelam conforme muda o curso do tempo. Sem o talk show, talvez fosse difícil que os podcasts visuais (simples conversas em vídeo) tivessem seus cortes espalhados em centenas pelo YouTube.

Não se enganem pelo teor modesto do conteúdo de um programa como esse; sua importância para a cultura pop está justamente no quanto ele transforma o excepcional em acessível. Para estar num talk show você precisa ser uma celebridade, alguém que alcance um grande número de pessoas pelo que tem a dizer. Se nas terras estadunidenses a maioria dos talk shows prioriza astros e estrelas, Jô Soares deu a seus programas o espaço generalizado da troca de informações. E ele manteve em pauta a presença do estudioso, do empresário, do trabalhador popular, do cidadão regular; em plena harmonia com a descoberta do que havia de mais comum na vida de um célebre. O Jô era o Jô porque ele conversava sobre tudo, com todos.

Seu primeiro “programa de entrevistas”, o Globo Gente, não funcionou como a emissora pretendia. Naquele ponto, Jô já tinha feito dois grandes programas de humor: o Quadra de Setes (1966) e o Faça Humor Não Faça Guerra (1970). O Globo Gente durou apenas alguns meses e logo em seguida ele estrearia outros gigantes da comédia de seu tempo como Planeta dos Homens (1976) e o último antes de virar apresentador, Viva o Gordo (1981). Todos esses programas alimentavam um tipo de humor que não resistiu bem ao tempo e até mesmo quando decidiu parar de estrela-los, Jô estava à frente de sua época. Formatos como o do Zorra Total e do jurássico A Praça é Nossa amargaram duramente a crítica da modernidade. Jô entendeu primeiro, muito antes que todos nós.

Beijo do Gordo

Em 1988, Jô chocou a cúpula da Rede Globo ao decidir abandonar a emissora diante da recusa em dar a ele seu talk show. Embora o primeiro talk show da história tenha sido criado por Joe Franklin no início da década de 50, foi o Tonight Show, da NBC, que consagrou o formato. Passaram pela cadeira do programa apresentadores como Johnny Carson, Jay Leno e Conan O’Brien. Jimmy Fallon é quem está por lá desde 2014. O concorrente direto do programa era o Late Show com David Letterman, outro que acabou se tornando uma figura muito correlacionada ao gênero. Jô nunca escondeu a inspiração, mas foi o primeiro a trazer para o país aquela estrutura de plateia, bancada, sofá, banda e monólogo sócio-político na abertura.

Contudo, o apresentador nunca foi mais um no cenário multiplicador de tipos. Seu humor era presença certa na rotina do programa, mas sua imagem estava ligada a aspectos de sua personalidade que eram insuperáveis. Poliglota (falava seis línguas), profundo conhecedor de artes no geral, extremamente politizado e ainda assim, capaz de desviar a energia do ambiente com a piada mais simples do mundo... Jô Soares era uma referência de inteligência; e pagava um preço por isso. Não podia errar, não podia exagerar, estava sempre sobre o escrutínio da opinião pública, porque, enfim, tudo que ele dizia poderia – e seria – reverberado pela história.

Aqueles que viveram os anos de ouro da televisão aberta sabem do que estamos falando. Esperar acordado pelo Jô para ouvir o que ele tinha a dizer do que havia acontecido no país; comemorar quando a Globo liberava alguém para ir até o SBT ser entrevistado por ele e comemorar quando o SBT liberava alguém para ir até a Globo fazer o mesmo (do contrário como teríamos a HISTÓRICA entrevista de Hebe, Nair Belo e Lolita Rodrigues?); usar o programa como parâmetro para julgar se aquele ou aquele outro artista estava mesmo fazendo sucesso (Fábio Porchat hoje deve ter chorado e ao mesmo tempo comemorado o privilégio de ter surgido por causa do Jô); ver entrevistas sendo tão icônicas que ultrapassavam mídias (a de Fernanda Torres e Luis Fernando Guimarães se tornou material extra do primeiro DVD de Os Normais)... Quem viveu sabe, sentiu. A TV não é só TV, é a essência se construindo em memórias.

Vai ser com profundo respeito e uma agridoce saudade que nos lembraremos dos “ahhh” quando uma entrevista boa terminava; do constrangimento quando uma terminava e só tinha silêncio; da risada contagiante do Bira ao fundo; da elegância e discrição do Alex; de quando torcíamos para a entrevista ter dois blocos; de quando Jô gargalhava de quase cair da cadeira (e chegou a cair)... Agora, as horas no You Tube caçando pedaços dos encontros com Paulo Gustavo, Tatá Werneck, Katiuscia Canoro, Fábio Porchat, Samantha Schmutz, Dani Calabresa e tantos outros humoristas terão um tom ainda mais especial. Jô tinha isso de ser um humorista que era a melhor plateia para outros humoristas.

O Sofá do Jô não está vazio, estamos todos sentados lá, tomando o que quer que seja da canequinha, esperando o toque dele no nosso antebraço... Esse não é o fim. A cada talk show que termina nas televisões do nosso país, é um novo “Beijo do Gordo” que ecoa dos terrenos da referência. É um beijo para quem foi inspirado... Um beijo para os que inspiram... É um beijo para o pioneirismo que se eterniza no tempo e na história. 

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