Paulo José em Por Amor e Tarcísio Meira em Irmãos Coragem

Créditos da imagem: Divulgação e Montagem/Omelete

Séries e TV

Artigo

Do Sonho ao Céu: Como carreiras de Paulo José e Tarcísio Meira se encontraram

As trajetórias dos atores passam a limpo a história da teledramaturgia brasileira

Henrique Haddefinir
13.08.2021
18h41
Atualizada em
13.08.2021
19h01
Atualizada em 13.08.2021 às 19h01

O ano era 1969, e Paulo José entrava para o elenco de sua primeira novela. A novela era Véu de Noiva e, em determinado ponto, os envolvidos precisaram enfrentar um revés. Após Geraldo Del Rey pedir para sair por conta de outro trabalho, a solução encontrada pela autora Janete Clair foi dar início ao que ficou conhecido como um dos principais bordões do mundo dos folhetins: “Quem Matou?”. O personagem de Geraldo foi assassinado e Paulo José entrou na história como um fotógrafo que conhecia a identidade do assassino. Véu de Noiva ficou no ar entre Novembro de 1969 e Junho de 1970... E a novela que veio depois foi Irmãos Coragem.

Irmãos Coragem não foi a primeira novela de Tarcísio Meira, mas foi o seu primeiro grande sucesso. Quando Paulo José começou como coadjuvante, um ano antes, Tarcísio já sabia o que era ser um protagonista. Ao lado de Glória Menezes, sua esposa, se tornou o primeiro galã da primeira novela diária da televisão brasileira (2-5499 Ocupado) e estabeleceu uma parte importante de como a telenovela foi construída no nosso imaginário. Tarcísio era um homem maduro, com uma beleza que era propositadamente semelhante à dos astros de Hollywood, com uma posição muito específica nas histórias das quais fazia parte: ser o herói, o interesse romântico, o ideal.

Apesar dos estereótipos ainda serem parte tradicional de como funciona a dramaturgia no mundo, no universo das telenovelas ele nunca foi só uma ilustração e em grande parte do tempo, foi uma obrigatoriedade para manter a engrenagem girando. Autores tinham que “dançar conforme a música”, seguindo esses códigos, respeitando essas diretrizes, cristalizando não só as funções de personagens, como também de seus intérpretes. Do francês galant, um homem belo, educado, de atitudes irrepreensíveis, galante... Tarcísio encontrou essa posição definitiva em Irmãos Coragem, um ano depois de Paulo José estrear na TV para estabelecer uma outra característica: muitas vezes ser coadjuvante é ter a chance de brilhar longe de determinadas pressões.

Paulo nunca precisou de protagonistas para brilhar na TV, mas foi atravessando o tempo praticando uma interessante peripécia: fazer com que pensássemos em seus personagens como protagonistas. De certa forma, os trabalhos dele e de Tarcísio tinham funções primordiais, mas eles sempre foram um pouco rebeldes. Paulo assumia o proscênio naturalmente e Tarcísio se recusava a ser somente o galã, somente a vitrine do ideal masculino. O amadurecimento das narrativas teledramaturgicas, ali por volta dos anos 90, beneficiou Tarcísio especialmente. Ele ajudou a demarcar a forma e logo depois ele mesmo ajudou a transgredi-la.

Quando sua posição de “galã” ainda estava em vigência, Tarcísio construiu um vilão insuportável em Roda de Fogo (1986) -- que seria redimido, é claro, mas que demonstrava tons acima do que o público estava acostumado a vê-lo fazer. A posição de galã e de “mocinha” é sempre tão castradora, que se reflete até na aparência que os atores que os vivem precisam ter. Era muito comum, por exemplo, ver Tarcísio com o mesmo corte de cabelo. Por isso, quando foi ficando mais velho e cedendo lugar para outros galãs, ele pôde brincar com todo tipo de desconstrução, desde um comerciante torturador, desgrenhado e sujo, na minissérie A Muralha (2000), até um vampiro debochado em O Beijo do Vampiro (2002).

Curiosamente, ao passo em que Tarcísio mudava a figura de seus personagens e eles continuavam nas posições de protagonismo oficiais, Paulo José, que não teve sua carreira construída em cima dessas exigências físicas, podia continuar brincando de provocar o protagonismo com seu imenso carisma. O astro de Shazam e Xerife (1972) – aquele que pode ser considerado um dos primeiros spin-offs da televisão brasileira – ficou conhecido por ser mais um “ator de cinema”, mesmo que na ponta do lápis, seus trabalhos na TV e no cinema cheguem muito perto de um empate. Essa percepção é uma oposição direta a como Tarcísio ficou conhecido: como um “ator de TV”. Essa percepção pouco importa na prática (é tudo sonho e fantasia no fim das contas), mas ela nasce desse “distintivo” que chegava para Tarcísio sempre na frente: protagonista.

Mas, então, qual o nome que se dá ao que Paulo José conseguiu em 1997 com o Orestes de Por Amor? O trabalho do autor Manoel Carlos – que hoje em dia sofre terrivelmente com o peso do tempo – sempre teve uma condução minimalista, como no recorte de uma crônica; e sob esse aspecto, a novela Por Amor apresentou para o país um dos retratos mais honestos e comoventes da família brasileira. Paulo José vivia um homem já idoso, que não conseguia se reinserir no mercado de trabalho, que lutava contra o alcoolismo, que tentava juntar os pedaços da relação com a filha do primeiro casamento e que tinha com sua segunda filha, Sandrinha (Cecília Dassi), a mais mágica e emocionante relação da história da nossa TV. Era o coração de Paulo que protagonizava.

Esses dois gigantes, Tarcísio e Paulo, se encontraram algumas vezes em cena na TV. Na primeira vez, em 1971, numa novela de Janete Clair chamada O Homem Que Deve Morrer, o personagem de Paulo José, ainda criança, sonhava com uma luz que a trama da novela insinuava representar a chegada do personagem que era de Tarcísio. Não tinha como ser mais lúdico que isso... Voltaram a se encontrar outras vezes, mas na última vez que contracenaram juntos, em Um Anjo Caiu do Céu, as palavras trocadas entre eles transformaram aquela cena corriqueira do ano de 2001 num marco.

Alceu, personagem de Paulo José, morreu na novela no capítulo de 8 de Agosto de 2001. Na sequência em que ele se despede do personagem de Tarcísio, ele diz: “Nos vemos no céu”. O personagem de Tarcísio responde: “Mais rápido do que você pensa”. Paulo morreu no dia 11 de Agosto desse ano (quase exatos vinte anos depois daquela cena) e Tarcísio, no dia 12. Menos de 24 horas separam essas partidas, previstas por acidente na história de uma novela sobre um homem mortal que ganha a chance de se tornar um anjo. Foram juntos para cima, sem asas mesmo, mas deixando aqui o rastro de inspiração que mantém a vida em colorido. O nome desse rastro? Talento.

 

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