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Crítica

La Casa de Papel - 1ª parte | Crítica

Série espanhola prende espectador ao misturar emoção de novela com adrenalina de thriller de ação

Rafael Gonzaga
30.01.2018
20h03
Atualizada em
01.02.2018
20h23
Atualizada em 01.02.2018 às 20h23

Misturando a ação de narrativas policiais com a imprevisibilidade das relações humanas, a primeira parte da minissérie La Casa de Papel entregou uma história eletrizante e, ao mesmo tempo, emocionante. A trama gira em torno de um grupo de ladrões, hackers, especialistas em armas e falsificadores que são reunidos por um homem misterioso na missão de invadir o prédio da Casa da Moeda espanhola e roubar a maior quantia da história direto da fonte. O grande mérito da metade inicial da atração está em não deixar a tensão do sequestro cair em nenhum momento ao mesmo passo que não se priva de explorar ao máximo todas as possibilidades de envolvimento entre bandidos, reféns e autoridades policiais.

La Casa de Papel acompanha um homem chamado de Professor, vivido por Álvaro Morte, recrutando um grupo de pessoas com habilidades específicas para algo que planeja há tempos: um roubo de proporções homéricas. Enquanto ele tem o plano perfeito, Tokio (Úrsula Corberó), Rio (Miguel Herrán), Nairóbi (Alba Flores), Berlim (Pedro Alonso), Moscou (Paco Tous), Denver (Jaime Lorente), Helsinque (Darko Peric) e Oslo (Roberto García Ruiz) têm as habilidades necessárias para colocá-lo em ação - todos têm nomes de cidades para protegerem a própria identidade dentro do grupo: quanto menos se relacionarem entre si e souberem um do outro, melhor para o sucesso da missão.

É justamente conhecer mais a fundo cada um deles que cativa o espectador entre uma sequência de tiros e outra: todos os personagens carregam histórias problemáticas e possuem motivações que destroem a lógica binária de certo e errado, fazendo com que o público torça para os criminosos. Dramas como o de Nairóbi, uma falsificadora exímia que perdeu a guarda do filho após ser capturada pela polícia carregando drogas para vender, ou a relação de pai e filho de Moscou e Denver são eficientes em humanizar o grupo de bandidos. Paralelamente, a série faz questão de mostrar que o grupo não é santo: Berlim, o segundo no comando abaixo do professor, mostra uma faceta muitas vezes sádica e perturbadora; até mesmo Tókio, a primeira apresentada na atração, acaba sentindo necessidade de meditar sobre seu egoísmo e sua impulsividade.

O fato de fazer com que o espectador se apegue aos bandidos não quer dizer que o público torça necessariamente para o fracasso da polícia. Do outro lado da balança estão os negociadores do sequestro, liderados por Raquel Murillo (Itziar Ituño), uma mulher que precisa lidar com o descrédito de colegas de trabalho machistas e com o drama particular de ter sofrido violência doméstica do ex-marido, também policial. Enquanto dentro da Casa da Moeda sitiada a relação entre reféns e sequestradores floresce das mais diversas formas, do lado de fora Raquel e o Professor engatam dois tipos de relações: um jogo de gato e rato para ver quem terá sucesso no fim do assalto e, sem que ela saiba da verdadeira identidade dele, uma relação de romance entre os dois.

O resultado disso tudo é uma trama complexa onde certo e errado se confudem o tempo inteiro e são relativizados de acordo com as vivências prévias de cada um. Há uma discussão moral que é colocada em vários momentos na trama sobre o grupo de bandidos optar por ocupar a Casa da Moeda e produzir seu próprio dinheiro para, dessa forma, não tirar dinheiro de ninguém. O desenrolar do assalto mostra também as distintas experiências vividas por assaltantes, como arrependimento e dúvida, e pelos reféns, como ações motivadas pelo medo e até a corruptibilidade de cada um.

Algumas pessoas podem achar que La Casa de Papel tem uma dose muito alta da intensidade emocional das novelas latinas, mas isso é o que acaba dando personalidade à atração e fazendo com que ela não seja só mais um thriller policial pasteurizado. Na reta final da primeira parte da minissérie, pontes inéditas são construídas entre os personagens e mais informações reveladoras sobre o passado de alguns deles dão novo fôlego para a segunda remessa de episódios. Durante boa parte dos primeiros capítulos, o público acompanhou um Professor metódico antevendo os mais improváveis movimentos da polícia, mas, felizmente, a série coloca o estrategista em pé de igualdade à equipe de Raquel. Resta ao público esperar para ver como a história deverá caminhar para o fim enquanto torce simultaneamente para os vilões e para os mocinhos, sem nem saber categorizar direito quem é quem.

Nota do Crítico
Ótimo