High School Musical: O Musical: A Série

Créditos da imagem: Disney+/Divulgação

Séries e TV

Crítica

No seu 2º ano, série de High School Musical joga os holofotes nos coadjuvantes

Embora prove ser menos dependente do casal principal, nova temporada tem dificuldade de apresentar e sustentar novos conflitos no clube de teatro

Mariana Canhisares
02.08.2021, às 12H36

Por mais ganchos que a primeira temporada de High School Musical: O Musical: A Série tenha deixado, a expectativa para a estreia do novo ano não estava necessariamente no que seria do futuro dos protagonistas Nini e Ricky, mas como estariam Olivia Rodrigo e Joshua Bassett na série. No intervalo entre as temporadas, o relacionamento dos dois atores virou pauta não apenas na bolha teen, mas entre os fãs de música pop graças ao sucesso instantâneo do single “drivers license” e a subsequente “treta” com o clipe de “Lie Lie Lie” e o lançamento de Sour. Logo, vê-los contracenando novamente parecia o desenvolvimento que faltava para a fofoca mais debatida dos últimos tempos.

O interesse pelo término do casal da vida real, porém, não se sustentou por mais de dois episódios. Porque, conforme Nini e Ricky enfrentavam seus dilemas fictícios nos seus poucos encontros presenciais, o seriado finalmente deu o palco que os demais alunos do East High tanto mereciam, sem sofrer grandes danos narrativos. Pelo contrário. A segunda temporada prova que, diferentemente da franquia original, HSMTMTS não depende tanto dos seus grandes astros para mover a história adiante e manter a inocência divertida que ganhou o público desde o primeiro episódio. Há no clube de teatro outras tantas personalidades que valem a pena serem exploradas.

Gina (Sofia Wylie) é uma das personagens com o maior salto de importância. Se no primeiro ano ela servia como artifício para trazer problemas para o casal principal, agora a desconstrução da sua faceta “vilanesca” -- já fajuta na temporada anterior, é verdade -- se completa e ela encara suas questões de frente. De uma vez por todas.

Enquanto o clube de teatro se prepara para o seu novo espetáculo, uma adaptação de A Bela e a Fera que decidirá o futuro da turma -- e por “futuro” leia-se “orçamento” --, a dançarina tenta superar o fantasma da rejeição. Desde o final da primeira temporada, o desejo não correspondido por Ricky aprofundou sua insegurança e a pôs para se questionar sobre seu lugar no mundo mais uma vez. Em vez de soar como um repeteco, o arco da personagem ganha contornos mais interessantes ao mostrá-la, pela primeira vez, olhando para sua própria história com um pouco mais de generosidade. O episódio que deixa essa mudança explícita é todo situado em um aeroporto, com Gina interagindo com outro jovem -- ninguém menos que Asher Angel, o Billy Batson da DC -- que morou em todo canto, como ela. Com tempo de sobra para brilhar, Wylie termina de render os fãs mais carrancudos de HSMTMTS, se é que eles ainda existiam, e engata o arco de autodescobrimento da adolescente com um otimismo inédito para a personagem.

Ela, contudo, é apenas um exemplo. Poderia citar também EJ (Matt Cornett), que passa a questionar as expectativas da sua família e seu próprio privilégio; o casal Carlos (Frankie A. Rodriguez) e Seb (Joe Serafini) que, como únicos jovens gays da turma, passam a ter dúvida se estão juntos por conveniência ou porque realmente faz sentido; ou ainda Ashlyn (Julia Lester) que por vezes não se sente à altura de ser a protagonista da peça por não ter o corpo "padrão" da Bela. Embora todas estas questões sejam desenvolvidas em uma bolha cor-de-rosa e confortável, nem por isso são levadas menos a sério. Na realidade, chega a ser surpreendente que a Disney, tão conservadora como é, tenha dado estes passos na discussão sobre diversidade. Pequenos? Sim, mas relevantes para que adolescentes possam se sentir acolhidos como são, um tema que ecoa em HSMTMTS do início ao final.

Nesse contexto, Nini acaba ocupando um papel coadjuvante na trama, ora indo atrás do seu sonho pop por conta própria, ora dando aquele empurrãozinho que seus colegas precisam. Por menores que sejam seus momentos, Rodrigo tem muito carisma e, como era de se esperar, entrega ótimas performances, com destaque para “The Rose Song”. No entanto, não se pode negar que o já desinteressante romance entre ela e Ricky fica ainda mais tedioso nessa temporada. A separação do casal é prolongada por tempo demais e deixa o skatista em um lugar de introspecção que, embora faça sentido, não propõe o desenvolvimento emocional gradual esperado para o personagem. Ele amadurece, mas em uma virada imediata que destoa do restante do caminhar lento do seu arco.

Contudo, não é esse o grande problema da segunda temporada de HSMTMTS. Na realidade, o desequilíbrio na trajetória de Ricky passa despercebido diante da mal aproveitada rivalidade entre o East High e a North High, escola famosa por suas produções teatrais estudantis que foi introduzida neste ano. Isso porque a série prefere explicar algumas situações do conflito central da temporada em vez de efetivamente mostrá-las. Por exemplo, dizem que a apresentação da instituição adversária foi incrível, mas o seriado não revela nada da performance da nova vilã Lily (Olivia Rose Keegan) ou sequer dá indícios de por que os estudantes do East High estão tão apreensivos com a competição. Do mesmo modo, HSMTMTS opta por criar muita tensão introduzindo um imprevisto no meio da apresentação dos protagonistas apenas para resolvê-lo no início do episódio seguinte com uma fala simplista, que esvazia a experiência e termina por frustrar o espectador que passou os 11 episódios anteriores assistindo à preparação para a peça e, diferentemente do que aconteceu no ano anterior, mal pode vê-la.

Por isso, ainda que seja uma boa notícia que a série possa sobreviver sem se sustentar exclusivamente no romance entre Nini e Ricky -- sobretudo considerando como o final parece já preparar o terreno para a despedida de Olivia Rodrigo --, a segunda temporada de HSMTMTS deixa a desejar. Uma pena, considerando que a produção foi capaz de fazer o mais difícil, isto é, deixar para trás o buzz barulhento das fofocas para se perder justamente em algo tão básico quanto a construção do conflito principal.

High School Musical: O Musical: A Série
Em andamento (2019- )
High School Musical: O Musical: A Série
Em andamento (2019- )

Criado por: Tim Federle

Duração: 2 temporadas

Nota do Crítico
Bom

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