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Séries e TV

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Bromos: A amizade entre gays e héteros nas séries de TV

As relações de amizade entre gays e heteros por uma ótica especialmente fraternal

Henrique Haddefinir
25.06.2020
17h18
Atualizada em
25.06.2020
19h01
Atualizada em 25.06.2020 às 19h01

No ótimo documentário da Netflix Disclosure (Revelação), personalidades midiáticas, atores e atrizes falam sobre a representação trans na televisão e no cinema. Um momento em particular parece resumir os reflexos dessa representação perante o público em geral: Laverne Cox explica que 80% da população não conhece ninguém que seja trans e, por isso, a ideia que essa fatia faz dessa experiência é estritamente baseada no que a mídia e a cultura pop propagam. Ou seja, a arte pode ser responsável por construir estereotipos, mas ela também é capaz de destruí-los. Com relação a gays e lésbicas, uma simples proximidade também pode ampliar perspectivas de uma forma surpreendente.

Infelizmente, durante muito tempo a abordagem de personagens homossexuais masculinos a homens heterossexuais acontecia pelo viés da caça. Os personagens gays viam todos os heteros como conquistas potenciais e os heteros agiam como se pudessem ser atacados a qualquer momento. Entre as mulheres, a abordagem era um pouco diferente, mas igualmente chapada. As personagens lésbicas surgiam como uma muleta para alguma mulher hetero que precisava entender que o que ela estava vivendo com um homem não era uma relação de afeto verdadeiro. Uma vez esclarecido, a personagem lésbica já tinha cumprido sua função e podia se retirar.

A forma como essas relações foram descritas nas séries de TV passam pelo mesmo processo de evolução representativa. Durante algum tempo não havia nada. Depois as amizades entre homens gays e homens heteros passaram a ser construídas com bases na heteronormatividade de ambos , o que tornava tudo mais digerível para a audiência. Aos poucos, com um crescimento maior do interesse da indústria pela diversidade de enredos, as pautas foram se ampliando, vozes puderam ser ouvidas de uma forma como nunca tinham sido antes e a representação das amizades “bromossexuais” (como são chamadas nos EUA), quebrou as últimas barreiras. Mas, vamos começar do início.

Dawson's Creek

Foto de Dawson's Creek
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Quando Jack (Keer Smith) saiu do armário em Dawson's Creek, começou a ser festejado pela mesma razão pela qual também era diretamente problematizado. Jack era totalmente heteronormativo, não tinha em suas características quase nada que fosse reconhecido imediatamente como parte da cultura gay. Isso era positivo para a época, porque apresentava a figura homossexual por uma nova perspectiva. Mas, também acabava marginalizando a figura do gay afeminado, uma vez que era através de Jack que a audiência se sentia mais confortável. Isso tornou extremamente possível para os amigos heteros do personagem, Dawson (James Van Der Beek) e Pacey (Joshua Jackson), criarem um laço imediato com o rapaz e que perdurou por toda a série. Foi Pacey, inclusive, quem batalhou muito com Jack contra a humilhação que levou-o a precisar sair do armário.

Buffy – A Caça-Vampiros

Foto de Buffy – A Caça-Vampiros
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Na outra ponta e nessa mesma época, quando Willow (Alyson Hannighan) saiu do armário, ela e Buffy (Sarah Michelle Gellar) já eram grandes amigas. Mesmo assim, isso não diminuiu o impacto da história, que se tornou até mais intensa depois disso. É fato que em Dawson's Creek havia mais tempo de desenvolvimento emocional, mas Buffy tinha como diferencial a capacidade de extrair emoções reais de um cenário extremamente inverossímil. Era muito especial que tanto Willow quanto Jack, cada um em sua série, pudessem falar sobre suas angústias pessoais com qualquer outro personagem, sem distinção.

Happy Endings

Foto de Happy Endings
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Aproveitando que começamos essa lista citando Dawson's Creek, vamos passar para o apogeu das mesmas diretrizes que criaram Max (Adam Pally), na comédia Happy Endings. Se Jack ainda resguardava um ou outro fator de sensibilidade pelos quais os gays são reconhecidos, Max era – como os amigos mesmo diziam – um “cara hetero que gostava de homens”. Sua amizade com Dave (Zachary Knighton) era muito marcante na série, mas também era muito possível, já que era como se dois heterossexuais estivessem morando na mesma casa.

A série brincava o tempo todo com a falta de identificação que Max tinha com o universo gay e é claro que isso também falava para uma específica parcela do público. Contudo, os roteiros nunca se esqueceram que Max era gay e apesar de toda a discussão sobre a esterilização da conduta homoafetiva que a série promovia, era bonito ver como Dave nunca se intimidou pela orientação sexual do amigo.

Spartacus

Foto de Spartacus
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Citar Spartacus, a série do Starz, nesse contexto pode parecer um exagero. Mas, quem acompanhou-a sabe que havia um detalhe sobre a rotina dos gladiadores que era muito interessante: apesar do ambiente extremamente heteronormativo e cheio de violência, não havia absolutamente nenhuma conduta homofóbica por parte dos gladiadores heterossexuais para com os que eram homossexuais. A presença de Agron (Dan Feuerriegel) como braço esquerdo de Spartacus (Liam McIntyre) colocou o personagem no centro dos acontecimentos e vários dos grandes momentos do final da série foram protagonizados por ele e sua lealdade para com o amigo.

Glee

Foto de Glee
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Glee talvez tenha sido uma das primeiras séries a quebrar a barreira da heteronormatividade. Mas, não completamente. Kurt (Chris Colfer) acabou tendo uma ligação maior com as personagens femininas, mas Blaine (Darren Criss) se tornou um grande amigo de Sam (Chord Overstreet) e essa amizade foi tema de um ótimo episódio que discutiu justamente até que ponto a proximidade entre homens heteros e homos pode ou não evoluir para um interesse romântico.

Ainda que essa interação seja o exemplo dessa lista que tenha tocado nesse desejo, a condução do episódio foi muito centrada e Sam fez interferências corretas ao lidar com tudo. Blaine não era tão afeminado quanto Kurt, mas tampouco suas características pessoais eram construídas dentro de esferas hiper-masculinas.

Orange Is The New Black

Foto de Orange Is The New Black
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Orange Is The New Black esteve cercada de grandes relações tanto fraternais quanto homoafetivas. Mas, a maior e mais catártica, sem dúvida, foi a que vimos acontecer entre Poussey (Samira Wiley) e Taystee (Danielle Brooks). Ate houve um momento em que essa amizade passou por estágios de interesse romântico, mas apesar de tudo ter permanecido platônico, a ligação entre elas nunca foi abalada. O que ninguém esperava era que a morte de Poussey fosse elevar tudo isso a uma ótica sensorial cheia de desdobramentos. A perda desse amor fraternal tão absoluto transformou Taystee de uma maneira irreversível e ela se tornou, enfim, a personagem mais importante da série dali em diante.

Love, Victor

Foto de Love, Victor
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A recente estreia da série Love,Victor no Hulu apresentou mais uma das facetas dessas relações bromossexuais. Victor (Michael Cimino) se torna amigo do vizinho Felix (Anthony Turpel) e por mais improvavél que seja essa amizade, ela funciona perfeitamente por conta da maneira terna e inteligente com a qual ela é conduzida. Quando Victor se assume para o amigo, os roteiristas surpreendem com uma cena sensível, natural, em que alguém reaje a um segredo sendo compartilhado com o cuidado que isso exige, seja esse que segredo for. A amizade entre os dois é um dos pontos altos da série e um ganho imenso para esse quadro contemporâno de representatividade.

Sex Education

Foto de Sex Education
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A presença de Sex Education no final dessa lista tem seu lugar de notoriedade. A relação entre Otis (Asa Butterfield) e Eric (Ncuti Gatwa) é aquela que pode ser eleita como a relação ideal dentro das representações no mundo das séries de TV. A começar por um detalhe muito importante: não há, em toda a série, um só momento em que a amizade entre um cara hetero e branco; e um cara gay, preto e afeminado, seja colocada em questão, seja problematizada, seja discutida. Otis e Eric simplesmente vivem e os outros personagens se comportam com extrema naturalidade perante os dois. Eles compartilham suas experiências, segredos, falhas e coisas em comum como qualquer dupla de amigos em que as orientações são iguais. É uma relação incrível e, sem dúvida, o exemplo mais completo de tudo o que foi dito aqui.

BFF's

Foto de Will and Grace
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Seria impossível terminar esse texto sem falar sobre um grande clássico: a amizade entre gays e mulheres heteros. Durante muito tempo essa foi a única abordagem passível de representação na TV e em quase todos os casos, o humor estava inevitavelmente atrelado a essa interação. A dinâmica é um facilitador das aceitações de massa justamente porque se dá através do riso, ou simplesmente através da coadjuvância.

Por isso, vale a pena citar algumas transgressões dessa fórmula, como no caso da amizade entre Jack (Keer Smith) e Jen (Michelle Williams) em Dawson's Creek, em que a proximidade dos dois se deu através da dor e apesar de muitos momentos leves os acompanharem, havia o cuidado de não superficializar a presença de Jack como observador das experiências de Jen, somente. Ou no caso de outro Jack, o McFarland (Sean Hayes) de Will & Grace, que junto com Karen (Megan Mullaly) protagonizou quilos e quilos de transgressão moral no sitcom. A própria amizade de Will (Eric McCormack) e Grace (Debra Messing) poderia ser usada como exemplo, embora a simbiose entre os dois acabasse sendo mais um problema que uma diversão.

Há algumas variações interessantes, como no caso de Grey's Anatomy, em que a amizade era entre um homem hetero e uma mulher bi. Mark (Eric Dane) e Callie (Sarah Ramirez) acabaram se envolvendo sexualmente e tiveram até uma filha, mas a fraternidade sempre foi o ponto principal entre eles. Ou mesmo com a Debbie (Sharon Gless) de Queer As Folk, que era amiga de todos os gays do programa. Contudo, a estrutura maior era mantida na dinâmica Mulher Hetero despejando seus problemas no Amigo Gay, como se ele não tivesse sua própria vida. Em Sex And The City isso rende até mesmo um confronto entre Stanley (Willie Garson) e Carrie (Sarah Jessica Parker), quando ele reclama que ela nunca está disposta a ouvir nada que não seja a própria ladainha. Uma situação parecida com a que Kurt (Chris Colfer) e Rachel (Lea Michele) viviam em Glee.

Enfim, é claro que falar sobre a amizade entre gays e heteros é uma forma de sublinhar os aspectos positivos e os maiores ganhos do exercício da aceitação. Mas, a amizade entre homens gays foi ilustrada com tanta beleza quanto, como em Looking, da HBO, uma série que reúne várias exemplificações modernas sobre em quais estágios estão as relações interpessoais dentro da comunidade. Apesar da torcida ser para aquele momento em que tudo isso será tão natural e orgânico quanto em Sex Education, por enquanto é preciso trazer para a proscênio a marca da tolerância, é preciso tentar dar a todos uma chance de identificação e é preciso celebrar o exercício do exemplo.