Paul Walter Hauser e Taron Egerton em cena de Black Bird (Reprodução)

Créditos da imagem: Paul Walter Hauser e Taron Egerton em cena de Black Bird (Reprodução)

Séries e TV

Entrevista

Black Bird examina “escala” da masculinidade tóxica: “Todo homem está nela”

Dennis Lehane, Taron Egerton e cia. falam ao Omelete sobre a série do Apple TV+

Omelete
5 min de leitura
Caio Coletti
08.07.2022, às 06H00

Dennis Lehane não queria trabalhar em Black Bird. O roteirista e novelista aclamado de Sobre Meninos e Lobos, Ilha do Medo e Mr. Mercedes contou ao Omelete que o produtor Kary Antholis teve que convencê-lo a assumir o projeto, porque ele estava cansado de histórias sombrias, de histórias de prisão, de histórias de serial killers” - e Black Bird é definitivamente todas essas coisas.

Na trama da série do Apple TV+, baseada em uma história real, acompanhamos Jimmy Keene (Taron Egerton), um criminoso condenado a 10 anos de cadeia que, para reduzir sua sentença, aceita uma missão do FBI: se aproximar do assassino em série Larry Hall (Paul Walter Hauser), a fim de extrair confissões que sirvam para mantê-lo preso por mais tempo.

Foi ao ler o livro sobre o caso, escrito pelo próprio Keene ao lado de Hillel Levin, que Lehane identificou um tema que tinha interesse em explorar. “Para todos os lugares em que olhamos, hoje em dia, existe masculinidade tóxica. Provavelmente é uma das maiores dádivas que a internet nos deu”, ironiza ele.

Então, eu pensei: se um serial killer de mulheres é o ponto mais extremo dessa masculinidade tóxica, onde o resto dos homens fica? Porque eu acho que todos estão em alguma posição nessa escala da misoginia, mesmo que seja bem no começo dela, e não seja algo maligno”, continua. “Com o maior progresso que o movimento feminista vem fazendo, um tipo particular de homem vem reagindo a isso. Agora você tem incels, e supremacia branca, e uma cultura muito tóxica no mundo todo”.

Por isso, o roteirista desenhou para o seu Jimmy Keene, que ele frisa o tempo todo ser uma versão altamente ficcionalizada do personagem real, uma jornada de reconhecimento e confronto dessa toxicidade. “No começo da série, dizem a Jimmy que ele precisa encontrar algo em comum com Larry Hall se quiser extrair confissões... como você encontra algo em comum com um serial killer? Minha resposta para isso foi: você começa a interrogar a forma como se sente em relação às mulheres”, aponta.

Jimmy vs. Larry

Taron Egerton e Paul Walter Hauser são os primeiros a admitir que seus personagens em Black Bird têm traços bastante perturbadores. Hauser, conhecido do público por suas interpretações em Eu, Tonya e O Caso Richard Jewell, se recusou a conhecer o verdadeiro Larry Hall antes, durante ou depois da produção da série.

Eu só faria isso se ele assistisse à série, gostasse do meu trabalho, e o FBI achasse que eu pudesse conversar com ele, de alguma forma extrair mais informações que ajudassem as famílias de suas vítimas”, declara o ator. “Se achassem que eu podia ajudar dessa forma, eu com certeza estaria disposto... Mas, tirando isso, por mim mesmo, não tenho motivo e nem desejo de conhecê-lo”.

Egerton, astro de Kingsman e Rocketman, conheceu o verdadeiro Keene brevemente (ele até tem uma rápida aparição na série, no sexto e último episódio), mas não tem certeza se aceitaria um acordo como esse: “Depende muito do que está acontecendo na minha vida. Não posso dizer exatamente o porquê, mas, se você tivesse me perguntado 3 meses atrás, eu definitivamente diria 'sim'. Hoje em dia, eu diria 'não'”.

Embora admita que só tenha percebido o tema maior da masculinidade tóxica uma vez que viu o produto final (fiquei o tempo todo isolado em minhas escolhas para o personagem”), Hauser tem uma sentença simples e certeira sobre o assunto:Eu acho que a masculinidade tóxica tem muito a ver com insegurança. São homens que tentam preencher um buraco dentro de si, que deveria ser preenchido com amor... Ao invés disso, eles usam substitutos ruins para o amor”.

“Não existe vencedor nessa história”

Sepideh Moafi e Greg Kinnear em cena de Black Bird (Reprodução)
Sepideh Moafi e Greg Kinnear em cena de Black Bird (Reprodução)

Greg Kinnear, que interpreta o detetive Brian Miller em Black Bird, confessa que nunca foi fã de narrativas inspiradas em crimes reais. Sinto que elas frequentemente são contadas às custas das vítimas. Mas, nesse caso, senti que havia um grande respeito, no roteiro, para com as pessoas que faleceram como resultado das ações de Larry Hall. Em todo momento, a realidade do que estava acontecendo na trama era sentida”, diz.

De acordo com Dennis Lehane, esse tom respeitoso é inteiramente intencional. “Eu estava muito determinado, quando topei esse projeto, a honrar as mulheres que morreram”, diz ele, citando o quinto episódio da série como aquele dedicado a permitir que as vítimas do serial killer retomem posse de suas histórias”. 

A fala crucial daquele capítulo, e talvez da série toda, é: ‘Você pode morrer, mas você não pode des-viver’”, aponta. “Essa mulher está dizendo que teve uma vida mais rica que quase todos os outros personagens da série - os Larry Hall's desse mundo não têm vidas ricas, vidas admiráveis, vidas invejáveis. Minhas filhas viram uma foto de Larry na minha mesa enquanto eu estava escrevendo esse episódio, e me perguntaram quem era ele. Eu disse: 'Não toquem nisso!'. Agi como se a imagem dele fosse radioativa”.

O roteirista define Black Bird como a história de alguém que se torna uma pessoa melhor, mas ao mesmo tempo perde uma parte irrecuperável de si no processo”. O astro Taron Egerton ecoa esse sentimento ao dizer que tem orgulho de seu trabalho na série, mas que a história em seu centro não é sexy, nem glamorosa”.

Ele arremata: “Vou deixar que o público decida o que pode ser tirado de Black Bird, [mas] o que eu amo sobre os roteiros de Dennis é que essa história não é glorificada, não é uma jornada arquetípica do herói que consegue pegar o vilão. Não existe nenhum vencedor na nossa história”.

Black Bird estreia seus dois primeiros episódios nesta sexta-feira (8), no Apple TV+. Os capítulos seguintes serão lançados semanalmente.

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