Detalhe de arte de Jack Kirby para projeto Lord of Light

Créditos da imagem: Reprodução

San Diego Comic-Con 2020

Lista

SDCC pós-créditos: 10 painéis que você provavelmente não viu - mas deveria

Jack Kirby psicodélico, EC Comics e a melhor animação stop-motion do mundo hoje

Diego Assis
28.07.2020
11h00
Atualizada em
28.07.2020
12h22
Atualizada em 28.07.2020 às 12h22

Quem já foi a uma San Diego Comic-Con, CCXP ou qualquer festival gigante com 50 coisas acontecendo ao mesmo tempo sabe que é preciso fazer escolhas -- ficar 8 horas na fila para entrar no auditório principal e ver de perto as atrações mais disputadas ou correr por fora e investir o tempo em uma quantidade maior de atrações menores em salas ou palcos paralelos? Ser o primeiro da fila e saber em primeiríssima mão aquilo que outros vão levar, digamos, 5 minutos para conhecer também pelas redes sociais ou partir para o garimpo, mergulhar no desconhecido e descobrir coisas que nem você sabia que existiam?

Em sua primeira edição online da história, realizada em plena pandemia de coronavírus, a San Diego Comic-Con deste ano também obrigou os fãs de cultura pop a tomarem decisões parecidas. Mesmo privados da experiência física e em tempo real, desde sempre um dos maiores diferenciais de eventos desse tipo, a maioria do público optou por priorizar os grandes painéis da chamada Comic-Con@Home.

Basta dar uma olhada no canal do evento no YouTube para constatar que, mesmo de maneira virtual o público acabou construindo seu próprio Hall H, principal auditório do centro de convenções de San Diego com capacidade para 6.500 pessoas.

Fosse na versão presencial do evento -- e considerando que todos os espectadores do YouTube tivessem comprado ingressos e passagens aéreas --, os painéis de Vikings e de Novos Mutantes teriam sido, de longe, os mais disputados do ano, com um volume de views que daria pra encher mais de 30 vezes o Hall H. Cada um. Também teriam lotado o auditório -- e ainda deixado de fora muita gente que dormiu ao relento na fila -- os painéis de Walking Dead, Star TrekThe Boys.

Esses são apenas 5 dentro dos cerca de 350 painéis que a Comic-Con promove todo ano para debater os assuntos mais variados dentro dos espectros de nerdice, que vão bem além das franquias de sucesso no cinema, na TV e nos serviços de streaming. E, assim como em sua versão presencial, esses painéis nanicos, realizados em salas com capacidades para 300 a 600 pessoas, acabam passando quase despercebidos dentro da loucura dos 4 dias de evento.

Mas se até hoje eles aconteceram num esquema de quem viu viu, quem não viu visse, a edição digital da Comic-Con permite voltar no tempo e conferir, com calma, verdadeiras pérolas que em outras circunstâncias não teriam alcançado mais que algumas dezenas de pessoas. E melhor ainda: que a gente compartilhe com os amigos, que infelizmente vão precisar se virar bem no inglês, como faremos na lista abaixo.

A disneylândia psicodélica de Jack Kirby

No final dos anos 70, depois de deixar a Marvel pela segunda vez para trabalhar em animações para a TV, o lendário artista Jack Kirby se envolveu em um projeto maluco para adaptar o clássico sci-fi Lord of Light, de Roger Zelazny, para o cinema. O projeto, para o qual Kirby criou artes psicodélicas como a que abre esta matéria, envolvia a criação de um parque temático nos EUA chamado Science Fiction Land. Nada disso deu certo, mas sobraram histórias fantásticas e inacreditáveis, incluindo uma famosa operação da CIA no Irã que acabou inspirando o filme Argo e rendendo um Oscar de melhor filme a Ben Affleck em 2013. Destaque para os personagens e o clima meio David Lynch do painel. 

E.C. Comics: Terror e loucura nos quadrinhos

Quem conhece os livros da editora Taschen sobre as Eras de Ouro e de Prata da DC Comics e da Marvel sabe o que esperar em termos de cuidado de pesquisa, reproduções de páginas e acabamento -- além dos preços bem salgadinhos. Agora imagina ter acesso a tudo isso, de graça, em uma apresentação em primeira mão feita pelo próprio autor, o historiador de quadrinhos Grant Geissman, sobre um dos próximos grandes lançamentos da editora alemã: um catatau de mais de 1.000 páginas contando a trajetória da EC Comics, de sua fundação em 1944, passando pela onda de HQs de crime, sci-fi e horror (a lendária Tales from the Crypt é deles) até a criação da revista MAD. Verdade que o ppt toscão que Geissman usa para narrar o painel não chega aos pés da qualidade visual dos livros da Taschen, mas o conteúdo está todo lá. Vale a pena!

Dos mesmos criadores dos documentários que amamos

Nacelle Company provavelmente você não sabe o que é, mas se falarmos em Brinquedos que Marcaram Época ou Filmes que Marcaram Época, duas das séries documentais mais legais da Netflix para quem curte brinquedos e cultura pop dos anos 80, fica mais fácil entender o que esperar desse painel. Trata-se de uma conversa entre o fundador da produtora Nacelle, Brian Volk-Weiss, com jornalistas e designers de brinquedos para falar da mais recente aposta da empresa, o documentário A Toy Store Near You (Uma Loja de Brinquedos Perto de Você, em tradução livre). Filmada em plena pandemia da covid-19, a série documenta a realidade de 50 lojas de brinquedos antigos em todo o planeta, bem como a luta pela sobrevivência neste cenário dramático de seus apaixonados donos e funcionários. O painel da SDCC é meio cansativo para quem não quer saber dos bastidores da produção. Nesse caso, dá para pular direto para o canal da Nacelle no YouTube e começar a assistir os episódios do novo doc, que estão sendo lançados a conta-gotas por lá.

O futuro distópico do cinema pós-covid

Se a pandemia de coronavírus atingiu forte toda a indústria de cinema e televisão ao redor do mundo, interrompendo e alterando provavelmente para sempre a realidade de grandes produções, a produtora Halon Entertainment parece estar no lugar certo, na hora certa. Em um painel bastante didático sobre o seu trabalho de "produção virtual", a companhia mostra como já emprega tecnologia de ponta para que diretores e atores consigam visualizar, em tempo real, no set (ou mesmo remotamente, de casa, o que é ideal em tempos de isolamento social), o resultado de cenários e efeitos criados por computador que antes levariam horas para renderizar. Espere cenas de making-of reveladoras de produções como The Mandalorian, Logan, Ford v Ferrari, Mouse Guard e outros. Entre os projetos em que a Halon trabalha agora mesmo está nada menos que o esperadíssimo The Batman.

Hip-hop e quadrinhos, tudo a ver

Quem acompanha as dicas de nosso querido Load Comics já está mais que convencido de que rap e quadrinhos fazem uma bela dobradinha -- o trabalho magistral de Ed Piskor na HQ Hip-Hop Genealogia, para citar só um, não me deixa mentir. Mas para quem quer ir mais a fundo no tema, entendendo, por exemplo, como ambas as culturas vivem influenciando umas as outras, reproduzindo e remixando referências pop desde o dia zero, esse painel vale a atenção. Editado como se fosse um documentário -- ou uma mixtape --, o vídeo encadeia depoimentos de mais de uma dezena de rappers, estudiosos e DJs para mostrar como essa relação se desenvolveu ao longo do tempo, do grafiti aos quadrinhos, e como, hoje, um não vive mais sem o outro.

O horror, o horror!

Em meio a tantos painéis visualmente sem graça da SDCC, em que os participantes aparecem em formato de videconferência em cenários sem qualquer inspiração, é no mínimo reconfortante acompanhar alguns minutos de conversa das atrizes e apresentadoras do podcast Let's Get Spooky, que falam de episódios estranhos que aconteceram em sets de filmagem, easter eggs indesejados e hilários, além de teorias sobre as mortes nos bastidores de Poltergeist.

Os 7 Magníficos do stop-motion

Não poderia haver expressão melhor para descrever o trabalho desse time de representantes da animação mexicana contemporânea: Magníficos! Especializados em stop-motion, cada um dos diretores participantes do painel têm um portfólio de cair o queixo, além de mais de uma dúzia de estatuetas acumuladas em curtas-metragens que misturam elementos da cultura popular mexicana, como o  "día de los muertos". Vale assistir o vídeo acima pausando e googlando cada nome para mergulhar em uma viagem de curtas um melhor que o outro. Bobo nem nada, Guillermo del Toro já arrebanhou alguns deles para trabalhar em um longa stop-motion de Pinóquio que promete ser a versão mais sombria dessa história já filmada. O longa deve estrear em 2021 na Netflix. Com trilha sonora de Nick Cave. Precisa de mais?

Eles que luchem!

Além da relação de longa data com Guillermo del Toro e com o próprio povo mexicano, que, afinal, está a poucos quilômetros da cidade de San Diego, a Comic-Con deste ano resolveu homenagear o país e fazer uma parceria cultural que resultou neste curiosíssimo painel sobre lucha-libre. Quer entender mais sobre esse universo, sua história, principais personagens e contribuições para a cultura pop? Então pode começar por aqui, ouvindo da boca de especialistas no esporte, atletas profissionais como Rey Misterio e até um pesquisador que tem uma invejável coleção de máscaras, uma melhor que a outra.

Soldado Invernal e Capitão Gancho entram num bar...

Ah, os cosplayers... Uma das melhores coisas da San Diego Comic-Con, a edição deste ano deixou a desejar nesse quesito, mas ainda assim rendeu momentos no mínimo curiosos como este painel em que vilões como Capitão Gancho, Dolores Umbridge e o Rei George III reclamam da incompreensão da sociedade. Destaque para a "mediação" do Soldado Invernal e as piadas de tiozão que podem funcionar ou não, a depender do gosto do freguês.

Mestres do estilo

Para muito além dos quadrinhos de super-heróis, a San Diego Comic-Con é sempre um bom lugar para conhecer artistas do cenário alternativo americano. Neste bate-papo, mediado pelo editor da Fantagraphics Gary Groth, aprendemos um pouco mais sobre as inspirações e o processo de trabalho de nomes importantes dessa cena como Gilbert Hernandez (da série Love & Rockets), Jim Woodring (The Frank Book), Mary Fleener (Sluttburger) e de Roman Muradov (autor da graphic novel Vanishing Act e de diversas capas para a prestigiosa revista New Yorker).