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X-Men: <i>Deus ama, o homem mata</i>

X-Men: <i>Deus ama, o homem mata</i>

Pedro Hunter
03.05.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

Com o lançamento do segundo filme dos heróis mutantes da Marvel Comics, o Omelete julgou interessante rever a história que introduziu a personagem que é o principal oponente dos X-Men na película, a graphic novel O conflito de uma raça (no original God loves, man kills). Originalmente publicada em terras tupiniquins no distante janeiro de 1988 e que brevemente voltará às bancas pela Panini com o título de Deus ama, o homem mata.

Em meados dos anos 80, a Marvel Comics tentou sua primeira incursão nas livrarias. O editor-chefe Jim Shooter reconheceu, com o sucesso de Will Eisner e outros autores de HQs isolados neste mercado, o potencial para vender revistas em livrarias. A idéia era lançar edições inspiradas nos álbuns europeus, com formato maior e papel, cores e impressão muito superiores aos utilizados nas HQs americanas de então. As histórias seriam fechadas para evitar que os leitores ocasionais fossem sufocados pela complexa cronologia das personagens da editora. A idéia acabou fracassando, mas gerou alguns frutos bastante interessantes, como esta publicação em particular.

Escrita pelo já experiente roteirista dos mutantes Chris Claremont, desenhada pelo sempre talentoso Brent Anderson e colorida por Steve Oliff (que se tornaria o maior colorista dos Estados Unidos nos anos 90), a história mostra o conflito dos X-Men contra o pastor William Stryker, que pretende provocar uma guerra entre a humanidade e os mutantes.

Fugindo de seu estilo habitual, Claremont escreveu uma eficiente história fechada. Todos os planos e motivações de Stryker são bem apresentados e explicados, os próprios X-Men recebem uma notável apresentação nas primeiras páginas (embora curiosamente Magneto não tenha esse privilégio) e a história flui sem problemas até o final, algo previsível, porém efetivo.

Não sobra nenhuma ponta solta e a trama, como conseqüência, jamais teve continuação (embora atualmente Claremont esteja trabalhando nesse sentido, com certeza tentando aproveitar a publicidade). Só isso já faz dela uma avis rara entre as histórias dos X-Men. Merece também menção por ter sido a primeira vez em que os heróis trabalharam ao lado de seu principal inimigo, Magneto; parte do processo de regeneração do personagem, que o faria se juntar ao grupo (uma péssima idéia que depois foi revertida). No entanto, esse fato ainda estava no futuro distante.

Nem tudo, porém, são flores no roteiro. O ponto fraco de Claremont, os diálogos intermináveis e redundantes, está presente em força na história; assim como sua obsessão em colocar as personagens do sexo feminino no centro da trama. Entretanto, essa é parte integrante (alguns diriam até essencial) do trabalho do escritor.

A arte de Anderson (atualmente desenhando Astro City) é clássica e de ótima qualidade. Pode parecer antiquada para estes tempos de mangá e Frank Quitely, mas cumpre seu papel.

As cores de Oliff é que foram as mais atingidas pelo peso da idade. Embora distantes da colorização primitiva do quadrinho americano da época, ainda estavam longe de cumprir todo seu potencial. Usar trezentas tonalidades diferentes ao colorir um rosto que não tem variação de luz incidente é deslumbramento do colorista e não talento! Também há uma preferência marcante por cores demasiado sóbrias, que tornam o resultado final pesado demais para um quadrinho de super-heróis. Oliff aperfeiçoaria sua técnica ao colorir a versão americana de Akira e, por fim, seria o grande pioneiro das cores por computador nos quadrinhos, mas ainda levaria muito tempo...

Vale mencionar duas curiosidades. Em dado momento, as personagens vão ao World Trade Center, que, na época, tinha ainda menos anos de existência do que hoje tem a trama! Mais adiante, ficamos sabendo que Stryker era militar antes de abraçar a religião. Como o Stryker do cinema é militar, ficamos imaginando se ele aparecerá como pastor em uma futura continuação da série cinematográfica...