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X-Men: A era Jim Lee

X-Men: A era Jim Lee

Marcus Vinícius de Medeiros
01.05.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

X-Men 1 - 8 milhões de
exemplares vendidos!!!


X-Men 2

X-Men 3

Uncanny X-Men 274 - Vampira e Magneto na Terra Selvagem

UNcanny X-Men 275 - Uma nova fase

Uncanny X-Men 280 - O fim de uma era

A passagem de Jim Lee pelos mutantes ficou na história dos personagens

Um dos quadrinhistas mais influentes e populares dos últimos tempos, o sul-coreano Jim Lee divide opiniões: é considerado tanto o desenhista ideal para gibis de super-heróis quanto um símbolo da degradação do gênero no início dos anos 90. O fato é que, a exemplo do que ocorre com qualquer artista inovador, seu estilo foi copiado exaustivamente até se tornar lugar-comum.

Como garantia de sucesso fácil, heróis mal-encarados, mulheres sensuais de proporções improváveis em trajes sumários e cenas de ação constante predominaram em histórias cujo roteiro era apenas desculpa para a próxima seqüência de pin-ups. Assim ocorreu após o lançamento do segundo título mensal dos X-Men desenhado por Lee, cuja edição de estréia vendeu mais de 8 milhões de exemplares nos Estados Unidos, e da revista X-Force, da estrela em ascensão Rob Liefeld.

Ao lado de Erik Larsen, Todd McFarlane, Marc Silvestri e Jim Valentino, os dois criaram a Image Comics em 1992, para narrar histórias com personagens próprias, livres de intervenção editorial. E na maioria dos casos, livres também de um texto coerente ou qualquer originalidade. Paralelamente, a Marvel Comics continuou a explorar o filão mutante, expandindo a linha com uma profusão de mini-séries e novas séries regulares. Em razão de todos esses excessos, fica fácil esquecer as qualidades inegáveis do trabalho de Jim Lee nos X-Men, especialmente das histórias memoráveis que produziu ao lado de Chris Claremont.

Mais do que uma relação apenas harmoniosa, a colaboração dos dois foi efetivamente sinérgica. O talento natural de Claremont para caracterizações e relacionamentos de personagens a longo prazo ganhou nova vida com o estilo mais nervoso e direto de Lee. O caráter novelesco foi, então, substituído por histórias de alto impacto na vida dos heróis. O traço explosivo do desenhista marcava o clima de ansiedade e dinamismo. O roteirista garantia tridimensionalidade aos protagonistas.

A NOVA FASE

Mesmo no meio de imensos crossovers, a dupla se destacava, fato comprovado na edição que apresentou o visual oriental da telepata Psylocke, no evento Atos de vingança, e em Programa de extermínio, saga que reuniu X-Men, X-Factor e Novos Mutantes, aprisionados em Genosha. Não obstante, os principais destaques do período envolvem a reformulação estrutural das equipes mutantes, o retorno do Professor Xavier e de Magneto como seu arquiinimigo e oposto ideológico. Na época, os cinco X-Men originais, Ciclope, Jean Grey, Fera, Homem de Gelo e Arcanjo, ainda formavam o X-Factor; Xavier estava no espaço, ao lado de sua amada Lilandra; e Magneto, após liderar os Novos Mutantes, buscava defender a causa mutante de forma menos agressiva.

Uma nova fase teve início em Uncanny X-Men 275, que corresponde a edição X-Men 72, publicada em outubro de 1994 pela Editora Abril. Enquanto os X-Men lutavam e reencontravam seu mentor no espaço, Magneto participava de uma missão na Terra Selvagem, ao lado da S.H.I.E.L.D. e de Vampira. Ao executar friamente uma oponente, o Mestre do Magnetismo afirmou sua postura definitiva, a de que a piedade não teria mais vez em sua guerra, e para o Inferno com o sonho de coexistência pacífica entre humanos e mutantes.

O momento de tensão foi exemplo notável de que Jim Lee sabe também trabalhar expressões faciais. Se não é indicado para cenas de vida cotidiana, tampouco é artista apenas de poses como gostam de alfinetar seus detratores.

AZUL, DOURADO, MILITARISMO E MUTANTES GOVERNAMENTAIS

Na trama do X-Factor, desenhado por Whilce Portacio, mas também escrito por Claremont e Lee, o filho pequeno de Ciclope, Nathan, é contaminado por um vírus tecno-orgânico desenvolvido pela entidade Apocalipse e levado ao futuro por uma representante do Clã Askani, para quem a criança era uma espécie de messias. Nathan seria, de fato, o truculento Cable, que estava aparecendo nas histórias dos Novos Mutantes, bem mais velho do que o pai. Desnecessário dizer que a idéia gerou confusão, mas, em retrospecto, não chega a estar entre as mais complicadas da mitologia mutante.

Logo em seguida, o Professor Xavier voltou à Terra na companhia dos X-Men para enfrentar o Rei das Sombras, criatura capaz de insuflar o ódio no coração dos inocentes. Em X-Men 77, esta aventura foi concluída com a reunião de X-Men novos e antigos, que se dividiram novamente em Equipes Azul e Dourada, ambas sob a tutela do Professor.

O X-Factor tornou-se um grupo ligado ao governo norte-americano, tendo personagens como Destrutor, Polaris e Mercúrio. É curioso notar que foi o mais acessível e provavelmente o melhor dos títulos mutantes no período posterior à saída de Claremont. Com os roteiros do competente Peter David, oferecia doses de humor, drama e temas de relevância social com uma sutileza que cairia bem em certos escritores da atual tendência modernista. Sob o comando de Cable, os Novos Mutantes assumiram o nome X-Force e um caráter militar na luta pelo sonho de Xavier. Foi a revista que levou ao estrelato o infame Rob Liefeld.

ÚLTIMOS MOMENTOS

A despedida de Chris Claremont foi na mini-série publicada em abril de 1995, no Brasil, que corresponde aos três primeiros números da nova série mensal americana, a aquela dos 8 milhões de exemplares vendidos na edição de estréia. Foi também a introdução dos novos uniformes, bastante popularizados na primeira série televisiva de animação dos personagens.

Trata-se de um dos mais emocionantes confrontos entre Magneto e os X-Men, em que o vilão é procurado por um grupo de mutantes renegados e declara seu Asteróide M um mundo soberano para o homo sapiens superior, em guerra contra as grandes potências terrestres. Vemos perfeitamente a analogia feita por Claremont de que Magneto pensaria como Malcolm X, e Charles Xavier como Martin Luther King, um embate em que as motivações estão realmente bem definidas. Não é exagero dizer que poderia ter sido o confronto final.

Jim Lee deixou os mutantes em X-Men 11 (edição americana) para criar os WildC.A.T.S. na Image. Em suas últimas histórias, sem Claremont, contudo, as aventuras tradicionais em estilo Marvel tomaram o lugar dos dilemas ideológicos.

MORDAÇAS CRIATIVAS

Scott Lobdell e Fabian Nicieza foram os roteiristas mais significativos a trabalhar com os X-Men durante os longos anos que se seguiram, marcados por sagas pouco imaginativas que espalhavam idéias simples por dezenas de revistas. As várias equipes mutantes acabavam sempre homogeneizadas, e o controle editorial acirrado afastou talentos como Mark Waid, Joe Kelly e Steven Seagle. A situação melhorou apenas com a presença de Joe Quesada como novo editor-chefe da Marvel Comics, que garantiu liberdade criativa ao revolucionário Grant Morrison, no ano de 2001.

É fato que Jim Lee foi um fenômeno da era do mercado especulativo, das capas múltiplas com efeitos especiais e de uma geração de leitores que valorizou mais a arte do que o texto, mas não pode ser considerado responsável por esses problemas. Seu trabalho, afinal, era desenhar os X-Men, e quanto a isso, podemos dizer que ele fez um trabalho memorável.