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Entrevista

Wilson | Omelete Entrevista o quadrinista Daniel Clowes

Autor fala sobre sua nova HQ, os quadrinhos, o cinema e... Frank Miller

Érico Assis
28.02.2012, às 00H00
ATUALIZADA EM 03.11.2016, ÀS 15H06
ATUALIZADA EM 03.11.2016, ÀS 15H06

Wilson é um chato. Dos chatos que sabem que são chatos e fazem questão de serem chatos. Tem opinião sobre tudo - política, cinema, cachorros, capitalismo internacional, carros dos outros, emprego dos outros - e vai falar mesmo que você não queira ouvir. É o personagem que Daniel Clowes criou para a homônima Wilson, que está saindo no Brasil pela Quadrinhos na Cia.

Wilson

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Dan Clowes

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Clowes, por mais que tenha leve semelhança física com Wilson, é felizmente diferente da sua criação. Na entrevista que concedeu por telefone ao Omelete - de sua casa em Oakland, Califórnia -, o quadrinista riu alto de algumas perguntas, em tom extremamente simpático. Mas confessa que Wilson é sua versão dark.

Um dos nomes de maior destaque no quadrinho alternativo dos EUA desde os anos 1990, Clowes fez sucesso com sua série Eightball, que rendeu histórias depois transformadas em graphic novel - Como Uma Luva de Veludo Moldada em Ferro, Ghost World, Ice Haven, David Boring, The Death Ray. Wilson foi sua primeira graphic novel original depois de anos afastado das HQs - retorno que lhe rendeu prêmios, homenagens e a renovação de sua carreira como roteirista de Hollywood, para a qual voltou a adaptar seus próprios quadrinhos.

Confira abaixo a conversa sobre Wilson, sobre os quadrinhos, sobre Hollywood e sobre o atual chato-Wilson das HQs: Frank Miller.

* * *

Você tem uma tradição de criar personagens ranzinzas, que fazem questão de estar sempre apontando o que há de errado com o mundo. Wilson é um deles, assim como a Enid de Ghost World, entre outros. Estes personagens nunca têm um final que se pode dizer feliz - o mundo acaba vencendo...

[Risos]

Isto seria uma filosofia de vida, sua vivência ou o quê?

Não tento predeterminar o que vai acontecer nas minhas histórias. Tento fazer elas correrem da forma mais verossímil possível. Então acho que isso pode ser indicativo de que, sim, minha perspectiva é de que o mundo costuma vencer.

Em Wilson, você fez a opção de contar a história em capítulos de uma página, variando o estilo de desenho. Pode comentar esta decisão?

Wilson me surgiu... Meu pai estava no hospital, mais ou menos como o pai de Wilson na história. Se você já passou um tempo com alguém muito doente no hospital, sabe que é só ficar lá sentado e que nada acontece. A outra pessoa fica lá deitada, olhando para a TV e tal.

Para não me matar de tédio, levei um caderninho de esboços e pensei em desenhar umas tirinhas só para me divertir enquanto estava lá. Comecei a desenhar tiras bem simples, só para eu rir. Nem estava desenhando de verdade, eram só palitinhos. Eu queria mais era construir as piadas, de um jeito que parecessem as das tiras de jornal. De repente meio que apareceu este personagem, sem eu pensar. Ele é uma versão mais falastrona de mim, uma versão mais extrovertida dos meus pensamentos mais dark. Passaram alguns dias e eu tinha feito centenas de tirinhas. Qualquer assunto rendia uma tira com esse cara, e eu ainda nem tinha o nome dele.

Voltei para casa sem intenção de usar aqueles esboços. Eu só tinha feito para passar o tempo no hospital. Mas aí não consegui esquecer do carinha, e ele começou a parecer um daqueles personagens que você está sempre buscando, que rende assunto. Então voltei nos cadernos e percebi que se eu organizasse com cuidado as tiras que havia desenhado, podia trasnformar aquilo em história. Então, foi assim que tudo começou.

Você também tem carreira como roteirista de cinema. Tem vários projetos associados ao seu nome, como as adaptações de Wilson e The Death-Ray, assim como The 40,000 Dollar Man, Master of Space and Time com Michel Gondry... Pode nos dizer como andam estes projetos?

Master of Space and Time é desses rumores que nunca somem. Eu e Michel Gondry já dissemos em centenas de entrevistas que nunca passou do estágio da gente estar com vontade de adaptar. Nós dois amamos o livro [de Rudy Rucker] e queríamos transformar em filme. A gente foi nos estúdios, tentou convencer o pessoal a fazer, mas... seria um filme de arte de 100 milhões de dólares que ia arrecadar uns 100 mil. Era impossível convencer alguém a produzir. Tipo, na metade da história, o protagonista homem vira mulher, sem qualquer motivo ou explicação. A gente ia ter que mudar os atores...

Quem sabe se o diretor fosse David Lynch, que gosta de mudar atores...

É, talvez, quem sabe. Mas é uma ficção-científica supercomplicada e ia sair uma fortuna. Por isso nunca passamos dessa fase. Não botamos uma palavra no papel. Acho que é uma coisa que muita gente gostaria de ver, por isso o boato nunca some.

The 40,000 Dollar Man foi um negócio que eu ajudei Terry Zwigoff a reescrever faz vários anos. E aí, assim que a gente acabou, a empresa detentora do projeto foi comprada por sei lá quem, então cancelaram tudo que estava em desenvolvimento. É uma daquelas histórias de Hollywood que você ouve, pensa que seria um horror se acontecesse com você, e aí acontece.

E The Death-Ray e Wilson são os dois em que estou trabalhando atualmente, e espero que sejam mesmo produzidos. Tem grandes chances de gravarem Wilson no ano que vem.

Já tem diretor?

Sim, o diretor vai ser Alexander Payne. Fui conversar com ele ontem, aliás, em Los Angeles.

No ano passado você ganhou um prêmio literário. Este ano vai ter uma exposição retrospectiva do seu trabalho e um livro de arte. Como você vê esta aceitação "artística" dos quadrinhos hoje? Você acha que é uma moda ou algo que vai durar?

Eu não sei, sabe. Acho que me fazem esta pergunta há uns quinze anos e sempre pareceu que era uma coisa só dos últimos tempos, e que ia ter fim. Mas surgiu uma geração inteira de jovens que cresceram vendo os quadrinhos como algo que podia ser de interesse para adultos. Então acho que agora eles acabam sendo mais aceitos do que já foram.

Acho que a discussão nem é mais válida. Não vejo gente dizendo que os quadrinhos em si não têm valor. E tinha gente que dizia isso. A imensa maioria dos quadrinhos é terrível, mas você não pode julgar toda a arte por conta disso. Você não pode mais dizer que o quadrinho em si, como arte, é ruins - e é isso que acontecia antes.

Como quadrinista e como roteirista de cinema, quais são os quadrinhos e filmes que você lê, assiste e admira hoje em dia?

Gostei de vários filmes neste ano que passou. Gostei muito de Os Descendentes, o filme do sr. Payne. Tem um filme iraniano chamado A Separação, que achei fantástico. Gostei de A Árvore da Vida, embora não seja um filme perfeito. E tem um filme que mal foi lançado aqui, chamado Margaret, que também achei fantástico.

Quanto aos quadrinhos, gosto de muitas coisas e me interesso por qualquer quadrinista que tente fazer algo diferente e que não seja de propriedade de uma empresa. Estou sempre ligado no que está saindo, mesmo que nem tudo seja bom. Gostei muito da última Love & Rockets, achei muito boa. Gosto de qualquer coisa de Chris Ware, Charles Burns, Seth, Adrian Tomine. Tem um cara chamado Kevin Huizenga que é muito bom. Tem saído muita coisa boa.

Você acompanha os quadrinistas brasileiros?

Creio que não. Acho que não sei o que anda acontecendo no Brasil.

Bom, no momento só se fala nos gêmeos. Eles fizeram Daytripper, que é muito bem comentada.

Sim, sim, eu estou meio por fora, mas sei o que é. É que eu vejo poucos quadrinhos mainstream, me desliguei totalmente desse mundo. Mas sei que se fala muito desses caras.

Qual a sua opinião sobre as personas públicas ranzinzas ou reacionárias de gente dos quadrinhos como Alan Moore - que reclama de versões cinematográficas de suas obras e da indústria de quadrinhos - e Frank Miller...

[Risos]

... que chamou o Occupy Wall Street de "bando de turrões"?

Bom, é sempre divertido ler as coisas do Alan Moore. Mas Frank Miller... ele parece meio doido. Não sei que outra palavra eu poderia usar. Nunca tive interesse algum pelo que ele fez, nunca fui fã, o trabalho dele não me chama atenção. E também nunca soube que tipo de pessoa ele é. Aí comecei a ouvir essas coisas e acho deprimente ele ser algum tipo de representante dos quadrinhos.

O certo é que quadrinhos inevitavelmente vão te deixar maluco. Então acho que ele chegou lá.

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