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Vôo noturno - parte 2

Vampiros nos Quadrinhos

Rodrigo Piolho
11.07.2001
00h00
Atualizada em
04.01.2017
18h03
Atualizada em 04.01.2017 às 18h03

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O LENTO RETORNO DOS MORTOS-VIVOS NOS ANOS 60 E 70

Em 1958, quatro anos após a implantação do Comics Code (Código dos Quadrinhos) nos Estados Unidos, chegava às bancas a Famous Monster of Filmland, da Warren Publishing Company. Essa publicação destinava-se aos fãs dos filmes de horror e, por ser magazine, não podia se enquadrado pelo código. Não tardaria, então, para que houvesse quadrinhos de terror em suas páginas.

Seis anos mais tarde, em 1964, a Warren tornou a investir no gênero, publicando Creepy, uma revista de quadrinhos de terror, mas cujo formato (21 X 28 cm), deixava-a livre das garras do código. Creepy foi seguida de Eerie. Em ambas, os vampiros apareciam com destaque. Ainda no ano de 1964, os vampiros voltaram aos quadrinhos, nas páginas de The Munsters, uma revista baseada na série de tv Os monstros. Apesar de ser uma revista cômica, como a série, lá estavam dois vampiros, Lily e Vovô.

Em 1962, no entanto, a Dell Publishing Co. Inc., que não havia aderido ao código, lançou Dracula contando a história de um conde Drácula revivido em seu castelo da Transilvânia. Durou apenas uma edição. Em 1966, Dracula foi relançada, mas com uma temática totalmente diferente. Não se tratava de um vampiro, mas sim um cientista que, acidentalmente, bebe uma solução na qual trabalhava. A substância, que deveria ajudar na cura de lesões cerebrais, transforma o Conde em um morcego. Com essa capacidade, e ainda o poder de controlar mentalmente seus irmãos quirópteros, ele decide combater o crime. A segunda encarnação da revista durou apenas quatro números, entre 1966 e 1967. Anos mais tarde, a Dell tentou reviver sua personagem, sem sucesso.

A MAIS SEXY DE TODAS AS APRECIADORAS DE SANGUE

Em 1969, houve um grande esforço para que o código fosse revisto e o vampiro, liberado de seu banimento. Para aumentar ainda mais pressão, a Gold Key, lançou Dark Shadows, revista que se baseava na série de TV homônima e retratava as aventuras do vampiro Barnabas Collins. O programa da rede de ABC foi um sucesso enorme entre os anos 1967 e 1971. Em 1991, houve uma nova versão pela rede NBC em 1991, que, embora popular, não durou muito tempo. Mesmo assim, ainda movimenta inúmeros fãs-clubes e convenções nos EUA.

No mesmo ano de 1969, a Warren acertaria na mosca ao publicar uma das mais populares personagens vampíricas da história: Vampirella.

Criada por Forrest J. Ackerman, Vampirella foi uma das primeiras vampiras a ser a protagonista em uma série de quadrinhos. Ela não era uma morta-viva e sim uma alienígena, original de Drakulon, um planeta onde o sangue havia substituído a água como líquido vital. A bela extraterrestre veio ao nosso planeta, porque aqui havia um suprimento razoável de seu nutriente.

Endiabrada e sexy em seu uniforme minúsculo, Vampirella logo alcançou popularidade e seu título regular foi publicado até 1983, completando um total de 112 edições. Nessa época, nomes famosos dos quadrinhos passaram por suas presas, como Archie Goodwin - o falecido editor da Marvel e da DC - Frank Frazetta, e Steve Englehart, sob o pseudônimo de Chad Archer.

Em 1991, a Harris Comics adquiriu os direitos de publicação da personagem e lançou uma nova série, com os roteiros do, então, novato Kurt Busiek. Ainda hoje, Vampirella é publicada em mini-séries. A mais recente, inclusive, está sendo desenvolvida por Mark Millar.

SEDE DE SANGUE NA MARVEL

Voltando à História, os fãs dos vampiros tiveram uma grande vitória em 1971, quando uma revisão do Comics Code permitiu que o vampiro voltasse às HQs. O texto modificado dizia o seguinte:

"Vampiros, violadores de túmulo e lobisomens serão permitidos quando abordados na forma clássica, como Frankenstein, Drácula e outras obras de alto calibre literário escritas por Edgar Allan Poe, Saki (H.H. Munro), Conan Doyle e outros autores respeitados cujos trabalhos são lidos nas escolas de todo o mundo."

A Marvel logo saiu na frente, trazendo Morbius, a primeira personagem vampírica original após a revisão do código. A criatura teve sua primeira aparição em Amazing Spider-Man 101. Michael Morbius era um biólogo ganhador do prêmio Nobel que sofria de uma rara doença sanguínea. Ao injetar em si próprio um soro experimental que poderia curá-lo, transformou-se em um ser que precisava consumir sangue para sobreviver. A partir daí, o atormentado cientista envolveu-se em vários conflitos via de regra com o Homem-Aranha. No entanto, também desafiou os X-Men e demais heróis da editora, tornando-se mais popular do que pode parecer.

O sucesso do relutante vampiro garantiu que, em 1973, ele estrelasse em Vampire Tales, magazine que teve sete edições até junho de 1975. Em 1974, passaria a ter destaque em Fear, onde estreou no número 19, permanecendo até a trigésima primeira edição de dezembro de 1975. Foi um período ocupado para Morbius, uma vez que ele aparecia simultaneamente em ambas as revistas.

Em 1976, o sofrido pesquisador tornou a dar as caras. Desta vez em Marvel Two-in-One, onde enfrentou o Coisa. No mesmo ano, em Marvel Preview 8, foi a vez de se bater com Blade, o caçador de vampiros. Quatro anos mais tarde, em Spectacular Spider-Man 38, para sua alegria, Morbius foi curado de sua doença. Para tanto, teve de sugar um pouco do sangue do Aranha e ser atingido por um raio. Depois disso, não se ouviria mais falar o vampiro científico até o final dos anos 80.

Em 1989, o repouso da personagem chegou ao fim. Dr. Strange: Sorcerer Supreme 10 marcou o seu retorno. Quatro edições mais tarde, ficamos sabendo que Morbius vivera anos como um homem normal até que, um dia, ao passar férias em Nova Orleans, conhecera Marie Leveau, que precisava do sangue de vampiros para conservar sua juventude. Assim, através de choques elétricos, ela devolveu Morbius ao seu estado vampírico.

Alguns anos depois, em 1992, a Marvel reuniu suas personagens sobrenaturais em um universo paralelo, batizado de Midnight Sons (os filhos da meia-noite na tradução direta, mas a sentença tem o mesmo som de midnight suns, ou seja, sóis da meia-noite). Neste universo, Morbius ganhou um título solo, Morbius: Living Vampire, onde combateu, ao lado dos Nightstalkers, Motoqueiro Fantasma e Johnny Blaze, a ameaça de Lilith, a rainha do mal. Venom e o Homem-Aranha também se envolveram no confronto. Mais tarde, com o cancelamento da linha Midnight Sons e seus títulos, Morbius voltou à condição de relutante vilão, confrontando o Homem-Aranha e Blade.

O PRÍNCIPE DOS VAMPIROS ENTRE OS SUPER-HERÓIS

Ainda em 1971, a mesma Marvel lançou o título vampírico que só perde em sucesso e popularidade para Vampirella. The Tomb Of Drácula era escrito por Marv Wolfman e desenhado por Gene Colan, ambientando as histórias do conde na década de 70. O Drácula desses dois autores foi retratado como o era na tradição popular, ou seja: mau, mas com traços humanos.

A trama começa quando Frank Drake, um descendente de Drácula, sua namorada Jeanie e um amigo, Clifton Graves, decidem ir à Transilvânia para vender o Castelo Drácula. Lá, Graves acidentalmente ressuscita o príncipe dos vampiros, que foge em busca de alimento. Os três voltam para Londres, seguidos de perto pelo conde. Já na Inglaterra, Drake descobre que Jeanie fora mordida pelo seu antepassado. No confronto que se segue, ela acaba morrendo. Mais tarde, Drake une-se a Quincy Harker, Blade e Rachel van Helsing. O grupo segue combatendo o vampiro por anos a fio, conseguindo pequenas vitórias e muitas derrotas.

O príncipe dos vampiros fez aparições em diversos outros títulos da Marvel, enfrentando os X-Men e o Homem-Aranha, dentre muitos. Drácula, porém, encontrou seu fim no Universo Marvel em 1983, quando o Dr. Estranho desintegrou-o através de um feitiço chamado "Efeito Montesi", que baniria todos os vampiros do Universo Marvel.

A série mensal durou setenta edições, sendo reimpressa na Inglaterra em P&B com o nome de Drácula Lives, e publicada em espanhol, italiano e português. No Brasil, foi trazida pela Bloch Editores entre 1976 e 1978, com o nome de A tumba de Drácula. Fez tanto sucesso que, mesmo depois de ter perdido os direitos de publicação sobre ela, a editora continuou publicando histórias do conde produzidas no Brasil, sem os créditos para seus roteiristas e desenhistas. Durou quatorze edições. Mais tarde, entre 1979 e 1980, The Tomb... foi publicada pela Editora Abril sob o título de O terror de Drácula. Durou onze edições.

Algumas das personagens do Universo Marvel regular, como Lobisomem e o Surfista Prateado fizeram aparições em The Tomb..., que teve edições isoladas reimpressas em 1992. Antes disso, em 1991, houve uma mini-série em P&B do título, em quatro edições, publicada pela Epic Comics, novamente com Marv Wolfman no roteiro e Gene Colan nos desenhos.

O SUPERCAÇADOR DE VAMPIROS

De todos as personagens de The Tomb of Drácula, à exceção do próprio conde, Blade foi quem mais se destacou, principalmente, alguns anos atrás, depois de ter sido vivido no cinema por Wesley Snipes.

Sua primeira aparição ocorreu em The Tomb... 10, nas docas de Londres, eliminando vampiros da legião de Drácula. Mais tarde, encontrou-se com Rachel Van Helsing e Quincy Harker, unindo-se aos caçadores de mortos-vivos. Três edições depois, em The Tomb... 13, sua origem foi revelada: quando ele estava para nascer, sua mãe recebeu a visita do médico Deacon Frost, que era vampiro. Deacon mordeu a mulher, causando sua morte. Blade sofreu mudanças congênitas em seu sangue, adquirindo características semivampíricas. Quando adulto, pôs-se a caçar vampiros, com o objetivo de se vingar de Deacon. A partir dessa edição, Blade torna-se figura constante em The Tomb... ao longo de suas 70 números. Inclusive, chegou a assassinar o príncipe dos vampiros, que foi ressuscitado pouco depois. Na edição 48, uniu-se a Hannibal King e, no número 53 da série, ambos conseguiram destruir Deacon Frost. Antes, no entanto, já fizera uma participação especial na Marvel Preview 8, de 1976.

Depois do fim de The Tomb of Drácula, o caçador de vampiros teve aparições esporádicas como convidado em outros títulos da Marvel, até a criação do universo Midnight Sons, em 1992. Foi quando figurou no título Blade, the Vampire-Hunter e em The Nightstalkers até a edição 17, quando este último foi cancelado. Seu próprio título, não durou muito. Blade teve importantes participações na série animada do Homem-Aranha e na Marvel Team-Up, ao lado do aracnídeo.

O fato de ser um dos poucos heróis negros importantes atraiu para si a atenção de Wesley Snipes, que interpretou Blade no cinema. O sucesso do primeiro filme foi tamanho que uma continuação está sendo finalizada e logo deve chegar às telas. Isso acabou motivando a Marvel a desenvolver um novo título para a personagem. Blade de Mark Andreyko, Richard Pugh e Manuel Gutierrez será parte integrante da linha de quadrinhos adultos, MAX, e trará histórias de terror/ação.