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Topografia urbana em quadrinhos

Topografia urbana em quadrinhos

Eduardo Ribeiro
18.09.2006
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h20
Atualizada em 21.09.2014 às 13h20

Duas obras em quadrinhos que abordam a questão urgente da violência nas cidades, das mazelas na periferia e do próprio dia-a-dia nas urbes em toda sua beleza, atropelos e feiúra, agitam o meio editorial brasileiro. Depois de chamarem a atenção da mídia para uma linguagem que se equipara em nível de sofisticação e exercício narrativo a uma abordagem já há muito tida como inerente ao cinema, teatro e romances literários, elas começam de mansinho a conquistar respeito e jogam luz sobre uma categoria das HQs que ganha cada vez mais visibilidade e adeptos no mundo.

Trata-se de Chapa quente, de André Kitagawa, e Os inimigos não mandam flores, de Ferréz e Alexandre de Mayo. O mais importante a ser dito sobre eles é que são álbuns roteirizados e ilustrados por artistas que vivenciam e acabam sendo espectadores diretos ou protagonistas do universo retratado. Chapa Quente (Atrito Art. Editorial, 56 págs., R$ 20) é uma compilação de sete histórias publicadas em veículos diversos, como as revistas Front e Coyote, que o autor resolvera disponibilizar em seu site.

Disso surgiu a oportunidade para adaptá-las ao teatro, talvez pela deixa de Avenida Dropsie e Sketchbook, peças da Sutil Companhia de Teatro, que tiveram proposta semelhante, além de sucesso de crítica e público. Estas traziam para o palco fragmentos do cotidiano urbano e melancólico na obra do mestre Will Eisner, responsável também pela invenção da "Graphic Novel", vertente marcada pelo realismo reflexivo e narrativa acurada. Chapa Quente, por sua vez, se saiu tão bem sob os spots que terminou virando livro.

André Kitagawa dá vida a seu imaginário a partir de um liquidificador de situações vividas, histórias ouvidas, fatos estampados em livros, filmes e jornais. Seu traço marcante publica uma cidade sempre entediada, conduzida por ritmo denso de desconforto, de vulnerabilidade. E isso está claro quando se presta atenção à força construtiva nas formas, cores e sombreados. É um esteta do submundo, por assim dizer, e dos bons. No entanto, nunca perde o senso de humor, mesmo brotado da ironia e do tragicômico. Segundo ele próprio, suas histórias "não deixam de ser pequenas fábulas, apenas os personagens são menos fantasiosos e a moral é tortuosa, quase esfacelada".

Ele conta que começou a se interessar por quadrinhos na década de 80, pelo contato com as populares fábulas heróicas. "Mas o interesse surgiu na medida em que essas histórias apresentavam elementos inovadores ao gênero. Refiro-me a Frank Miller, Alan Moore, etc.", esclarece. Ao seu ver, as tais fábulas perderam o vigor quando o negócio virou estilo, ficando sem graça. E defende o que chama de "desbitolagem": "Mencionar a questão nessa entrevista é um sintoma dessa obsessão, como se fazer HQs de super-heróis fosse regra e eu estivesse burlando. Mas não é nada disso, as tais ‘fábulas heróicas são apenas um gênero específico dos quadrinhos e, mesmo que alguém queira trabalhar dentro dele, deve ter consciência disso. Deve, pelo menos até certo ponto, saber se libertar, se desbitolar".

Premiado em Piracicaba por seu trabalho como quadrinhista, o autor acredita na força das HQs como arte narrativa. "Todas as artes podem dialogar, é ótimo que os quadrinhos se influenciem por outras linguagens e vice-versa, mas é sempre bom ter consciência daquilo que só a linguagem dos quadrinhos pode oferecer", completa, resoluto.

A realidade, nos olhos de quem vive

Na cola de Chapa Quente, o escritor e rapper Ferréz empresta o virtuosismo de sua escrita à arte seqüencial com o lançamento do primeiro exemplar de uma trilogia a ser encerrada no final do ano. Ferréz é o mais expressivo porta-voz da periferia de São Paulo em nosso tempo. Está à frente de inúmeras iniciativas que contemplam melhorias, mais cultura e conhecimento para os habitantes de regiões afastadas do Centro. E, vale dizer, sem abandonar as origens, tem se valido de variados arautos para sua mensagem. Produziu o recém-lançado DVD 100% Favela (contrapondo os equívocos de Falcão, documentário de MV Bill e Celso Atahyde), criou a marca de roupas 1daSul e, além de seus trabalhos mais conhecidos (Capão Pecado e Manual Prático do Ódio), também escreve livros infantis e prepara uma adaptação de Lisístrata para o teatro.

Ao narrar a história de um sujeito que, maltratado pela dura realidade, resolve entrar para o crime organizado - e depois perde a linha ao prever o tamanho da bucha que lhe aguarda -, o escritor mergulha, ao mesmo tempo, pelos pastéis de Alexandre Mayo, em dois mundos que lhe são muito familiares: a vida na periferia e os quadrinhos (começou a ler gibis aos sete anos). A maior qualidade da obra está na lucidez do texto associada à retratação precisa dos ambientes, personagens, objetos e figurinos que compõem a trama - tarefa somente possível de ser executada por quem vivencia tudo aquilo. Ferréz deixa claro que criou o roteiro "pensando como um cara de periferia veria isto, eu faço pensando neles, pra eles". Aí está.

Conhecer é reconhecer, diz o velho ditado. O realismo contido nos desenhos de Os inimigos não mandam flores (Pixel Media, 56 págs., R$ 29,90) é quase uma obsessão. Da marca do tênis ao rabisco no muro, tudo é retratado de modo atento e devotado, sem perder em estilo. Ao passo que refletem na memória de quem já zanzou pelas entranhas da Zona Sul, as quebradas, e até o calor do asfalto.

O press-release diz que Mayo é a promessa do novo quadrinho brasileiro. Embora esse tipo de texto conserve o vício de ser elogioso, temos aqui menos exaltação gratuita do que uma constatação. Editor da revista Rap Brasil, desenhava por puro hobby, por achar que "o mercado não tem espaço". Mas o mundo dá suas voltas e a oportunidade apareceu quando o jornalista e consultor da Pixel Media, Rodrigo Fonseca, chamou Ferréz para assumir o projeto e o deixou livre para escolher um ilustrador. O escritor, que já havia tomado contato com os desenhos de Mayo em suas andanças pela redação da Rap Brasil, não pensou duas vezes.

Assim como Kitagawa, Ferréz também acredita na inteligência narrativa dos quadrinhos: "Temos provas disso todos os dias, várias obras que pego têm muito a ver com literatura, clássicos como o Cavaleiro das Trevas (Frank Miller), que são romances fabulosos, inspirados e profundos", diz, e finaliza avaliando o impacto de sua criação: "Acho que tudo soma. O mais importante é que, nesse país, HQ não é visto como coisa séria, então todo mundo que lê quadrinhos acaba sendo meio ridicularizado. E, pessoas da literatura que fazem trabalho como HQ sempre ajuda, desmistifica que a coisa é uma arte menor. Eu acho que a leitura é importante, dá senso crítico, dá qualidade de vida, dá pensamentos próprios, e já tive o prazer de entrar num ônibus e ver um cobrador lendo meu livro, de ver um menino na rua com um livro meu indo para a escola, isso é o melhor prêmio, o resto é blábláblá...".

Quando perguntado acerca de uma suposta influência negativa dos super-heróis, defende que o importante é educar a petizada: "Contribui, mas fui criado com eles. Não basta ler, tem que ler e interpretar, ler e pensar. O pior mal não são os criadores dos heróis e sim o país, que os usa para um padrão de vida impossível, como é o caso do Capitão América e do Super-Homem, que foram usados em grandes guerras. Mas eles não foram criados pra isso, foi pra dar exemplo e divertir".

Ainda em setembro ou outubro deve sair a segunda parte da trilogia, nomeada CCO (Central do Crime Original). Qualquer semelhança, não é mera coincidência.

Expoentes

Outros dois lançamentos brasileiros no último semestre confirmam a tendência de uma abertura maior do mercado ao realismo urbano em quadrinhos, certamente pela inteligência criativa e crítica social na medida. O Messias (Opera Graphica Editora, 128 págs., R$ 29), de Gonçalo Junior e Flávio Luiz (ilustrações) traz esse nome não ao acaso. Aborda o medo das elites diante de um iminente ataque vindo do morro. Autor do roteiro, o baiano Gonçalo Junior, teve a idéia em 1997, ao prestar atenção no fenômeno da evangelização das favelas. Nessa época, pastores foram acusados de envolvimento com o tráfico. O tal salvador do título é um criminoso que comanda uma facção criminosa no morro carioca. Desenhado em preto-e-branco e sem texto, o ritmo e a estética pendem para certo expressionismo cinematográfico.

Igualmente pautado na dura realidade, porém mais imaginativo, Subs (Via Lettera Editora, 72 págs., R$ 34), que tem roteiro de Ulisses Tavares e desenhos do irrefutável Julio Shimamoto, é mais um que se insere na clave da narrativa cinematográfica. Composto por histórias originalmente escritas para curtas nos anos 90, traz texto simples, ácido e não menos impactante, sublinhado pelo surrealismo plástico latente nas ilustrações. O (sub) mundo retratado beira ao noir, retalhado por nove histórias protagonizadas por número idem de caracteres que expressam "uma face obscura da condição humana", como bem anuncia a apresentação.

Referências básicas

Essa coisa toda de quadrinhos urbanos já foi muito mais underground. Na época da antológica revista Animal (VHD), que existiu entre 1987 e 91, seria alarmante entrar numa livraria dos Jardins e se deparar com um exemplar tipo Os Inimigos... destacado num display. Era o tempo dos grandes nomes das HQs alternativas, como os europeus Manara, Tamburini e Libertatore, e os brasileiros Paulo Garfunkel e Libero Malavoglia, que faziam o samurai das ruas em O Vira Lata. O encarte MAU trazia informações variadas do lado marginal, e por isso vanguardista, da cultura pop de então.

A Circo (Circo Editorial) é outra publicação que dispensa apresentações. Teve seu auge mais ou menos no mesmo período da Animal, sendo reeditada a partir de 92. Puxava sardinha para o lado dos brasileiros, e não fez mal ao lançar no estrelato artistas do naipe de Paulo Caruso e a trinca Laerte, Glauco e Angeli. Toninho Mendes, saudoso editor, também ajudou a popularizar por aqui o trabalho de gente importante como Robert Crumb e Moebius.

Mas tudo isso só foi possível depois de Will Eisner (1917-2005) e seu Um Contrato Com Deus, lançado em 1978. Ao recriar quatro histórias retratando o cotidiano no bairro do Bronx, nos Estados Unidos da década de 30, o autor inaugurou o estilo marcado por romances gráficos conduzidos por narrativa de cinema, a que se deu o nome de "graphic novels". Pra quem quiser tentar aprender e tiver a sorte de encontrar, Eisner ainda editou os livros didáticos Quadrinhos e Arte Seqüencial e Narrativas Gráficas.

Outros mundos

Abaixo, quatro títulos internacionais que abordam temas urbanos, importantes e polêmicos criados por artistas que tiveram o mérito de transbordar as supostas limitações da arte seqüencial e têm contribuído, junto com outros que pululam lá fora, para a elevação de HQs ao status de forma literária reconhecida, em suas múltiplas possibilidades. A violência, mais uma vez, aparece desnuda.

Maus (Companhia das Letras): Lançado há mais de uma década, o trabalho de Art Spiegelman, que trata do Holocausto a partir da vida de seu próprio pai, foi a primeira novela gráfica a receber o Prêmio Pulitzer.

À Sombra das Torres Ausentes (Cia. das Letras): A provocativa obra de Spiegelman mostra sua reação ao atentado de 11 de setembro de 2001. Suas tiras sobre o assunto foram publicadas pelo The London Review of Books.

Persépolis (Cia. das Letras): Aqui, o jornalismo visual de Marjane Satrapi, uma iraniana residente na França, narra, em dois volumes, memórias da infância no Irã e mostra a revolução islâmica de 1979 pelos olhos de criança.

Palestina (Conrad): O jornalista Joe Sacco ficou badalado por sua reportagem gráfica sobre a Guerra da Bósnia, na qual atuou como correspondente. Ele retrata os diferentes personagens das zonas de guerra, os conflitos existentes e ataca, sobretudo, uma tal de "nova Guerra Fria".