HQ/Livros

Artigo

Superalmanaque Mangá 1 & Guerreiros Errantes 1

Superalmanaque Mangá 1 & Guerreiros Errantes 1

Pedro Hunter
18.02.2002
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h12
Atualizada em 21.09.2014 às 13h12
Ed. Mythos – formato 11,7 x 17,8 cm
Séries regulares – 100 páginas preto e branco cada

Quando os primeiros mangás japoneses foram publicados aqui no Brasil, já se vai uma década, estes eram materiais adultos como Lobo Solitário e Crying Freeman. Tratava-se de séries bastantes sofisticadas que receberam prêmios em seu país e tornaram-se sucessos de crítica no ocidente, inclusive no Brasil. Crítica, porém, não enche barriga e o Plano Collor causou o término não apenas delas, mas de quase todas as HQs para adultos do Brasil.

Depois de algumas tentativas abortadas, a segunda leva dos mangás no Brasil surgiu há cerca de um ano e meio, agora na esteira dos desenhos animados japoneses. Essa nova onda é caracterizada por material de enorme sucesso comercial em todo o mundo e destinado essencialmente a adolescentes e pré-adolescentes, como DragonBall e Cavaleiros do Zodíaco.

Guerreiros errantes e Superalmanque mangá marcam o início da terceira leva: material que não é sucesso de crítica nem de público em seu país de origem. Gibis que não deram origem a desenhos animados ou geraram produções tão obscuras que são desconhecidas no Brasil.

O refugo do mangá finalmente chegou ao Brasil!

A primeira dessas revistas, Guerreiros Errantes, publica a desconhecida série nipônica Sword Galé do igualmente obscuro desenhista Sumi Arisaka. Completamente desconhecida no ocidente, parece ter sido publicada apenas para aproveitar o boom de fantasia na esteira dos filmes de Harry Potter e, especialmente, de O senhor dos anéis.

Todos os chavões de fantasia medieval estão presentes na revista. O bondoso rei de uma nação invadida por um vizinho poderoso (e, provavelmente, malvado, mas isso não está claro na história), às portas da morte, envia seu filho (o príncipe, sempre tem um...) para uma nação aliada a fim de obter ajuda. Obviamente, a única rota para a nação amiga atravessa a hostil e o mancebo precisa ser protegido por um grupo que inclui arquétipos manjados como O Confiável Conselheiro do Rei (que some sem explicações logo no início!), O Inteligente e Poderoso Mago e A Hábil e Experiente Guerreira.

Em um rasgo de originalidade, o príncipe – chamado de Eldeior na página de apresentação dos personagens e de Eldior na história – resolve se disfarçar de mulher (!) para não ser descoberto. E assim, esta literal Drag Queen passa a ser a protegida do grupo.

Adicione um Jovem e Inexperiente Mas Corajoso Espadachim e uma Feiticeira Curvilínea Usando Trajes Sumários de Couro – ambos, claro, Últimos Sobreviventes De Uma Aldeia Dizimada No Conflito, para manter o coeficiente de chavões – e nós temos o grupo de fantasia mais clichê desde a invenção do RPG!

Tudo seria perdoável (bem, nem tudo, príncipe traveco é demais!) se a arte valesse a pena. Arisaka, no entanto, é um ilustrador totalmente desprovido de senso narrativo, o que não ajuda a história (o pouco que existe desta) em nada. O traço até é razoável, mas irregular demais para valer alguma coisa.

A edição nacional não ajuda muito. Não sei até que ponto foi bem feita a tradução, mas há pelo menos duas caixas de diálogo invertidas (antepenúltima e penúltima da página 35) e duas páginas trocadas (40 e 41, como as páginas não são numeradas eu estou contando só o miolo, não incluindo as capas). E perceber isso não é fácil, dado o péssimo senso narrativo do autor. Também há diversas seqüências que parecem ter sido omitidas, principalmente quando o grupo está separado no interior do castelo do Necromante Maligno e, pouco depois, aparece junto sem explicação).

Não bastasse tudo isso, há algumas cenas de nudez gratuita na revista para manter a taxa de apelação. Todas as personagens femininas cumprem seu papel com eficiência neste quesito...

O final dá margem a continuações, mas, ao menos, fecha a trama da edição. Ao menos uma coisa de bom a revista tem.

A outra publicação é bem mais interessante. O Superalmanaque mangá é diferente dos outros mangás já publicados aqui no Brasil por não ser uma revista dedicada a uma única personagem, mas uma antologia de várias histórias (três, nesse primeiro número). Formato tradicional tanto no Brasil quanto no Japão, a antologia oferece a grande vantagem de publicar diversas histórias de personagens e autores diferentes. Teoricamente, isso garante que o leitor goste de alguma.

Lamentavelmente, não há nenhum trabalho de alto gabarito na revista.

O início é até promissor. Na primeira série, “A agência” (Geobreeders, no original), o protagonista Yoiti Taba chega para o primeiro dia de trabalho no novo emprego. O que ele não conta é que sua nova empresa não é uma simples agência de segurança. Taba foi contratado por uma agência de caça a demônios e é pego logo de cara no fogo cruzado entre sua nova chefe – uma garota destrambelhada chamada Yuka Kikushima – e um espírito psicótico em forma de gato capaz de controlar máquinas.

Infelizmente, o conceito não tem uma execução das mais satisfatórias. O humor potencial da situação não é bem explorado e falta um certo dinamismo na ação. O quadrinhista Akihiro Ito (não creditado) é razoável – um virtuoso do nanquim, se comparado ao criador de Guerreiros Errantes –, mas nada especial.

A tradução funciona bem, mas peca ao não colocar o equivalente ocidental aos anos “Showa 59” e “Showa 70”, 1984 e 1995 respectivamente. Vale notar que não existe Showa 70 devido à morte do imperador Hiroito em 1989. O ano correspondente é Heisei 7.

No geral, uma série mediana. Adequada para uma antologia.

A segunda história, “Sorcery Hunters – Os caçadores de feiticeiros” por Satoru Akahori e Ray Omishi (também não creditados), retorna ao tema de fantasia medieval explorado em Guerreiros errantes. Desta vez, no entanto, com menos chavões. É a mais famosa do pacote, tendo rendido uma série de animação de porte razoável no Japão.

O grupo de caçadores de feiticeiros compõe-se de Tyji, o tradicional adolescente tarado do anime/mangá, que se transforma em um demônio quando atingido por magia (!), sua irmã, uma feiticeira com o inacreditável nome de Maron Glacê (!) e Tyra, uma... Hã... dominatrix sadomasoquista (!&qt;&!) que mantém Tyji na linha.

A história da edição apresenta o grupo e coloca-o contra um nobre que usa moças com aptidão para a mágica como aperitivo para seu dragão de estimação.

A série ganha pontos por originalidade, mas o humor é meio grosseiro e há um certo número de incoerências. Afinal, como foi que Lola Balton escapou de virar aperitivo de dragão&qt;& A arte alterna bons e maus momentos e tem a incômoda tendência de regredir para a caricatura em momentos inadequados.

A adaptação não pareceu comprometer, mas o nome original de Tyji era Carrot Glacê. Não foi má idéia modificá-lo.

No geral, uma série que não parece ter muito nexo. Talvez histórias futuras esclareçam se foi apenas uma primeira impressão ruim ou um problema constante. No momento não há como recomendá-la.

A última série, “AT Lady” (autor desconhecido), mostra a protagonista, uma andróide policial criada pelo Inspetor Haruta – uma espécie de Professor Pardal da polícia – para combater o crime, mas que se revela uma total incompetente. Pior, sua enorme força robótica torna-a potencialmente muito destrutiva, o que inferniza a vida do Inspetor e das outras andróides policiais do distrito.

Desnecessário dizer, trata-se de uma série de humor. O quadrinhista tem um estilo adequadamente cartunesco e lança piadas em rápida sucessão. O grande problema é que, em sua maioria, não são boas...

Na verdade, grande parte do humor gira em torno de trocadilhos com a língua japonesa. Intraduzíveis, pelo visto. Isso faz a protagonista parecer mais uma andróide surda do que ingênua, que, imagino, deveria ser a intenção original. Talvez, no Japão, fosse um trabalho excelente, mas, na edição nacional, há pouco o que recomendar.

Não ajuda muito a série ser demasiado parecida com a clássica e vastamente superior “Dr. Slump”, de Akira Toriyama (DragonBall). Esta parte de um conceito similar e é verdadeiramente hilária. Em qualquer idioma.

Além dos problemas de cada série individual, há diversos defeitos no conjunto do Superalmanaque. Nenhum dos criadores envolvidos recebeu crédito. Catei os nomes deles na Internet. Só não achei o do criador de “AT Lady”, que não é conhecida no Ocidente. As histórias não são bem separadas, o que pode confundir alguns leitores a respeito de onde começam e terminam. E, por fim, não há nenhuma série que realmente consiga sustentar a antologia por si só, anulando o potencial do formato.

Guerreiros Errantes
Um ovo

Em um âmbito mais geral, os dois títulos são publicadas precisamente no mesmo formato das da Editora JBC. Têm o mesmo preço (baixo!), número de páginas, tipo de papel (ordinário), etc. Uma boa escolha, até porque nenhuma das séries merecia um formato melhor...

Sup. Mangá
dois ovos

O veredicto final é que Guerreiros errantes não vale o esforço do leitor. Já o Superalmanaque mangá tem potencial e, pelo menos, uma série legível (“A agência”), mas precisa de obras melhor escolhidas antes de poder ser recomendado.