HQ/Livros

Artigo

Super-Heróis DC e Grant Morrison - Além de Crises e Renascimentos

Porque o escritor escocês merece um voto de confiança

Marcus Vinícius de Medeiros
02.09.2007
23h00
O Universo DC (UDC) como o conhecemos passa por um período de incertezas. Após a celebrada minissérie Crise de Identidade

2

None
Crise nas Infinitas Terras

crise final

None
Crise Final

3

None
Contagem Regressiva

dc

None

Crise Infinita

None
Crise Infinita
, na qual o romancista Brad Meltzer revelou um lado ainda mais sombrio e até hediondo de alguns heróis, a editora passou a investir cada vez mais em eventos bombásticos, sem dar tempo ao leitor para recuperar o fôlego.

O início foi bom, com a Crise Infinita, de Geoff Johns e Phil Jimenez, e suas seqüências, o salto de um ano na cronologia de toda a linha de super-heróis, e a maxissérie 52, que narra o ano perdido em tempo real. O problema começou quando deram a largada para uma nova maxissérie semanal nos Estados Unidos, rumando para a Crise Final. A queda nas vendas e no interesse no público parecem indicar que a DC Comics e seu editor-chefe Dan Didio deviam ter moderado um pouco. Mas a revelação da equipe criativa da Crise Final reacende nossas esperanças: Grant Morrison está a cargo das histórias, e ele sempre tem um plano.

Para entender o diferencial que faz o nome do roteirista, é preciso buscar as raízes do que foi o evento Crise nas Infinitas Terras, que em 1986 unificou o UDC e redefiniu seus personagens, bem como a relação pessoal do próprio Grant Morrison com o evento. Concebida por Marv Wolfman (texto) e George Pérez (arte), Crise nas Infinitas Terras significou o fim de um período de inocência para os super-heróis, ao lado dos clássicos Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, e Batman: O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller. Essa inocência, que tanto marcou a Era de Prata dos quadrinhos, cedeu lugar ao realismo e uma visão pessimista do mundo. Estabeleceu-se um novo paradigma em que não haveria mais lugar para realidades alternativas, cientistas loucos com planos de conquista mundial e bichinhos falantes. Para um jovem e rebelde escritor, contudo, a inocência da Era de Prata era sinônimo de criatividade. E Grant Morrison não tardou a entrar em ação.

Já em 1989, Morrison escreveu sua primeira resposta à Crise original em "Zenith - Fase Três", publicada na revista britânica 2000 A.D., que reuniu universos de personagens obscuros numa abordagem diferenciada. O roteirista ainda se definia como um jovem de estilo punk rock, e consolidava sua identidade. Quando foi contratado pela DC Comics, que era dominada pelo realismo derivado das obras de Moore e Miller, apresentou os projetos de Batman: Asilo Arkhan e a reformulação de um esquecido Homem-Animal. E este seria o trabalho que mudaria o curso de sua vida - bem como iniciaria a revolução nos quadrinhos de super-heróis que poderá atingir o ápice na Crise Final. Nas aventuras de Buddy Baker, em que explorou temas como direitos dos animais e metalinguagem, chegando a interagir com seu personagem, Morrison quebrou o padrão Alan Moore, renegou Crise nas Infinitas Terras e apresentou possibilidades até então impensadas.

A questão básica é que o realismo vigente consistia em saber como seriam os super-heróis no mundo real. Morrison decidiu explorar como seria viver num universo de super-heróis, com todas as lógicas da realidade voltadas para o absurdo. Como influência, aponta as histórias de super-heróis que mais gostava quando criança: O Flash da Era de Prata. Justamente aquele que se sacrificou na Crise, mas cujos ideais permaneceriam.

As décadas seguintes marcaram uma oposição entre as duas escolas de escrita de super-heróis, com o lado realista gerando grandes obras como o Esquadrão Suicida e a L.E.G.I.Ã.O., mas também eventos caça-níqueis como A Morte do Super-Homem e A Queda do Morcego. Em essência, contudo, predominava um abandono de tudo o que havia feito os super-heróis especiais quando imaginados. Se é para mostrar apenas falhas de caráter de derrotas, então não precisamos falar de super-heróis.

O movimento de reconstrução dos mitos heróicos teve início com a entrada de Mark Waid na série mensal do Flash, bem como no manifesto contra a Era Sombria, de Waid e Alex Ross, o clássico Reino do Amanhã (Kingdon Come). A obra de Waid inspirou Grant Morrison a relançar a Liga da Justiça na série mensal JLA, que logo se tornou a mais popular da editora com a formação clássica da equipe, ação em larga escala e super-heróis atuando com eficácia numa ambientação maior que a vida e idéias insanas em freqüência alucinada.

Os paradigmas de um Super-Homem sem um legado e pouco eficaz foram enterrados na bela história DC Um Milhão, que celebrou seu legado até o século 853. Morrison e Waid conceberam juntos o conceito do Hipertempo, que daria nova face ao Multiverso extinto na Crise, mas os planos foram barrados quando sua proposta de reformulação do Super-Homem foi vetada pela editora. Era o início de mais uma era de crises na DC Comics.

Quando assumiu as rédeas criativas do Universo DC, Dan Didio colocou em prática um plano que unificaria todas as revistas de linha super-herói e definiria um novo tom para a editora. Com os roteiristas Brad Meltzer, Geoff Johns, Judd Winnick e Greg Rucka, iniciou a Contagem Regressiva assassinando o Besouro Azul e quebrando os laços de amizade entre a trindade Super-Homem, Batman e Mulher-Maravilha. Todavia, a visão de Grant Morrison e Mark Waid não estava descartada, já que eles tiveram liberdade criativa para trabalhar o Super-Homem em seus projetos Grandes Astros e O Legado das Estrelas, respectivamente. Pode-se dizer que, para Dan Didio, a meta sempre foi comercial. E a cada artista ficava aberta a possibilidade de mostrar sua visão particular. Assim, após a carnificina sem sentido de Crise Infinita, quando Kurt Busiek reformulou o Super-Homem na fase Um Ano Depois do UDC, o herói foi visto em sua melhor forma, com direito a superinteligência e uma confiança realmente inspiradora. De um modo geral, não houve um tom único para as histórias do UDC, mas novas direções para cada super-herói. Nas páginas de 52, Grant Morrison, Mark Waid, Greg Rucka e Geoff Johns trabalharam em parceria a história que deveria esclarecer tudo que se refere à visão criativa deste universo fantástico. Mas tudo isto foi prorrogado com a nova Countdown, de Paul Dini e diversos escritores, que prepara terreno para a Crise Final.

Após tantos eventos, fica difícil manter a fé numa editora que sempre promete definir suas crises e deixa a tarefa para o ano seguinte. O leitor já perdeu a conta de quantos eventos definitivos já leu. E é quase certo que a Crise Final, de fato, venha a não ser final.

Entretanto, é em Grant Morrison que o leitor deve continuar acreditando. Seja qual for o título ou a editora, em seus trabalhos o escocês nunca enganou o público e se manteve fiel aos seus princípios. Já foi dito que a Crise Final não é um trabalho de aluguel para ele, mas a palavra definitiva sobre o UDC, que há tantos anos espera para dizer. E se a qualidade da premiada Grandes Astros Superman for parâmetro de julgamento, nossas mais altas expectativas devem ser superadas. Rumores apontam na transformação de todo o Universo DC numa entidade senciente. Parece absurdo até mesmo para os seguidores da obra de Grant Morrison, mas nada é impossível para ele. E o que mais se pode esperar é algo igualmente impensável agora: acreditar novamente em super-heróis.