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Persépolis - A história em quadrinhos

A Revolução Islâmica pelos olhos de Marji

Érico Assis
21.02.2008
17h00
Atualizada em
21.09.2014
13h33
Atualizada em 21.09.2014 às 13h33

Persépolis é a história de Marjane Satrapi, uma iraniana que viu seu país ser virado do avesso a partir de 1979, com a revolução islâmica. Em questão de meses o Irã entrou numa onda de conservadorismo e repressão que fez o país se fechar para o resto do mundo e empurrou-o, em muitos aspectos, de volta à Idade Média.

Para Marji, a Marjane Satrapi de 10 anos, isto significou ir para uma escola diferente, onde ela não poderia mais aprender francês (uma ameaça aos valores da revolução) e meninos ficavam separados das meninas. Como toda mulher, ela também foi obrigada a usar o véu. Imagine gente na TV dizendo "o cabelo das mulheres contém raios que excitam os homens; elas devem escondê-lo!" Andar com jaqueta jeans e tênis pelas ruas, como numa das histórias do volume 2, levou Marji a um interrogatório de uma patrulha de senhoras pró-revolução.

Mas isso é detalhe perto do que acontece no resto do país. Os pais de Marji, intelectuais liberais com alguns vínculos com o governo anterior, começam a perder amigos, que misteriosamente desaparecem. Vizinhos e parentes fogem enquanto podem (o país fecha suas fronteiras em 1981). Com o início da guerra contra o Iraque, em 1980, uma bomba pode repentinamente cair no seu bairro. O terror e a falta de perspectiva tomam conta.

Satrapi começou a publicar suas memórias na França em 2002. Persépolis saiu originalmente, lá e aqui, em 4 volumes: os dois primeiros sobre a infância e pré-adolescência de Marji, o terceiro sobre seu exílio na Europa (os pais acreditam que ela terá uma educação melhor fora do país) e o quarto sobre seu retorno ao Irã para cursar a universidade. O material foi recentemente reunido no Brasil pela Companhia das Letras em uma edição única.

A autora ainda tem outros álbuns publicados lá fora, como o elogiadíssimo Poulet aux Prunes (Frango com Passas), também com toques autobiográficos - e que a Companhia das Letras também tem planos de publicar.

Em meio a toda tristeza da situação do Irã, a biografia de Satrapi é forte ao revelar o que é ser um civil no meio de uma revolução, de uma transformação cultural violenta e de uma guerra. Um boneco que não pode fazer nada, sujeito aos desígnios de governantes, que parecem insanos. Mas, no clima de terror e incerteza do país, Marji e sua família ainda encontram tempo para rir. São estes momentos, de humor no meio do caos (às vezes um tanto nervoso), que tornam Persépolis imperdível.