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Parênteses: TPBs brasileiros - uma proposta

Parênteses: TPBs brasileiros - uma proposta

Érico "Orph" Assis
16.01.2002
01h00
Atualizada em
03.11.2016
06h13
Atualizada em 03.11.2016 às 06h13

Nos Estados Unidos, a maioria das séries de HQ é publicada mensalmente em gibis com vinte e poucas páginas de história. Na média, custam 2,50 dólares. De uns dez anos pra cá, tornou-se comum que, de tempos em tempos, as editoras reúnam um intervalo de edições dessas séries e lancem-no em coletâneas, lá chamadas de trade paperbacks ou TPBs.

Os TPBs agregam de 4 a 8 edições regulares, sempre visando reunir histórias com início, meio e fim. Sai 10 a 20% mais barato comprar uma coletânea do que as mesmas edições individualmente, e geralmente a qualidade gráfica é maior. Além disso, o TPB vai parar em livrarias e outros pontos de venda. São locais a que os gibis menores não chegam – uma vez que são vendidos apenas em comic shops – e ainda permanecem lá por tempo indeterminado, como qualquer livro.

Antigamente, o hábito era vermos mini-séries ou sagas de sucesso compiladas em TPBs. Hoje, no entanto, diversos quadrinhos saem com periodicidade quase regular em coletâneas. Revistas da Vertigo como Transmetropolitan e Preacher sempre tiveram suas edições reunidas em TPBs. A Image (com Spawn, Savage Dragon, Darkness) e várias publicações independentes de sucesso (Bone, Balas Perdidas, Finder) adotaram o mesmo esquema. Quando Joe Quesada assumiu a editoria-chefe da Marvel, uma de suas primeiras atitudes foi ampliar o número doe TPBs da editora.

Uma das conseqüências da crise econômica nos quadrinhos é a redução do número de escritores trabalhando para a indústria como um todo. Desta forma, cada roteirista cuida, em média, de três séries mensais. Como conseqüência, eles tendem a se organizar, escrevendo suas sagas em arcos de histórias, publicados entre 4 e 6 edições. Essas aventuras, com início, meio e fim, prestam-se perfeitamente para virar TPBs alguns meses depois de saírem no formato mensal.

No Brasil, onde poucas vezes o formato mensal de 22 páginas deu certo, as séries costumam reunir várias edições americanas por edição, geralmente extraídas de títulos diferentes. Com o formato Premium, lançado pela Abril em agosto de 2000, isso mudou um pouco. O chamado “formatinho”, que por um bom tempo trouxe três histórias por edição (ou quatro, pelo curto período em que teve 100 páginas), evoluiu para as sete histórias por edição e ganhou a qualidade gráfica do formato americano.

Os editores das Premium, com o aumento do número de páginas por edição, mudaram a organização das séries. Ao invés de colocar inúmeros “continua na próxima edição” em cada revista, aproveitaram o espaço para publicar histórias completas, fechadas. Uma vez que o leitor esporádico sempre reclama das “histórias intermináveis”, e que os colecionadores estavam possessos por causa do aumento do preço das revistas, a solução pareceu agradar gregos e troianos.

Nos 17 meses de Premium, as revistas trouxeram, em cada edição, mini-séries completas, arcos de história fechados e cada vez menos “continua na próxima edição”. Obviamente, isso não aconteceu sempre – Grandes Heróis Marvel continuou no esquema antigo, por exemplo –, mas nos melhores momentos as Premium foram os TPBs brasileiros. Edições recentes de Batman e Homem-Aranha, como melhores exemplos, trouxeram histórias (de séries ou mini-séries) completas, junto a personagens secundários em histórias “de brinde”.

Se aparentemente o formato Premium é o mais barato (em quantidade de histórias e qualidade gráfica/preço) para o mercado brasileiro, e geralmente possibilita a publicação de histórias fechadas, por que as demais editoras de quadrinhos não seguem o exemplo&qt;& A Editora Abril talvez seja a única com estrutura para garantir este formato, preço e distribuição mensal com poucas falhas. Porém, a idéia de trazer cada vez mais histórias fechadas para as bancas é algo que várias editoras brasileiras poderiam copiar.

Editoras como Via Lettera e Conrad são outras que buscam publicar apenas histórias fechadas, verdadeiros TPBs – mas infelizmente só os distribuem em livrarias (fora, é claro, os mangás da Conrad – mas aqui o formato original das histórias é bastante diferente). Enquanto isso, Brainstore e Opera Graphica mantêm séries mensais de 24 páginas a preços exorbitantes (Preacher e 100 Balas, respectivamente), com distribuição bastante deficitária.

O mercado nacional não estaria preparado para colocar, em banca, mais TPBs&qt;& Abril, Marvel e Pandora são as únicas que ainda reúnem diversas séries em cada título nacional, e deveriam seguir o exemplo das Premium – visando sempre diminuir o número de “continua...”. As demais editoras também deveriam buscar formatos diferenciados – mini-séries podem ser reunidas em edições únicas, e não sair no mesmo esquema americano, visando sempre a banca como principal ponto de venda.

O leitor brasileiro teria seu dinheiro mais valorizado, e as editoras aos poucos adaptar-se-iam às mudanças de formato que vêm ocorrendo nas revistas norte-americanas. Com vantagens para ambos os lados, este não parece um caminho a ser seguido ou, pelo menos, uma proposta a ser considerada&qt;&