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Os X-Men e o preconceito

Os X-Men e o preconceito

Rodrigo Monteiro
30.05.2006
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h20
Atualizada em 21.09.2014 às 13h20

X-Men 1, de 1963

O Vírus Legado

Astonishing X-Men

O retorno de Colossus

Quando os X-Men foram criados, em 1963, os Estados Unidos passavam por uma série de revoluções sociais, que, ao fim daquela década, se espalhariam pelo mundo, culminando com a ascensão do movimento hippie. Dentre os movimentos sociais da época, um que ganhava bastante força era justamente aquele que exigia que os negros tivessem mais direitos e não fossem segregados pela maioria branca. Nos estados do sul, derrotados pela Guerra Civil ocorrida entre 1861 e 1865, que culminou com o fim da escravidão no país, os reflexos dessa segregação eram maiores do que no resto dos Estados Unidos. Graças a líderes como Martin Luther King e Malcom X, as coisas passaram por uma mudança e, se ainda existe um preconceito muito grande em relação às minorias na Terra do Tio Sam, ele agora é mais velado do que naqueles dias.

Para lidar com a questão do preconceito contra as minorias, Stan Lee e Jack Kirby criaram o conceito dos "mutantes", seres humanos que, devido a uma característica genética incomum - o "fator x", mais tarde mudado para "gene x" - desenvolviam capacidades extraordinárias quando alcançavam a adolescência. "X" é uma incógnita muito usada na matemática, daí a inspiração de Lee e Kirby para nomear sua nova criação como os "X-Men". O grupo nada mais era do que uma alegoria que representava todas as minorias - negros, homossexuais, imigrantes, judeus, só para citar alguns - que sofriam de preconceito pela maioria dominante. Lee e Kirby usaram os quadrinhos até mesmo para representar as duas faces da luta pela igualdade de classes. Aqueles que defendem uma convivência pacífica entre as minorias e as maiorias têm como maior representante o Professor Charles Xavier, e o grupo que defende a guerra aberta como a única solução para o problema têm o seu ideal personificado em Magneto.

Atentos às mudanças políticas e sociais que os rodeiam, os escritores de X-Men - pelo menos os melhores dentre eles - sempre dão um jeito de criar tramas que refletem essas mudanças. Quando a epidemia da AIDS chegou ao ápice de seu preconceito contra os portadores da doença, o escritor Scott Lobdell bolou o Vírus Legado. Apesar de ter se perdido ao longo do caminho e acabado estendendo a trama mais do que deveria, a idéia de Lobdell foi bem interessante. No nosso mundo "real" a AIDS, a princípio, era vista como uma doença que atacava apenas homossexuais ou pessoas com comportamento de risco - Leia-se aí pessoas ditas "promíscuas", prostitutas e viciados em drogas injetáveis. Apesar de causar apreensão nessa fase inicial, a maioria das pessoas não se importava muito com a doença. Muitos, inclusive, a consideravam uma benção, pois, segundo elas, num pensamento tão preconceituoso que causa nojo, a AIDS eliminaria aquelas pessoas que sequer deveriam fazer parte da sociedade. E então a AIDS saiu dos becos nos quais se confinava para atingir não só essas minorias, como a população em geral, causando pânico e comoção. Levaram anos até todos terem consciência de quais eram as maneiras como a doença era transmitida; outros tantos anos foram necessários para que o preconceito contra os portadores do HIV - que, é claro, ainda existe - diminuísse e, graças aos esforços de milhares de pesquisadores ao redor do mundo, a epidemia fosse controlada em quase todo o planeta, com a gritante exceção da África. Graças aos avanços tecnológicos na área de medicamentos, o combate e tratamento da doença caminham bem. Ela ainda é incurável, mas seus portadores hoje em dia conseguem uma sobrevida inimaginável para os doentes de duas décadas atrás.

Já nos quadrinhos, a trajetória do Vírus Legado foi semelhante. Inicialmente, a doença - um vírus liberado na atmosfera pelo vilão Conflito - atingia apenas aos portadores do gene x. O contaminado perdia cada vez mais o controle de seus poderes e ia definhando até falecer. O Vírus Legado tinha sido criado artificialmente, um reflexo de diversas teorias que dão conta de que o HIV também é uma doença desenvolvida em laboratório, algo visto hoje em dia mais como uma teoria de conspiração do que qualquer outra coisa. Assim como na nossa realidade, o Vírus Legado não era digno de preocupação enquanto afetava apenas uma minoria. A partir do momento em que o primeiro não-mutante - no caso, a doutora Moira MacTaggert - foi contaminado e vitimado pela moléstia, começou-se uma corrida contra o tempo para encontrar uma cura para aquela doença. Ao contrário da AIDS, no entanto, a cura para o Vírus Legado foi encontrada pelo Dr. Henry McCoy, o Fera, e liberada na atmosfera por Colossus, sacrificando a vida do herói.

Mais recentemente, os avanços genéticos são os que estão sob os holofotes do mundo científico. Além da polêmica pesquisa envolvendo as células-tronco, especialmente as obtidas de cordões umbilicais e embriões, projetos na área de clonagem, DNA e genética são o alvo de muita controvérsia. Enquanto cientistas defendem que essas pesquisas são o caminho para a eliminação de diversas doenças genéticas, conservadores e religiosos acusam esses mesmos pesquisadores de estarem "brincando de Deus".

Essa polêmica toda motivou o escritor Joss Whedon quando foi convidado a escrever o novo título dos mutantes, Astonishing X-Men (no Brasil, Surpreendentes X-Men, publicado todos os meses em X-Men Extra, da Panini). Whedon usou o gancho deixado na saga do Vírus Legado - o sacrifício de Colossus - para dar um diferencial à sua trama. Na história, a doutora Kavita Rao alega que a cepa mutante - ou gene x, como queiram - é uma doença e, como tal, pode ser facilmente eliminada. Trocando em miúdos, os dons mutantes não seriam exatamente dons ou maldições, mas, simplesmente, uma doença. Quem nunca ouviu essa mesma teoria a respeito da homossexualidade, por favor levante a mão. Para realizar seus experimentos, a doutora usaria cadáveres, inclusive, inadvertidamente, o DNA de Colossus, ressuscitado por um alienígena e usado como cobaia. Ao fim da trama, a tal "cura" é perdida, sobrando apenas uma amostra da substância, guardada por Hank McCoy.

Ignorando-se o lado fantástico da coisa toda - aliens, mutantes ressuscitados, etc. - a história de Whedon reflete justamente os tempos em que vivemos. Afinal, há cientistas prometendo que, em alguns anos, não só poderemos ter eliminado as doenças genéticas, garantindo um futuro saudável a toda uma nova geração, como também poderemos determinar características que hoje são, muitas vezes, estabelecidas pelo ambiente, e ainda aptidões inatas de cada um. Os pais poderão não só escolher a cor dos olhos e dos cabelos dos filhos, mas também determinar se a criança terá mais aptidão para as ciências ou os esportes, para a música ou as artes plásticas. Tudo isso antes mesmo da criança se desenvolver e ver a luz do dia ou chorar pela primeira vez. Parece fantasioso, não? Coisa de histórias em quadrinhos de ficção científica? Pois experimentos envolvendo clonagem, células-tronco e a reconstrução do rosto de uma pessoa usando a pele de outra também assim pareciam há alguns anos e hoje são assuntos quase que rotineiros não só apenas na comunidade científica. Isso sem falar nos superpoderes que começam a aparecer por aí... como porcos que brilham no escuro. Quanto tempo até que eles disparem rajadas óticas? ;-)

Provando-se sempre em sintonia com o mundo dos quadrinhos - o que, obviamente, não é mais do que sua obrigação - os produtores de X-Men 3 aproveitaram não só o gancho deixado por Bryan Singer em X-Men 2 (2005) como a trama bolada por Whedon para servir de base para a construção do roteiro do terceiro filme dos mutantes.