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Artigo

Os quadrinhos infantis brasileiros no início do século 21 - PARTE III

Os quadrinhos infantis brasileiros no início do século 21 - PARTE III

Waldomiro Vergueiro
06.02.2001
00h00
Atualizada em
09.11.2016
23h00
Atualizada em 09.11.2016 às 23h00

Parte 1
Parte 2

AS NOVAS INVESTIDAS

O fim dos anos 90 e início dos 2000 presencia, em solo brasileiro, um ainda tímido avanço de pequenas editoras na produção de histórias em quadrinhos para o público infantil. No início de 2001, para mencionar apenas aquelas exclusivamente dedicadas a quadrinhos, podem ser encontradas nos pontos de vendas várias revistas, cada uma delas representando a opção por uma linha temática diferente, conforme pode ser visto a seguir:

Aninha - publicada pela Nova Cultural Editora desde 1998, é baseada na figura de popular apresentadora de programas de variedades da televisão. Nesse sentido, dá continuidade à relação que muitos quadrinhos infantis procuram manter com os produtos televisivos, o mundo do entretenimento em geral e as celebridades nacionais, ainda que com efêmero sucesso efêmero, acompanhando o desempenho dos personagens da vida real (além de Aninha, o final dos anos 90 também presenciou a edição em quadrinhos das personagens do Castelo Ra-Tim-Bum, que permaneceu em bancas de 1997 a 1999). No caso de Aninha, embora a revista apresente qualidade duvidosa em termos gráficos e temáticos, deve-se salientar seu objetivo de buscar maior segmentação do mercado: além de direcionada às crianças de sexo feminino, a revista é também elaborada por uma equipe de profissionais pertencentes a esse sexo, congregadas no Ponkan Studio. Fato inédito na indústria de quadrinhos do país.

Combo Rangers Revolution - publicada pela JBC do Brasil (Japan Brazil Communication), de São Paulo, com produção e realização da Yabu Media. Trata-se de um grupo de personagens criado por Fabio Yabu em 1998, originalmente para divulgação na internet. As histórias exploram o universo dos super-heróis, baseando-se nas séries televisivas japonesas das últimas décadas, transpostas para o ambiente infanto-juvenil. No final de 2000, as personagens foram publicadas em uma minissérie em três edições, seguindo o padrão artístico dos mangás e buscando atingir o crescente mercado do gênero no país. De uma certa forma, Combo Rangers Revolution diferencia-se um pouco dos demais títulos aqui comentados por procurar atingir não apenas as crianças, mas também os pré-adolescentes.

Lobinho e os Protetores do Amazonas - publicada pela Editora Par, é produzida pelos Estúdio Avila, de Valdemir Avila. Versa sobre um grupo de animais e um índio brasileiro que, chefiados por um lobo guará, defendem a floresta amazônica. As histórias abordam temas ecológicos, folclóricos e históricos. Inscreve-se na mesma linha nacionalista dos quadrinhos do Pererê, de Ziraldo Alves Pinto, buscando recuperar elementos característicos da realidade brasileira, embora esteja bem distante do brilhantismo deste último. No entanto, foram publicados apenas os três primeiros números dessa revista no ano 2000, podendo-se colocar dúvidas sobre sua continuidade.

Luana e sua Turma - publicada pela Editora Toque de Midas, de São Paulo, com coordenação de arte de Arthur Garcia e roteiros de Oswaldo Faustino e Júlio Emílio Braz. Além de iniciativa com fins comerciais, representa uma proposta de utilização dos quadrinhos como elemento de integração e afirmação racial. Sendo publicada por uma editora especializada em títulos direcionados para a população afro-brasileira, Luana é, conforme comenta, no primeiro número da revista, Aroldo Macedo, diretor-responsável da editora, uma afro-brasileira sem medos, rancores, com espírito desarmado e pronta para distribuir amor e amizade. Do grupo, além da protagonista, também participam crianças de outras etnias, visando representar a sociedade brasileira em toda sua plenitude. As histórias buscam mergulhar fundo no imaginário infantil (Luana possui um berimbau mágico) e na defesa do meio ambiente como eixo central. Cada número da revista apresenta uma seção fixa, denominada Causos da Vovó Josefa, que traz contos vinculados ao continente africano. Embora proposta como de periodicidade mensal, tem chegado às bancas em intervalos de três meses, com apenas 3 números publicados no período de junho a dezembro de 2000.

O Menino Maluquinho e sua Turma - Publicada quinzenalmente pela Editora Terra, de Goiânia, traz de volta a personagem criada por Ziraldo Alves Pinto para livros infantis, anteriormente disponibilizada em quadrinhos pela Editora Abril, em formatinho, de 1989 a 1993. As histórias publicadas até o momento constituíram apenas reaproveitamento de material já publicado anteriormente, não trazendo novidades.

Planeta Azul - Publicada desde 1997 pela Fundação Mokiti Okada, de São Paulo, tem uma proposta nitidamente educativa, visando a construção e doutrinação de crianças passivas, bem comportadas, prestativas, obedientes a seus pais e respeitosas da natureza e dos símbolos pátrios. As histórias em geral descambam para o didatismo, perdendo-se em temas inócuos, que são abordados de maneira pouco inteligente. Ainda que algumas das personagens tenham características interessantes, a abordagem dada às histórias faz com que elas desperdicem os elementos de atração que poderiam ter para as crianças. A revista faz parte do projeto de intervenção social da Fundação Mokiti Okada, com nítida influência da cultura oriental. Imagina-se que essa revista, na medida em que porta-voz de uma ONG multinacional, independe de vendas em bancas para sua continuidade.

A Turma do Gnomo Wagnel - Publicada quinzenalmente pela Editora Millenium, de São Paulo, no final de 2000, traz personagens criados por Franco de Rosa e Wanderley Felipe. As histórias giram em torno de elementos mágicos e da defesa da natureza. Cada gnomo tem características específicas, buscando criar um grupo de personagens que consiga manter cativar o público infantil. Explora um ambiente mitológico bastante popular no ambiente europeu, mas que pouco sucesso obteve anteriormente, quando enfocado em quadrinhos no Brasil (como, por exemplo, a revista Ariel, o Pequeno Gnomo, produzida pela Farias Artes Visuais Ltda., de Henrique Farias, no início da década de 90).

Além das temáticas diversas, esse pequeno elenco de títulos evidencia também a preocupação em inserir a revista em quadrinhos em um projeto maior de comunicação e disseminação, incluindo revistas de passatempos, livros infantis, merchandising, materiais audiovisuais, apresentações artísticas, brinquedos eletrônicos, etc. Boa parte dos títulos conta com páginas na internet para divulgação dos produtos e contato com leitores e potenciais interessados na utilização das personagens para fins comerciais (ex: www.comborangers.com.br; www.luana.com.br; www.lobinhonet.com.br; www.aninha.com.br). Os títulos seguem um caminho quase obrigatório para os quadrinhos no próximo século, o da integração com outra mídias.

As pequenas editoras brasileiras também parecem encarar a segmentação do mercado como uma alternativa promissora para o sucesso comercial. De fato, no início do século 21 já não é mais possível pensar nas histórias em quadrinhos como um meio de comunicação direcionado a uma grande massa de consumidores. Cada vez mais, elas também se encaminham para um processo cada vez maior de afunilamento que levará a menores tiragens e maior variedade de títulos, o que começa a se tornar cada vez mais acessível devido à diminuição do custo da tecnologia envolvida na produção das revistas. Editoras pequenas, à medida que possuem menor investimento econômico, estão particularmente bem posicionadas para se beneficiar desses fatores. No entanto, dificuldades para distribuição e correto dimensionamento do mercado brasileiro geram problemas na manutenção da periodicidade das revistas e de conseqüente retorno econômico para seus produtores. A regionalização da distribuição pode oferecer resposta a essas dificuldades.

O século 21, no entanto, inicia-se, também, com um movimento de retração no consumo de histórias em quadrinhos. Nesse tipo de ambiente, o monopólio do mercado por poucos nomes pode representar, a longo prazo, uma alternativa suicida, levando ao esvaziamento temático das personagens e cansaço dos leitores. Com certeza, o novo século exigirá renovação na área de quadrinhos infantis, de forma a se obter a formação das futuras gerações de leitores. Editoras emergentes podem representar o início desse movimento de renovação no mercado de quadrinhos infantis brasileiros, propiciando o oferecimento de maior variedade de produtos e personagens. Ainda que de forma incipiente, pode-se já perceber um movimento inicial no sentido de segmentação do público e busca de temáticas mais próximas da realidade nacional.

A análise dos novos títulos de histórias em quadrinhos infantis evidencia, também, a preocupação em desenvolver histórias com temáticas ecológicas, acompanhando tendência cada vez mais presente na sociedade pós-moderna: o século 21 deve caracterizar-se como o da conscientização sobre a necessidade de preservação e recuperação do meio ambiente. Assim, embora o caminho para o sucesso permaneça uma incógnita, devido principalmente ao rápido desenvolvimento tecnológico e aos efeitos que este tem no mundo do entretenimento em geral e no das histórias em quadrinhos em particular, existem motivos para acreditar que o canto do cisne ainda está longe de ocorrer para os quadrinhos infantis brasileiros. Sonhar é possível.

Leituras complementares:

CIRNE, Moacy. Quadrinhos infantis brasileiros: uma breve leitura. Cultura, Ano 9, n. 32, p. 31-7, abr./set. 1979.

SANTOS, Roberto Elísio dos. Para reler os quadrinhos Disney: Linguagem, técnica, evolução e análise de HQs. São Paulo : 1998. [Tese de Doutorado - Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo]

VERGUEIRO, Waldomiro. Children’s comics in Brazil: from Chiquinho to Monica, a difficult journey. International Journal of Comic Art , Ano 1, n. 1, p. , 1999.

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