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E se One Piece realmente acabar?

Final há muito prometido por Eiichiro Oda pode ter impacto direto na indústria dos animes e mangás no Japão

Fábio Garcia
29.09.2019
10h00
Atualizada em
28.09.2019
22h50
Atualizada em 28.09.2019 às 22h50

Em algum momento de 2024, milhões de fãs irão às lágrimas com o desfecho de One Piece. Pelo menos essa é a previsão otimista do autor Eiichiro Oda. Responsável pelo mangá de maior sucesso nas últimas décadas, o mais vendido de todos os tempos, Oda declarou que faltam cerca de cinco anos para Luffy chegar ao final de sua jornada, um evento com tudo para agitar o mundo dos mangás.

Não é das tarefas mais fáceis explicar como um simples mangá sobre piratas e amizade se tornou essa comoção nacional no Japão, mas difícil mesmo é imaginar o impacto que esse término terá. O que será da Shonen Jump? Quem ocupará seu lugar? E, principalmente, o que podemos esperar do final de One Piece?

Casa de sucessos

Para entender o sucesso atual de One Piece é necessário relembrar um pouco o que acontecia na época de seu lançamento e como esse mangá foi importante para a sua editora. One Piece é publicado pela Shueisha, “apenas” a maior editora de mangás no Japão. Parte desse êxito todo se deve ao sucesso da Shonen Jump, um almanaque semanal em que são publicados capítulos seriados de vários mangás. Se qualquer pessoa precisar citar três mangás famosos no mundo inteiro, a chance de serem títulos publicados na Shonen Jump são muito grandes: a revista já foi casa de Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball, Jojo’s Bizarre Adventure, Yu-Gi-Oh, Naruto, Yu Yu Hakusho, Bleach, Toriko e por aí vai. Até aquele desenho clássico dos anos 90, Fly - O Pequeno Guerreiro, nasceu na Shonen Jump!

A década de 1990 foi especialmente incrível para a equipe editorial da antologia, afinal o sucesso de Dragon Ball e Slam Dunk fazia com que a tiragem chegasse a invejáveis 5 milhões de exemplares vendidos semanalmente. As lutas interplanetárias de Goku e as emocionantes partidas de basquete do time Shohoku se tornaram fenômenos culturais no Japão e trouxeram fama e riqueza para seus autores. Para onde se olhasse no país era possível ver o rosto de Goku ou de Sakuragi estampado em algum produto ou na capa da Shonen Jump. Porém, a revista estava prestes a sofrer um baque forte: em 1995, o autor Akira Toriyama decidiu encerrar a história de Goku após 10 anos de sucesso de Dragon Ball e, no ano seguinte, Takehiko Inoue fechou Slam Dunk com a mais emocionante partida de basquete realizada pelo time do Shohoku. Durante muito tempo, esses dois mangás estiveram entre os mais vendidos da história do Japão. Com o término de ambos, a Shonen Jump ficou sem ter um grande sucesso para voltar a vender acima do esperado.

Imagem de Dragon Ball e Slam Dunk juntos
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Autores de renome passaram a publicar novas séries a partir de 1995 na tentativa de se encontrar "o novo Dragon Ball" e o período entre 95-2000 ficou marcado por muitos "sucessos medianos". Eram mangás com um bom público e boas vendas, mas não eram fenômenos. Rurouni Kenshin (ou Samurai X aqui no Brasil), de Nobuhiro Watsuki, começou a ser publicado em 1994, mas foi após o fim de Dragon Ball que começou a ser considerado um dos grandes nomes da Shonen Jump, principalmente em meio à saga de Shishio. Nesse mesmo período vale a pena destacar o surgimento de dois mangás: Yu-Gi-Oh, iniciado em 1996 com uma proposta bem diferente da disputa de card games, e Honshin Engi, também de 1996, e lembrado por poucos no Brasil após a exibição relâmpago do anime nos canais Locomotion/Animax sob o nome de Soul Hunter.

Apenas no final da década de 90 a Shonen Jump conseguiria emplacar títulos maiores, como Shaman King de Hiroyuki Takei em 1998 e Hunter x Hunter, do mesmo Yoshihiro Togashi de Yu Yu Hakusho. Enquanto o primeiro teve um bom começo e acabou tendo seu final decretado do nada (a história simplesmente acabou num ponto sem fechar qualquer ponta), o segundo é publicado até hoje num ritmo bem irregular. Porém, no ano de 1997 a Shueisha aprovou um mangá criado pelo então novato Eiichiro Oda, uma história sobre piratas e uma variedade de frutos mágicos que davam poderes a quem comia.

Capa da Shonen Jump de estreia de One Piece
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One Piece se tornou o fenômeno cultural que a Shonen Jump tanto procurava. Eiichiro Oda sempre foi muito fã de mangás, principalmente Dragon Ball, e desenhou o título que sempre sonhou ler. Monkey D. Luffy, o pirata com poder de se esticar como borracha, foi conquistando os japoneses à medida em que ia convencendo personagens a entrarem no seu bando pirata. Seu objetivo é simples a ponto de qualquer pessoa entender a trama: Luffy quer chegar no final da rota Grand Line e conquistar o One Piece, o tesouro enterrado pelo lendário Gold Roger, que o tornará o rei dos piratas. A cada ilha, novos inimigos surgiam e era revelada uma trama planejada em detalhes na cabeça de Eiichiro Oda. As conexões assustam: reler One Piece faz perceber que o autor colocou no começo da história várias pistas de personagens que surgiriam 15 anos depois.

Em meados dos anos 2000, a Shueisha já havia se recuperado do fim de Dragon Ball e Slam Dunk e revidava a concorrência com um trio de mangás: Naruto de Masashi Kishimoto (iniciado em 1999), Bleach (iniciado em 2001) e, lá na frente de todos eles, o One Piece de Eiichiro Oda. À medida em que a história de Luffy avançava, o sucesso do mangá atingia números bastante difíceis de bater. De 2009 para 2010, o título saltou de 15 para 33 milhões de volumes vendidos. A cada novo volume, a Shueisha batia recorde ao imprimir cada vez mais volumes das aventuras do Luffy e o anime baseado na história mantém-se firme e forte na lista dos 10 mais assistidos do Japão. A animação, produzida pela mesma Toei de Dragon Ball, ainda aparece no ranking dos 10 animes mais vistos da semana, mesmo com 900 episódios. Os filmes animados da série ainda arrecadam bilheterias monstruosas e exposições, como a que reconstruiu o navio de Luffy, atraem número recorde de visitantes.

Navio do Luffy em tamanho real no Japão
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One Piece alcançou um tamanho no Japão jamais conquistado por Dragon Ball, e olha que a Shonen Jump vem apresentando tiragens menores do que nos seus anos de ouro (principalmente por causa da queda da natalidade). Mesmo longe do número monstruoso de vendas ocorrido em meados de 2010, um fim para One Piece faz o fantasma da ausência de um fenômeno voltar para assombrar os editores da Shonen Jump: quem vai ocupar a vaga de Luffy no Japão?

Página inicial do crossover oficial de Dragon Ball e One Piece

Página inicial do crossover oficial de Dragon Ball e One Piece.

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Três sucessores

Acompanhar gráficos de vendas de mangás no Japão é ver, de tempos em tempos, o surgimento de um novo título que começa a crescer até se aproximar dos números de One Piece, para então voltar a cair sem alcançar o mangá de piratas. Nos últimos 10 anos, três mangás em especial chegaram próximos das vendas de One Piece, mas não conseguiram segurar o pique por muito tempo.

Um dos primeiros a encostar em One Piece foi Shingeki no Kyoujin (Attack on Titan), série da Kodansha. A série fez um sucesso mundial considerável e é um dos animes que “saiu” da bolha dos otakus e é apreciado por um público mais leigo. Seus volumes de mangá começaram a vender muito, principalmente quando a primeira temporada da série foi exibida na televisão japonesa, mas com o tempo foi se afastando do campeão.

Pôster do arco de Dressrosa no anime

Pôster do arco de Dressrosa no anime de One Piece, um dos mais “enrolados” e menos queridos por parte dos fãs

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Outro sucesso que apareceu e chegou próximo de encostar em One Piece foi Assassination Classroom, publicado na mesma Shonen Jump. Com uma história inusitada de uma classe de alunos cujo objetivo é assassinar seu professor, um polvo superveloz que pretende destruir a Terra, o título foi subindo na preferência do público da revista e constantemente incomodava One Piece (que na época estava no arco de Dressrosa, um dos mais “enrolados” e menos queridos por parte dos fãs). O mangá, no entanto, tinha um final definido e se encerrou em 21 volumes.

Ilustração de One Piece que o autor de My Hero Academia fez quando era adolescente

Ilustração de One Piece que Kohei Horikoshi, autor de My Hero Academia, fez quando era adolescente.

Um outro mangá que tem tudo para ocupar o espaço de One Piece no coração dos japoneses também é da revista Shonen Jump: My Hero Academia. A série, que mostra um universo no qual pessoas têm poderes e a existência de heróis é algo bem comum, funciona como uma ode aos heróis americanos e tem atraído a atenção do público não só no Japão como no mundo. Enquanto o anime de One Piece é produzido de forma ininterrupta há décadas, My Hero Academia tenta ter uma narrativa mais ágil ao realizar uma exibição por temporadas. E o autor Kohei Horikoshi tem um incentivo a mais para fazer sucesso: quando ele ainda era adolescente, o jovem Horikoshi mandou para a Shueisha um desenho para ser publicado no 23º volume encadernado de One Piece. Muitos anos depois, no volume 77, o próprio Eiichiro Oda publicou em One Piece essa história e desejou sorte ao novo autor.

Sucesso mediano no ocidente

É um pouco estranho para nós no ocidente enxergar One Piece como um grande fenômeno e não Naruto. Enquanto por esse lado do globo a trajetória de Naruto para se tornar um Hokage acabou sendo a “sucessora natural” das aventuras de Goku, One Piece penou um pouco para emplacar. Um dos principais fatores desse sucesso não tão grande de One Piece no ocidente foi a versão animada lançada pela empresa 4Kids.

Capa da Shonen Jump com Naruto
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A distribuidora ficou famosa por ter adaptado Pokémon para o gosto do público ocidental, retirando qualquer referência à cultura japonesa da animação. Para cumprir com esse objetivo, a 4Kids realizava mudanças nos diálogos (lembra do Brock comendo um bolinho de arroz japonês e dizendo que era pipoca doce?) e até mesmo intervenções digitais para trocar comida japonesa por um hamburgão. Em One Piece, a 4Kids exagerou um pouco e sua censura se tornou uma piada recorrente na internet.

Para não chocar o público infantil, a distribuidora trocou digitalmente todas as armas de fogo por brinquedos e garrafas de vinho por suco de uva. A mais infame das edições acabou sendo o cigarro de Sanji, substituído por um pirulito de morango. Além de abolir o tabagismo e o alcoolismo da vida dos piratas da ficção, a 4Kids promoveu uma extinção dos crucifixos no anime, tudo para retirar qualquer conotação religiosa. Toda a trilha sonora foi refeita nos EUA e a abertura deixou de ser a música “We Are” para se tornar um rap.

O roteiro também não passou intacto pelas mãos da empresa americana. Momentos dramáticos envolvendo mortes foram amenizados, personalidades trocadas, piadas bem americanas inseridas e alguns arcos e situações foram apagados sem qualquer motivo. Quando Luffy chega na Grand Line e dá de cara com a baleia Laboon, eles decidiram mudar o mamífero por um iceberg gigante porque sim e pronto.

A 4Kids editou apenas duas temporadas do anime, encerrando após a Saga de Alabasta. Aqui no Brasil esse anime editado foi exibido pelo Cartoon Network e pelo SBT, mas teve apenas os primeiros 52 episódios exibidos (até eles encontrarem o Chopper). A Funimation conseguiu os direitos da série nos Estados Unidos e, desde então, relançou desde o começo com uma nova dublagem mais próxima do original.

As alterações feitas pela 4Kids no anime de One Piece.

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Atualmente, os fãs brasileiros não têm muito o que reclamar a respeito do acesso das aventuras de One Piece. O anime é disponibilizado semanalmente pela Crunchyroll totalmente legendado, uma hora após a exibição do episódio no Japão. Mesmo com mais de 900 episódios necessários para se acompanhar as aventuras atuais de Luffy, a série é uma das mais vistas do catálogo segundo informações de Yuri Petnys, gerente da Crunchyroll no Brasil. Há algumas facilidades para o fã que se aventurar a acompanhar a história toda: na Crunchyroll estão presentes alguns especiais da série que “resumem” momentos, um sobre como todo mundo se conheceu e um resumão do arco de Skypea exibido na televisão japonesa. Atualmente, Luffy está na ilha dos samurais e a animação está especialmente bonita, graças à direção de Tatsuya Nagamine, responsável pelo filme Dragon Ball Super: Brolly.

Pôster do atual arco do anime

Pôster do atual arco do anime de One Piece.

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Já o mangá teve dois momentos diferentes aqui no Brasil. Ele foi lançado pela editora Conrad em 2002, sendo um dos primeiros países a publicar o mangá no ocidente, mas o título foi cancelado em 2007 após problemas da editora. A Panini conseguiu os direitos de publicação e, desde 2012, segue ininterruptamente a publicação do mangá de Eiichiro Oda. Atualmente, o lançamento no Brasil está quase colados no último volume japonês, o de número 93, sem perder o interesse do público. Para Beth Kodama, editora do mangá brasileiro na Panini, a proximidade com o final e a boa fase do anime no Japão ajudam na procura do mangá por aqui. Já para os fãs mais afoitos, que gostam de ler os capítulos mais recentes, é possível conferir no aplicativo Mangá Plus da Shueisha, onde os capítulos são lançados em inglês e espanhol.

Todo esse sucesso editorial e no streaming no ocidente está aí para mostrar que One Piece pode até não ser um fenômeno ocidental como Naruto foi nos anos 2000, mas tem seu público fiel.

Mas como pode ser o final?

O final de One Piece está claro desde a primeira página do mangá com a execução de Gold Roger. Em seus últimos momentos de vida, o maior pirata do mundo avisa ter escondido todo o seu tesouro no final da Grand Line. Quem conseguisse chegar até lá seria o rei dos piratas. O grande sonho de Luffy é chegar no local e, bem… ser o rei dos piratas.

Um medo muito grande dos fãs de One Piece era o final ser algo do tipo “o verdadeiro tesouro foi a jornada e os amigos feitos no caminho”, ou seja, que o tal One Piece seja apenas um tesouro subjetivo. No entanto, Eiichiro Oda já deixou claro que o prêmio para quem chegar ao fim da Grand Line existe sim e está escondido na ilha de Raftel, localizada no final da rota marítima.

Pôster do filme One Piece Stampede

Pôster do filme One Piece Stampede

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Em capítulos mais recentes de One Piece, foi revelado que a localização de Raftel é determinado após uma análise de quatro monolitos especiais, que ligados formam a localização da ilha como um X num mapa. As informações sobre o destino final de Luffy sempre foram bem escassas durante o mangá, mas Eiichiro Oda adora espalhar dicas em todos os cantos possíveis. Em uma declaração recente, o autor contou que há uma pista sobre Raftel no longa One Piece Stampede, o mais recente da franquia.

Embora Eiichiro Oda tenha declarado sua intenção de terminar o mangá em cinco anos, conhecemos bem a figura e sabemos que pode demorar mais. Em muitos arcos do mangá o autor “se empolgou” e arrastou as situações por muito mais tempo do que devia, criando mais personagens e conflitos. Como One Piece tem dezenas de pontas soltas ainda, talvez cinco anos ainda não seja o bastante para solucionar todos os mistérios do mangá e realizar um final satisfatório. O jeito é acompanhar a série e ver até onde vai a criatividade do Oda.