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Entrevista

Omelete entrevista: Daniel HDR

Omelete entrevista: Daniel HDR

Érico Assis
25.08.2003
00h00
Atualizada em
10.11.2016
03h03
Atualizada em 10.11.2016 às 03h03

Ele é Daniel Horn da Rosa, ilustrador, designer e publicitário porto-alegrense de 29 anos. No entanto, seus fãs, no Brasil e nos Estados Unidos, conhecem-no como Daniel HDR, um dos melhores desenhistas na nova safra de artistas brasileiros que desponta tanto aqui quanto no exterior.

Combinando uma excelente experiência em trabalhos para os Estados Unidos, como sua conhecida passagem pela adaptação de Digimon para a editora Dark Horse, com diversos projetos de qualidade no mercado nacional, como a recente Dungeon crawlers, Daniel ainda tem trabalhos como desenhista publicitário que estão sendo divulgados em todo o país e consegue encontrar algumas horas na sua rotina para dar aulas. Ele é professor de Arte Seqüencial no curso de Comunicação da Unisinos e em um curso particular oferecido pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

Na entrevista, Daniel conversa sobre sua carreira, dá dicas para quem quer trabalhar na área e fala sobre seus vários compromissos.

Olhe para sua agenda: quais são seus trabalhos fixos atuais? Você continua no Digimon da Dark Horse?

É bem corrida. Digimon, eu não faço há uns dois anos, mais ou menos. Até porque mudou a temporada do anime e eu estava envolvido somente com a produção da primeira temporada. Digimon foi bem non stop, pois inicialmente a publicação era quinzenal, eu pegava um número sim, outro não, que era feito nos EUA mesmo.

De trabalhos atuais, estou fazendo a série Dungeon crawlers, da Mythos Editora, produzindo material vindouro para a Via Lettera (em suaves prestações, porque se trata de material autoral, que eu produzo vez que outra, entre serviços encomendados). Fora isso, leciono quadrinhos e arte seqüencial na Unisinos. Além do Curso de HQ pelo Governo do Estado do RS desde 1998, no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa.

Como começou tudo? Cite os fatos que você considera importantes na sua carreira de desenhista.

Eu atuo em algo que está ligado à minha vida desde pequeno. Acho que só na questão de carreira seria difícil definir as motivações. Meu pai colecionava quadrinhos e desenhava tiras e ilustrações nas horas vagas. Ele trabalhava como desenhista projetista, mas sempre gostou de quadrinhos. Criei afinidade com as HQs desde cedo. Quando ele veio a falecer, vítima do câncer, em 1981, não parei mais de desenhar. Minhas primeiras intenções com quadrinhos vieram daquela época. Muito de minha teimosia em trabalhar nesta área veio dessa mudança... Hoje em dia, eu penso que, se não fosse essa mudança, talvez eu até estivesse fazendo outra coisa. Vai ver, o meu interesse por HQs fosse bem menor ou nenhum, o que poderia ter acontecido em minha adolescência (caso ele estivesse vivo, pois a maioria dos adolescentes gosta de ir contrário ao que os pais apreciam etc.).

Em fatos da carreira, cada conquista pra mim tem muita importância; desde o primeiro fanzine até publicações de enorme tiragem. Ou da ilustração pro jornal do colégio até o gimmick de uma campanha nacional. Acho que essa teimosia foi o que considero ainda mais importante.

Você tem um site pessoal bem cuidado. Isso é comum entre artistas nos Estados Unidos, mas não tão freqüente entre os brasileiros. Como ele ajuda na sua obra? Você já conseguiu trabalhos através de gente que visitou o site?

Acho isso fundamental. Quando tomei contato com a Internet, em 1997, eu já queria fazer assim. Mas, quando comecei a fazer o Digimon, e, no fim, meu nome estava muito relacionado a essa linha de publicações, sendo que eu já publicava desde 1989, decidi mostrar mais das obras anteriores, que eu não fazia só monstrinhos fofinhos. Nem foi uma estratégia. E até porque eu prezo muito o contato com o pessoal que prestigia o que faço ou quer trocar uma idéia. O correio eletrônico é uma mão na roda. Hoje em dia fica bem difícil dar conta dos e-mails, mas procuro sempre manter contato.

Agora, é inegável que a Internet é muito útil em divulgação de seu próprio portfólio. Muitos trabalhos que fiz após ter criado minha página, principalmente com publicidade e propaganda, e com editoras daqui e de fora, têm tido como contato inicial o site. Mas não só o site é um fator importante. Muitos sites-galerias, de gente que já tem a iniciativa de divulgar a obra de muitos autores, são de grande valia pra quem atua na área. Quem procura tais serviços utiliza-se hoje em dia da web para obtê-los.

Como é seu processo técnico? Você desenha direto no computador, utiliza-o muito para retoques? Ou é tudo no nanquim e papel?

Olha, depende muito do serviço. Não vou negar que, com nanquim, eu tenho trabalhado de modo muito ocasional, principalmente se o tempo em si permite. Com a prática, e dependendo do processo de criação-desenho da página, é possível elaborar definição com o grafite até mais rápido do que o tempo que se levaria arte-finalizando uma página por inteiro. Mas não dá pra virar as costas para as ferramentas que o computador possibilita, o chamado digital ink. Muito do que tenho feito recentemente vem desse processo.

Quando tenho mais tempo, costumo planejar as minhas páginas no formato em que a publicação originalmente terá, pois gosto de ter a idéia imediata de como o leitor verá a proporção das cenas, o impacto que elas possam ter na composição da página etc. Eu amplio esse esboço, bem livre e simples, para o formato que o original vai ter (seja um A3, A4, etc). Passo esse esboço na mesa de luz, geralmente fazendo as marcações com grafite azul. Daí parto para a definição.

Como expliquei, se arte-final torna-se possível e necessária, eu a faço, mas, se não, eu defino volumes e texturas com o grafite mesmo. Parece inconcebível para muitos, mas quando se mexe com isso tanto tempo, a gente acaba se habituando com o resultado que o material pode te dar. Esse processo tem sido usado, por exemplo, em Dungeon Crawlers. O Ricardo Riamonde tem digitalizado minhas páginas e trabalhado a cor sobre o grafite.

Como são os prazos? Quantas páginas saem por dia, atualmente?

Muitas vezes na unha. Mas tenho conseguido fazer várias coisas, pois minha média é de duas a três páginas por dia. Nos meus primeiros trabalhos, eu ficava tão inseguro e sem um esquema organizado que fazia uma e olha lá...

Como foi chegar aos mercados estrangeiros? Para a Dark Horse, você conta que enviou propostas de criações suas - isso veio por indicação de algum outro profissional ou você foi sozinho, na cara e na coragem? E as publicações que saíram na Europa?

Xí, isso faz tempo. Mas lá é muito difícil um desenhista novo emplacar material próprio (pelo menos em uma editora de médio ou grande porte). O que foi oferecido na época é um projeto que hoje eu realizaria de outra forma, chamado Soul manager (temporariamente engavetado), mas que, não posso negar, ajudou bastante para que eu conseguisse projetos como Digimon e outras coisas na linha mangá para os Estados Unidos.

Como o mercado estrangeiro está pagando os artistas brasileiros? Antigamente eram valores bem abaixo do que recebiam os artistas dos mesmos países das editoras.

Ainda é. Mas o valor por página tem variado conforme a exposição e produtividade do autor. Às vezes, não chega a ser tanto, mas os acordos com editoras podem render bons frutos.

Independência financeira só com ilustração: existe em Porto Alegre?

Já me perguntaram isso... Se, pelo fato de estar no Sul do país, longe dos grandes centros, eu teria dificuldade em assumir serviços. Tempos atrás, até que sim, mas, com a internet, não existe mais fronteira intelectual. Que dirá de mercado.

Se é possível viver de quadrinhos trabalhando só para cá? Não. Se você se desdobrar, pode até ser. Mas lá fora não é diferente daqui, não (guardadas as devidas proporções, lógico). Diferenças monetárias e até culturais à parte, também podem ocorrer calotes como acontecem aqui, inconstância de serviços (como pausas de meses entre um trabalho que outro) assim como a memória curta de muita gente, achando que tal autor parou, não faz mais nada. E, quando se encontra tal autor, ele está mais produtivo e criativo do que nunca, só que está na dele, ou atuando em outras áreas.

Como começou o interesse por mangás?

Além do que saiu por aqui nos anos 90, em 1989 eu tive acesso a uma Shonen Jump, onde pude ver, entre diversas HQs publicadas naquela lista telefônica (mais de 300 páginas) a série Bastard, que me chamou a atenção logo de cara. Dali, como sempre procurei ler de tudo, e mangá passou a fazer parte de minha prateleira também.

Como anda a questão de utilizar a linguagem do mangá nos mangás produzidos nos Estados Unidos? Há, com certeza, vários desenhistas utilizando-se desse estilo - traços e composição -, mas raramente vê-se a verdadeira narrativa do quadrinho japonês nos mangás americanos. Com mais mangás originais sendo traduzidos e publicados lá, chegando ao ponto de a Shonen Jump ter sua versão americana, não se começou a perceber melhor todas as características que diferem o mangá japonês do americano?

Scott McLoud, no livro Desvendando os quadrinhos, comentou que a narrativa dos mangas é como é (com seus quadros de transição lenta e subjetiva) devido ao longo período de duração das séries, onde a narrativa pode ser mais dispersa e desenvolvida em pequenas HQs que são publicadas quinzena ou semanalmente... e, no caso dos quadrinhos americanos, as publicações pelo menor número de páginas, precisam ter narrativa mais imediata nos acontecimentos, em função da leitura rápida. No meu ponto de vista, isso explica muito.

E os gibis publicados atualmente no Brasil, como começaram? Você procurou a Mythos ou ela foi até você?

A Mythos tem como um de seus braços o estúdio Art & Comics, o qual me agencia para os Estados Unidos há anos. A editora me propôs o projeto, que já estava sendo negociado com o Marcelo Cassaro. Os primeiros estudos das personagens já foram feitos em janeiro deste ano já, e a produção do primeiro número já começou em fevereiro. Agora, estou emendando um número atrás do outro. No momento, estou fazendo o terceiro.

Você ainda trabalha como roteirista?

Apenas em material autoral, bem diferente de longos projetos em série. Gosto de desenvolver HQs fechadas ou material bem experimental, como quadrinização de poesias ou letras de música. Foi-se minha paciência em tentar escrever projetos mais arrastados, com várias partes, muito longos. Até porque eu sei que não sou um bom roteirista. Posso até simpatizar com um plot que outro que desenvolvo, às vezes, só pra ver no que daria, mas realizar algo mais extenso, não.

Trabalhos em conjunto já são outra história. Me agradam bastante. Como a parceria com o amigo Fábio Yabu para o álbum Mangá Tropical, da Via Lettera. A HQ muito se aproxima do que curto fazer como material autoral. Tanto que estamos desenvolvendo calmamente (até porque eu tenho todos esses outros compromissos profissionais e o Yabu tem os dele, como a Combo Rangers) outras histórias na mesma linha. A abordagem do roteiro do Cassaro em Dungeon crawlers também tem sido muito legal. Ele dá bastante abertura no material pra desenvolver o storytelling, e as transições de momentos sérios e humor são muito legais de se concretizar visualmente.

A Unisinos é a primeira universidade brasileira a oferecer um cadeira de desenho de mangá? Como tem sido essa experiência? Quem se interessa por se inscrever? A cadeira é opcional, certo?

Sim. O convite veio a mim em 2001 ainda, pela faculdade e o Consulado Japonês aqui em Porto Alegre, que pôde ver meu trabalho sendo publicado aqui e lá fora. Fiquei muito contente com o reconhecimento e o interesse da entidade, e, desde então, tenho ministrado essas aulas para alunos de Publicidade & Propaganda, Jornalismo e Comunicação. Ano passado ainda, a faculdade convidou-me a ministrar aulas de quadrinhos no setor de Comunicação. Ambas as disciplinas têm horas-aula registradas nos curso de P&P, Comunicação, Jornalismo, e também está sendo possível ministrar em horários específicos, turmas para alunos de fora da faculdade. Tem sido uma experiência ótima, pois a infra-estrutura é muito boa e estou podendo passar para os alunos não só uma visão prática das HQs, mas o estudo delas como meio de comunicação, seu histórico, sua linguagem universal como mídia completa etc.

O público que tem freqüentado vem desde pessoas que queiram incluir a arte seqüencial (seja ela o mangá, os comics, o que for) em sua respectiva área de atuação até aquele fã de quadrinhos, que adora desenhar, criar seus projetos, e está enveredando por uma área indireta, sendo publicitário, arquiteto etc.

Você também tem uma atividade com música eletrônica, certo?

Ih, cara, isso é só por lazer. Nada pretensioso, não. Eu fazia meus barulhos desde 1990. Até fiz fitas-demo, cheguei a participar de coletânea do gênero, apresentações etc. Mas, com o tempo curto, quando comecei a encarar mais seguido títulos de quadrinhos, não sobrou mais tempo pra isso, além de que horas de estúdios pagos custam caro. Como hoje é mais fácil ter um PC consigo, garimpar samplers e timbres de som na web, com os devidos softwares, fica até mais fácil. Cheguei a fazer uma sessão dentro do meu site, onde tem algumas amostras desse material novo. Faço muito esporadicamente, quando dá na veneta, um pouco um dia, outro tanto um mês depois... Já estou com umas cinco faixas novas, e devo fechar um CDzinho ao final desse ano. Só por diversão mesmo.

Apesar de você ser reconhecido como um desenhista no estilo mangá, sempre faz diversas referências a quadrinhos americanos e europeus. No que você gostaria mesmo de atuar?

No que eu gostaria de atuar? Agradeço a Deus todas as noites por deitar cansado por ter labutado o dia todo no que eu mais gosto, que é desenhar. Não importa o gênero. Se estamos falando de preferências, eu gosto do traço realista. Tanto que meu mangá normalmente é puxado mais para o realista, o chamado Gekigá; assim como gosto do desenho realista em si, seja ele europeu, americano, o que for. Também gosto de muita coisa estilizada, como a chamada linha Adventures, e muita coisa de cartum. Mas só o fato de poder produzir me deixa feliz. Acho que é importante fazer aquilo de que a gente gosta.

Daniel HDR é professor de história em quadrinhos, ensinando desenho e roteiro em diferentes níveis num curso especial em Porto Alegre. As vagas estão sempre abertas. Porto-alegrenses e demais interessados devem entrar em contato com: Curso de História em Quadrinhos no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa. Rua da Andradas, 959 - Centro - Porto Alegre-RS. Fone (51) 3019.7427 ou 3224.4252. E-mail: cursodehq@terra.com.br