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O Omelete na mesa redonda de Joe Quesada, Mike Carlin e Axel Alonso

O Omelete na mesa redonda de Joe Quesada, Mike Carlin e Axel Alonso

Wilbur
09.08.2001
00h00
Atualizada em
07.11.2016
04h01
Atualizada em 07.11.2016 às 04h01
Joe Quesada, Mike Carlin e Axel Alonso falam sobre seus inícios de carreira, fórmulas, censura, adaptações de filmes e o que faz um super-herói dar certo.

O correspondente internacional do Omelete (que chique isso), Wilbur, inaugura sua coluna falando sobre uma mesa redonda organizada por um grupo de teatro simpatizante dos quadrinhos. O evento ocorreu dia 11 de julho de 2001 no Centro de Caridade da rua 74 em Nova Iorque. Lá, o editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, o atual editor do Homem-Aranha e outrora da linha Vertigo (leia uma entrevista dele aqui), Axel Alonso, e o editor da DC Comics, Mike Carlin, passaram uma hora e meia falando de suas experiências.

Segue abaixo a transcrição do debate que se iniciou quando o apresentador solicitou a cada um dos integrantes da mesa que traçassem breves históricos pessoais.

Axel Alonso - Eu costumava ler quadrinhos quando era pequeno, mas abandonei completamente o hábito quando descobri as mulheres e as revistas pornográficas. Passaram-se muitos anos até o dia em que eu li Alan Moore e voltei aos quadrinhos.

Mike Carlin - A primeira coisa que me atraiu nos quadrinhos foi o fato de eu poder me virar sozinho com eles. Era fácil e divertido. Minha mãe era fã de gibis. Eu criava quadrinhos para me entreter. Foi algo muito natural.

Eu me formei na escola de arte e, em 1977, fui aceito como estagiário na DC Comics. Trabalhei fazendo tiras de quadrinhos e ilustração. Sempre levei meu portfólio às redações, sempre estive ao redor das editoras. Um dia, acabei descolando o emprego.

Joe Quesada - Meu pai me deu uma revista do Homem-Aranha sobre drogas quando eu tinha 16 ou 17 anos. Estudei na Visual Arts e até tive aulas com Will Eisner, mas, na época, ainda não me interessava por quadrinhos. Meu sonho era ser um cantor e compor músicas. Após alguns anos, vendo todas aquelas drogas, gente tomando pico no banheiro, pensei comigo mesmo: ‘quadrinhos parece melhor’. Passei anos vivendo como músico sem dinheiro, tendo que me virar todo final de mês pra pagar o aluguel.

Certo dia, eu estava trabalhando numa loja de brinquedos. Alguém me viu desenhando e disse: ‘Você deveria desenhar quadrinhos’. E eu respondi: ‘E você deveria cuidar da própria vida!

Mesmo assim, no dia seguinte, o cara me trouxe meia dúzia de gibis para eu dar uma olhada. Eu me senti incentivado pela sua atenção e decidi comprar uma revista. Lembro como fosse hoje. No bolso, eu só tinha dinheiro pra uma HQ. Fui à loja e sem saber exatamente o que levar e comprei Watchmen 2. Então, eu vi que quadrinhos tinham mudado muito enquanto estive fora. Suponho que tenha sido como dar o Álbum branco dos Beatles pra quem nunca se envolveu com música.

Então, imagine como foi, na semana seguinte, após receber meu salário, eu voltar com dinheiro pra dez revistas e eles eram todas uma droga. Eu me perguntava onde tinha ido parar a que havia lido na semana anterior. Na época, decidi deixar os títulos da Marvel de lado, porque simplesmente não suportava aquelas histórias. Mas, de uma forma geral, isso me mostrou que quadrinhos era algo que eu tinha que fazer.

Decidi parar, então, por um mês. Concentrei-me no meu portfólio e fui à redação da Marvel. Eu fiquei tremendo enquanto o editor olhava minha pasta. O editor sentiu uma certa pena de mim, me pediu pra esperar um minuto, porque tinha que atender um telefonema.

Eu passei 45 minutos rezando.

De repente, ele retornou dizendo uma única frase: “você deve ser o ser humano mais sortudo da face da terra. Era meu desenhista dizendo que está doente e eu não tenho quem faça essas duas capas. Topa fazer&qt;& Você tem uma semana”.

No dia seguinte, as capas estavam prontas. Depois disso, nunca mais parei de trabalhar com quadrinhos.

O que faz uma boa história&qt;&

Joe Quesada - mais amendoins, mais esboços.

Mike Carlin - Algo tem que importar na história. Não me pergunte o quê. A esposa é morta, algo acontece. É difícil entender a fórmula do que faz uma história e é mais difícil ainda de se ensinar.

Axel Alonso - As pessoas dizem que há uma fórmula na indústria, mas, na verdade, não há fórmula alguma. Existe estilo. Eu sempre converso com os escritores para ver quanta noção eles têm do que esta acontecendo. O escritor precisa saber a direção que ele vai tomar. Minha recordação mais impressionante era de uma história do Monstro do Pântano em que o assassino lembrava das vítimas pela cor dos olhos.

Mike Carlin - Não existem fórmulas. As rotinas destroem histórias.

Joe Quesada - Existem boas fórmulas. Em alguns casos, elas funcionam. Em outros, não. Eu acredito que, como escritor, você tem que cuidar pra que os leitores se importem com a história. Precisa saber dos amores e ódios da personagem, o que a faz perder o controle e quando ela põe isso pra fora. De outra forma, é apenas uma pessoa qualquer numa fantasia.

Mike Carlin - Um bom exemplo é o fato do Homem-Aranha não ter rosto. Tudo que nós entendemos da personagem não é baseado nas suas expressões faciais, mas no conhecimento do seu passado. Nós sabemos o que está se passando na vida dele.

Joe Quesada – É preciso ter em mente ainda que produzimos HQ num ritmo industrial. E, ainda assim, vez por outra, conseguimos uma história tão boa quanto muitos filmes. Estamos lidando com personagens que já se tornaram ícones.

Mike Carlin - Crianças cresceram lendo esses quadrinhos. Acredito que as imagens sejam o ponto mais interessante dos quadrinhos, o poder da seqüência se desenvolvendo e contando uma história. A linguagem dos quadrinhos ainda é a mesma da primeira tira. Vejo isso como o poder da objetividade nos quadrinhos. E você vê que quem aprende essa linguagem, acaba reincorporando-a dentro do próprio estilo.

Joe Quesada - Você acabou de contar o maior segredo da indústria.

Vocês acreditam que quadrinhos têm mais atenção da mídia hoje em dia do que nos anos 80&qt;&

Mike Carlin - Eu não acho. O Super-Homem teve muitas matérias quando o filme saiu nos cinemas. E eu mal posso esperar pelo filme do Homem-Aranha.

Axel Alonso - Eu acredito que, agora, nós temos algo relativamente novo na relação entre quadrinhos e cinema com filmes como Corpo fechado. Com o avanço da tecnologia, hoje, é muito mais fácil fazer um filme de super-herói. Logo que assisti ao filme, pensei: ”esses caras são malucos”. Eu fiquei impressionado, porque aquele filme me deu uma noção de mídia. Super-Herói é um gênero que pode ser contado por qualquer mídia. Corpo fechado força você a ver nessa direção.

Joe Quesada – Outra coisa interessante é que, quando voa no final do filme, a personagem não voa como o Super-Homem. Ele praticamente caminha no ar.

Mike Carlin - Em relação a filmes de quadrinhos, eu nunca vejo como perda não ser uma adaptação literal. Muitas pessoas relacionadas com cinema lêem e respeitam quadrinhos. Mas, no caso de merchandising e de ‘ter que vender o produto’ forçando alterações, é necessário entender a essência da personagem. Para mim, a adaptação do desenho animado de Batman e Super-Homem são as melhores até hoje. Nenhuma emoção se perdeu na transcrição dos quadrinhos pro desenhos animado. E não é uma adaptação literal. Por exemplo no desenho animado, Brainiac destruiu Krypton. E que idéia boa foi essa. Assim, temos um vilão relacionado à origem de Super-Homem. Eu acredito que as adaptações deveriam ser diferentes. Deveriam nos dar novas idéias sobre as personagens.

Joe Quesada - Por exemplo, o filme X-Men nos faz lembrar da verdadeira essência das personagens, que se perdeu nos quadrinhos entre histórias tão complexas e inter-relacionadas. Nós esquecemos o importante neles. E é difícil recuperar isso no meio de toda a cronologia. Então, o filme nos faz lembrar quem eles são.

No que afeta a relação entre quadrinhos e outras mídias&qt;&

Mike Carlin - Eu tomei uma decisão alguns anos atrás, sem pressão de absolutamente ninguém, de relacionar um pouco da HQ do Super-Homem com a série de TV. E fiz o casamento no programa e no gibi acontecerem no mesmo mês. Achei que seria um bom gancho pra relacionar uma coisa à outra, promovendo ambas. Mas, sem se importar com isso, os produtores do seriado decidiram fazer o casamento de repente num dos piores episódios. E não foi culpa nossa. O que é necessário entender aqui é que estamos lidando com comércio e não arte.

Joe Quesada - A questão envolve licenciamento. Você paga por isso e conseqüentemente não pode operar mudanças significativas. Por exemplo, Não pode matar Peter Parker. Não pode fazer mudanças que alterem a linha de produtos. É difícil fazer histórias muito controversas.

Axel Alonso - Ainda assim, o Homem-Aranha passou por inúmeras mudanças: casamento com Mary Jane, morte de Mary Jane. Você mantém o básico da personagem, sem jamais deixar de ser criativo. Com o passar dos anos, a cidade de Nova Iorque tornou-se uma personagem. Tudo isso auxilia a personagem sem alterar a sua essência. A revista se beneficia com mudanças não tão radicais que mantenham o interesse.

Joe Quesada - Na Marvel, nós tínhamos uma lista do que não fazer. Por exemplo, não casar tal personagem, não matar etc. E chegou o momento em que tínhamos de divorciar Peter Parker, o que era complexo. É que divórcios fazem a personagem parecer má e isso tinha que ser reduzido. É um negócio muito complicado de se lidar.

O que vocês acreditam ser uma boa solução para incentivar as vendas de quadrinhos&qt;&

Axel Alonso – Temos um problema com as lojas de quadrinhos. Elas poderiam perfeitamente fazer acordos com os cinemas quando eles estiverem passando filmes de quadrinhos. Por exemplo, distribuírem ingressos ou coisas do gênero. Se todo mundo fizer sua parte direito, o mercado cresce muito.

Joe Quesada – A localização de algumas lojas é um problema. Não é fácil fazer propaganda na TV de produtos difíceis de se encontrar. As pessoas ficam frustradas. Além disso, a maneira de se narrar histórias muda quando se conta com propaganda pra distribuir seu produto. É o caso da primeira página ter virado ‘splash page’. Isso se revelou um bom método pra transmitir o maior número de informação com um mínimo de imagens.

Mike Carlin - É preciso entender aqui que nós somos editores. Nós descolamos uma boa grana, mas nós não somos ricos. E propaganda na TV, promoção etc são coisas que exigem um bom investimento. Nosso orçamento não permite.

Houve uma experiência anos atrás de uma campanha entre a DC Comics e Cartoon Network. Uma propaganda na TV anunciava um número de telefone. Você ligava e ganhava uma revista de graça. Mas, ainda assim, você não pode forçar alguém a gostar da linguagem. A lição que tiramos foi que a promoção serviu mais à loja do que as revistas em si.

Joe Quesada - O vendedor, claro, sempre pode mostrar a direção certa para o cliente na hora de comprar: revistas com garotas rebolando.

O Comics Code, a censura nos quadrinhos

Joe Quesada - Começou há uns vinte anos. A DC passou a colocar o selo de ‘para leitores adultos’ (for mature audiences). Com esse selo, poderia haver qualquer coisa na revista. Do contrário, era preciso lidar com a censura. A Marvel preocupava-se muito com essa questão. Por exemplo, o Comic Code emprega os mesmos padrões pra julgar todo mundo desde Archie a X-Men. A Marvel não permitiu que Marvel knights fosse publicada sem o selo do Comics Code. Eu odiei a censura minha vida inteira.

Lembro quando conversei com Stan Lee sobre a história do Homem-Aranha relacionada a drogas. Stan me contou que, na época, o governo americano procurou-o, pedindo uma história a pra ser usada em campanha contra as drogas. Stan escreveu e, de repente, a Comics Code Authority não queria que a história fosse publicada.

Mike Carlin – O Comics Code Authority funciona como um órgão separado. E realmente tem os mesmos padrões pra todo mundo. A questão é que as companhias fazem acordos diferentes. Por exemplo, a Archie simplesmente aceitou tudo, o que significa que Archie nunca dirá “mas que merda”. Hoje em dia, não é tão ruim. Tem a ver com a reação dos pais. Eu recebia reclamações de pais que ouviram seus filhos dizerem ‘bastich’ (uma modificação da palavra ‘bastard’) proferida pelo Lobo. E, na verdade, nem é uma palavra. É difícil agradar todo mundo.

Joe Quesada - O maior problema é que essa postura manteve a opinião pública de que quadrinhos são um meio de comunicação exclusivo de crianças.

Mike Carlin - Cavaleiro das Trevas tem muitos palavrões. Na época, foi uma decisão da DC lançar sem o selo do Comics Code.

Joe Quesada - Uma coisa a se entender aqui é que, de uma forma geral, não falando apenas de quadrinhos, quanto mais dinheiro envolvido, mais ‘limpo’ o produto final se torna. O que empresas querem é retorno.

Mike Carlin - E o mais estranho, no final da história, é ver como na verdade, as crianças adoram ler e ouvir palavrões, porque é proibido.

Joe Quesada – A coisa é muito simples: no final de um dia de trabalho, ninguém quer ouvir terceiros, pedindo mudanças.

Dicas para novos quadrinhistas

Mike Carlin - Do jeito que eu entendo, se você quer ser um encanador, tem que estar no lugar certo, na hora certa e se preparar para fazer o seu serviço. Não vai ter permissão pra trabalhar se não estiver nos padrões. Nós não somos uma escola. Nós contratamos pessoas. E algumas pessoas tiveram a sorte de chegar lá e fazer o que tinham de fazer. Claro que há gente melhor e que nem todos que chegaram mereciam estar lá, mas, no final das contas, você tem que cruzar os dedos e torcer para escolher a pessoa certa.

Joe Quesada - Você não precisa ser brilhante, mas, se estiver sempre por perto, seu nome pode ser lembrado quando precisarem de alguém.

Mike Carlin – É preciso ser bom, confiável e uma boa pessoa. Com dois desses três itens, você tem uma carreira.

Ë mais difícil avaliar roteiros porque nem sempre temos tempo de ler tudo. Acontece algumas vezes de estar bêbado, alguém te conta uma história, você se interessa e marca uma entrevista. No dia seguinte, vê que a história era realmente boa. Acontece.

Se você lê muito, assiste a muitos filmes, pode escrever quadrinhos. Isso é o que eu acredito.

Joe Quesada – A arte brilhante precisa ser descoberta, é verdade, mas, no final do dia, a pessoa precisa ainda ter pique para fazer o que tem que fazer.

Como vocês se sentem sobre as várias fases das personagens

Mike Carlin - O Super-Homem, por exemplo, tem uma personalidade que funciona em muitas encarnações diferentes. Nos anos oitenta, queriam que ele fosse mais baseado em Christopher Reeve. Hoje, querem que ele seja mais violento. Se as pessoas querem um “escroto” como o Super-Homem, é o que nós damos. O público determina essa personalidade.

Axel Alonso - Eu lidei com isso nas mesmas circunstâncias de decidir quais rumos dar a certas personagens como Homem-Aranha.

Vocês acreditam em quadrinhistas contratando agentes para promover o trabalho&qt;&

Joe Quesada - Perda de tempo.

Mike Carlin - Quadrinhos é uma indústria pequena. Isso é uma perda de dinheiro.

Axel Alonso - Algumas vezes, funciona pela minha experiência, mas os melhores desenhistas da Marvel nunca tiveram agentes. De uma forma geral, é a coisa mais ridícula do mundo.

Mike Carlin - Alguns artistas se sentem mais tranqüilos, tendo um agente.

Terminada a palestra, os três se levantam e são cercados por desenhistas, fãs e amigos.