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O Brasil pra italiano ver

O Brasil pra italiano ver

Gazy Andraus
26.06.2003
00h00
Atualizada em
02.11.2016
14h03
Atualizada em 02.11.2016 às 14h03

O cenário brasileiro já foi retratado nas histórias em quadrinhos por autores estrangeiros como Hermann, em seu álbum Caatinga, que traz farta pesquisa documental sobre a época de Lampião, e Manfred Sommer, na história Jangada, que instiga o leitor com o afromisticismo na Bahia, além do mestre Hugo Pratt, que também esteve no Brasil.

Um pouco mais das desconhecidas terras tupiniquins pode ser encontrado na aventura publicada nos números 11 e 12 da revista Mister No, publicada pela Mythos Editora.

O texto Brasil, ame-o ou deixe-o, que antecede a história, apresenta ao leitor os eventos políticos que podem melhor situá-lo na aventura, recheada de libelos ecológicos: o milagre econômico, a ditadura militar, a euforia na busca da modernidade e progresso para o país, que derrapou na malograda tentativa de se construir uma faraônica estrada interligando Recife a Cruzeiro do Sul, no Acre.

A via, batizada de Transamazônica, teoricamente concretizaria parte desse milagre da economia no Norte, colaborando com o engrandecimento do país em todos os sentidos. Atualmente, o que restou desse projeto foram os dados históricos e alguns trechos que mal resistem, já que a natureza foi retomando o que lhe pertencia.

Na série em quadrinhos, de procedência italiana, o protagonista é Jerry Drake, um ex-piloto militar dos Estados Unidos, que, desiludido com o belicismo humano, opta por morar na cidade de Manaus, onde passa a desfrutar os bares em companhia das mulheres, numa vida completamente diferente de sua época de combate na Guerra da Coréia, quando ganhou o apelido de Mister No.

Na aventura em questão, Asfalto de sangue, enquanto alguns dados são verdadeiros, outros são fantasiados, uma vez que a história se desenrola nos anos 50 (portanto, anacronicamente à época em que se dera a construção da Transamazônica, nos anos 70). Mister No, devido a seus conhecimentos geográficos, é convidado a assessorar o início da empreitada, capitaneada por uma junção empresarial entre Brasil e Estados Unidos. A situação da empreitada começa a ter problemas quando a construtora decide desviar o leito de um rio para conseguir uma economia maior de recursos financeiros, modificando o trajeto inicial. Infelizmente, tal mudança destrói algumas aldeias indígenas e provoca distúrbios ecológico-ambientais. Como Mister No não aceita a nova diretriz, o embate é iminente. O número 11 termina com o agravamento da situação e um possível combate, que pode acabar em tragédia, entre índios e operários. Toda a trama elaborada por Alfredo Castelli, bem composta e instigante, ainda terá desmembramento na edição seguinte, com o título Terra cruel, nas bancas na segunda quinzena de junho.

A pesquisa dos autores dessa história em quadrinhos retrata os índios Arara e Apinayte, além dos procedimentos técnicos para a preparação dos trechos iniciais da estrada, e até mesmo alguns dados curiosos, como os hábitos da anta brasileira. Os quadrinhos, desenhados pelo italiano V. Monti, retratam perfis humanos e sua cultura, e igualmente devem ter tido como fontes a fotografia e a pesquisa bibliográfica.

Trata-se de uma revista com informações interessantes, que podem ser usadas como aliadas nas instituições educacionais de nosso país, tanto para detectar erros como para atestar e corroborar as informações nela contidas, inculcando uma diferente dialética entre alunos e professores: a ficção como fonte de informação alternativa.

Gazy Andraus é pesquisador do Núcleo de Pesquisa de História em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA-USP), mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da UNESP e doutorando em Ciências da Comunicação da ECA-USP, bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e autor de histórias em quadrinhos autorais adultas, de temática fantástico-filosófica