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Miracleman, o plágio que deu certo

Miracleman, o plágio que deu certo

Jotapê Martins
14.08.2000
00h00
Atualizada em
09.11.2016
16h03
Atualizada em 09.11.2016 às 16h03

Marvelman surgiu na Grã-Bretanha em 1954, pouco depois da publicação de Capitão Marvel ter sido cancelada nos Estados Unidos. O fim do velho Capitão foi conseqüência do acordo entre a Fawcett e a National Periodicals, o que encerrou um litígio de vários anos. A segunda acusava a primeira de ter plagiado seu carro-chefe, o Super-Homem, ao criar o Capitão Marvel. Conversa pra boi dormir. A verdade é que o Mortal Mais Poderoso do Mundo estava concorrendo pesado com o Homem de Aço.
Isso foi na terra do Tio Sam. Aqui no Brasil, porém, o Capitão Marvel continuou sendo republicado até o final da década de 60 na maior cara dura. Alguém na RGE deve ter decidido ignorar, convenientemente, a celeuma americana. Melhor pros novos fãs do Maioral Vermelho, entre os quais incluia-se o humilde escriba destas mal traçadas.

Os ingleses, por sua vez, bolaram uma solução bem mais interessante. No mês seguinte à publicação da última história do Capitão Marvel proveniente dos Estados Unidos na revista britânica Captain Marvel 24 da editora L. Miller & Sons,Ltd, foi lançada a edição Marvelman 25. Grande sacada, não&qt& Foi a maneira que o editor Leonard Miller e o quadrinhista Mick Anglo bolaram pra não perder os leitores.

Em português bem claro, mudou tudo, mas não mudou nada.

Na edição anterior, Captain Marvel 24, os ingleses haviam incluído quadros que mostravam Billy Batson e Freddy Freeman, respectivamente as identidades secretas de Capitão Marvel e Capitão Marvel Jr., manifestando seu desejo de abandonar suas carreiras de heróis pra levar vidas normais. No entanto, pra felicidade geral do Reino Unido, sucessores dignos foram encontrados. (E depois vocês reclamam do que a gente aprontou em Guerras Secretas).

Na prática, Capitão Marvel virou Marvelman, Capitão Marvel Jr. virou Young Marvelman e a Mary Marvel foi trocada pelo Kid Marvelman. A palavra mágica Shazam foi substituída por Kimota. O vilão Dr. Silvana encontrou sua contraparte no malévolo Dr. Gargunza. As identidades secretas também mudaram, mas as aliterações foram mantidas: Micky Moran no lugar de Billy Batson e Dicky Dauntless no de Freddy Freeman.

As origens foram levemente alteradas, mas o princípio básico das histórias se manteve. Marvelman e sua turma não deixaram a peteca da Família Marvel cair e foram enorme sucesso na Grã-Bretanha até 1963.

No Brasil, o engraçado é que, nas revistas da RGE, que republicavam as aventuras do Capitão Marvel, também entravam histórias do Marvelman, que aqui recebeu o nome de Jack Marvel. Puro samba do crioulo doido.

Se tudo tivesse acabado por aí, Marvelman seria apenas mais uma curiosidade no mundo das HQs. Mas esses ingleses são geniais e a história continuou. Em 1981, o herói voltou à cena, desta vez com roteiros de Alan Moore, desenhos de Garry Leach e posteriormente de Alan Davis. Depois de quase vinte anos, ele ressurgia em preto e branco na revista Warrior Comics da editora britânica Quality Comics. Nas suas páginas, o então futuro criador de Watchmen realizou a proeza de redefinir a personagem ao mesmo tempo em que mantinha sua origem tolinha da Era de Ouro.

Nos anos 80, já adulto e casado, o repórter Mickey Moran lembra-se, de repente, de um passado apagado da memória: suas aventuras, nos anos 50, como Marvelman e principalmente da palavra mágica, Kimota. Novamente transformado no galante e herói, ele volta correndo pra casa. Lá chegando, conta tudo à sua esposa que, após ouvir estarrecida, cai na gargalhada. Afinal, eram histórias sem pé nem cabeça como as escritas nos gibis para entreter crianças.

Na verdade, as recordações de Mickey Moran eram as histórias criadas por Mick Anglo e seus colaboradores publicadas por L. Miller & Sons. Com o desenrolar da trama de Moore, os leitores ficam sabendo que as antigas aventuras haviam sido implantadas por cientistas trabalhando pra um projeto governamental secreto (Viram só de onde Larry Hama tirou suas inspirações pra empastelar a vida do Wolverine&qt&).

Era tudo falso. Nenhum detalhe beirava a realidade. No entanto, uma coisa era certa: apesar das lembranças absurdas, Mick Moran realmente ganhava superpoderes quando dizia a palavra Kimota. Aí tem início, uma das mais geniais HQs de todos os tempos, na qual o perplexo Marvelman vai descobrindo qual é a verdade de seu passado. Mas, se vocês pensam que vou abrir o jogo, estão muito enganados. A trama é elaboradíssima e não merece ser conspurcada com um reles resuminho.

Em 1985, a editora americana, Eclipse Comics, levou, para os Estados Unidos, as histórias de Marvelman. Para evitar problemas com a Marvel, rebatizaram a personagem de Miracleman. Alan Moore pôde, então, completar o trabalho interrompido na Warrior Comics, contando com o talento dos ilustradores Steve Bissete e John Totleben, seus parceiros em Swamp Thing.

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Quando Moore, terminou o que tinha a "revelar" sobre o passado oculto de Miracleman, Neil Gaiman assumiu o título. Infelizmente, a Eclipse faliu em 1994. Um pena. Na época, a arte de uma nova seqüência de histórias de Miracleman havia sido encomendada ao brasileiro Mike Deodato Jr.

Há cerca de três anos, McFarlane adquiriu os direitos de publicação de Miracleman, mas até agora não fez absolutamente nada com eles. Na época, correu o boato de que fez isso para oferecê-los a Neil Gaiman a fim de que este desistisse de reclamar direitos autorais por Angela.

Embora longe de ser esquecido, Miracleman voltou ao limbo das personagens engavetadas, à espera de mais um retorno.