Como a Marvel criou os Vingadores dos sonhos para se despedir de Mike Deodato Jr

Créditos da imagem: Divulgação/Marvel Comics;Divulgação/Dark Horse Comics

HQ/Livros

Entrevista

Como a Marvel criou os Vingadores dos sonhos para se despedir de Mike Deodato Jr

Quadrinista falou com exclusividade ao Omelete sobre Vingadores Selvagens, Berserker Unbound e sua saída da Casa das Ideias

Gabriel Avila
17.08.2020
19h00
Atualizada em
17.08.2020
22h51
Atualizada em 17.08.2020 às 22h51

Em 2019 a Marvel pegou seus fãs de surpresa ao anunciar uma nova HQ dos Vingadores que tinha como membros os maiores brucutus da casa. Chamado de Vingadores Selvagens, o título reuniu Wolverine, Conan, Elektra, Justiceiro, Venom, e Irmão Vodu naquele que seria o último quadrinho do artista brasileiro Mike Deodato Jr., que se despedia da editora após 24 anos. Para Deodato, essa era uma maneira curiosa de dizer adeus. Como bem lembrou em entrevista ao Omelete, a revista surgiu de uma série de projetos que nunca viram a luz do dia.

“Eu deveria fazer Conan, tanto que fiz o pôster promocional do anúncio da revista. Mas como ia demorar para eles conseguirem os direitos, me passaram outras coisas. Ia fazer Wolverine com o [Brian Michael] Bendis, mas ele acabou saindo da editora, então terminaram me passando um evento, que foi o Guerras Infinitas, que terminou se esticando mais do que o previsto. Quando finalmente terminei, as equipes de Conan já estavam definidas, então fiquei ‘e ai? Não vou fazer Conan, não?’”.

Imagem promocional do retorno de Conan desenhada por Mike Deodato Jr.
Divulgação/Marvel

Ao fim de Guerras Infinitas, restava à Marvel cinco meses de contrato com Deodato, que decidiu se dedicar a projetos autorais. A saída encontrada pela editora foi criar um título contendo não apenas Conan, mas alguns de seus heróis favoritos, escolhidos a dedo pelo artista. “Me perguntaram qual personagem gostaria de fazer, então dei uma lista com os que gostaria de desenhar e a surpresa foi que eles criaram a revista a partir das minhas escolhas. Então foi um presente de despedida bem legal, achei bem bacana pegarem todos eles e colocarem na revista que eu achava que seria uma merda”, riu o quadrinista. “Achava que era uma ideia muito ruim, mas ficou ótimo. O Gerry Duggan, o escritor, conseguiu fazer a mistura maluca dar certo e ficou fantástico.”

Um dos pontos altos de Vingadores Selvagens está na interação entre Wolverine e Conan, uma união que Deodato considera espetacular. “Sou fã número 1 do Wolverine, todo mundo gosta de Conan… Não conheço um desenhista que não queira desenhar Conan! Então foi ótimo, a interação entre os dois ficou fantástica. Eu já tinha trabalhado com Duggan em Guerras Infinitas, então sabia dessa parte de humor que ele coloca e adorei!”.

Vingadores Selvagens de Mike Deodato Jr.

À esquerda, encontro entre Conan e Wolverine; à direita a equipe de Vingadores Selvagens

Divulgação/Marvel Comics

Após entregar as 5 primeiras edições de Vingadores Selvagens, era chegada a hora de dar adeus à Casa das Ideias. “Foi uma coisa bem sentimental e profunda, porque foram 24 anos desenhando para a Marvel. Foi uma decisão que não foi fácil, mas não teve jeito. Eu tenho essa necessidade de fazer quadrinho autoral e descobri que não dá pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo”.

Quanto à falta de tempo, Deodato fala por experiência própria. Seu primeiro quadrinho autoral após todos esses anos foi Berserker Unbound, história escrita por Jeff Lemire e publicada pela Dark Horse. Inicialmente, a ideia era equilibrar projetos seus com as novas histórias da Marvel, mas as coisas não correram como o esperado. “Eu tentei, fiz Berserker Unbound enquanto estava trabalhando para a Marvel. Fazia nos finais de semana e quase morri de tanto trabalho. Consome muito, não dá para fazer. Então tive que escolher entre meus sonhos: desenhar os heróis da minha infância, que vivi durante 24 anos na Marvel, ou fazer quadrinho autoral. Decidi que estava na hora de fazer essa mudança. Foi difícil, mas estou satisfeito com o resultado”.

Capa de Berserker Unbound
Divulgação/Editora Mino

Berserker Unbound conta a história de Berserker, um bárbaro que é transportado para o presente após ter sua família assassinada e sua vila destruída por um mago maligno. A HQ, que segundo Deodato foi um dos motivos que o levou escolher fazer quadrinhos autorais curiosamente nasceu dentro da própria Marvel. "O convite surgiu do próprio Jeff Lemire. Trabalhamos em Thanos, nos demos muito bem fazendo a revista e ficamos amigos. Ele me convidou e eu topei. Minha única contribuição com relação a história foi ter dito que queria fazer a história de um bárbaro. Na época a Marvel não tinha revelado nem para mim que ia trazer Conan de volta, o que se tornou também um impedimento para a gente lançar imediatamente a revista. Mas foi uma experiência fantástica, porque Lemire é um escritor incrível”.

Deodato relembra que a primeira grande diferença entre Berserker Unbound e os quadrinhos que vinha fazendo está na grande autonomia em levar a história para onde bem entendesse. “A produção de Berserker foi de um jeito diferente que eu estava acostumado, porque eu nunca tinha feito autoral com outra pessoa, e depois de tanto tempo trabalhando para a Marvel foi legal ter essa liberdade. Estava até desacostumado com isso de poder fazer absolutamente o que eu quisesse”. Não que a Marvel não lhe desse liberdade, mas há limites para o que pode ser feito com as propriedades da casa, “O que é normal, porque é deles, né?” reflete. “Com Berserker, Jeff me deu um roteiro bem solto. Tinham páginas em que ele apenas descrevia ou colocava um diálogo para marcar. Então tive liberdade para fazer aquelas páginas duplas, adicionar págnas, retirar páginas, sugerir coisas que não estavam no roteiro. Foi muito bom, e essa liberdade e a sensação de estar fazendo uma coisa sua foi fantástico, uma experiência única.”

Um ponto em comum entre Vingadores Selvagens e Berserker Unbound está na presença de um bárbaro. Por mais próximos que os personagens pareçam à primeira vista, eles se mostraram desafios completamente diferentes. “Conan eu sempre li, desde pequeno, da época de Barry Windsor-Smith, então já conhecia e sabia o que fazer dele. Já com Berserker foi diferente, tem esse lado introspectivo”, relembra Deodato. “Apesar de ter as cenas de luta mais brutais que eu desenhei até hoje, é uma história de amizade e de pesar. São duas pessoas de mundos diferentes, que não falam a mesma língua, mas que encontram pontos onde sentem a mesma coisa. Os dois perderam a família e tal. Então eles se apoiam e ficam grandes amigos. Toda a violência que eu coloquei, principalmente no 1o número, é mais uma isca, porque a história é como todas as de Lemire: tem muito sentimento, muita interação humana, que é o que torna elas especiais. E é a diferença com as histórias de Conan. Conan é mais bruto mesmo, enquanto Berserker tem essa parte humana bem forte.”

Cena de Berserker Unbound
Reprodução/Mike Deodato Jr./Twitter

Questionado sobre como seria um encontro entre Conan e Berserker, Deodato imagina uma aliança conturbada. “Acho que eles seriam aliados, mas antes teriam que trocar porrada. E é claro que Berserker ia ganhar, porque ele é o maior bárbaro de todos os tempos, Conan não ia dar nem para o começo (risos). Mas ele ia ficar com pena de Conan, poupar ele e iam ficar amigos no final”.

Bônus: Confira abaixo fotos que Mike Deodato Jr. usou de referência para desenhar Vingadores Selvagens e Berserker Unbound.

O primeiro volume de Vingadores Selvagens chegou ao Brasil pela Editora Panini. Já Berserker Unbound foi publicado no país pela Editora Mino.

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