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MANTICORE - uma HQ independente que ( quase ) deu certo!

MANTICORE - uma HQ independente que ( quase ) deu certo!

José Aguiar
19.07.2000
00h00
Atualizada em
26.11.2016
03h11
Atualizada em 26.11.2016 às 03h11
Em 1997, uma nova criatura foi incorporada ao imaginário popular. A ufologia vivia um boom de interesse por parte da mídia após a aparição do ET de Varginha e pelas cada vez mais constantes mutilações de animais causadas por uma criatura desconhecida. De caso em caso a fama do Chupacabras foi percorrendo o mundo e acabou se tornando o mais festejado mito urbano dos últimos tempos. Foi nessa mesma época que uma gráfica curitibana, a Monalisa, quis se tornar editora. E que maneira melhor de se lançar ao mercado do que com uma revista sobre o grande assunto do momento&qt;&

Pensando assim, o editor Jefferson Arantes contatou o Núcleo Estúdio Gráfico, em busca de alguém que pudesse levar adiante o seu projeto de revista em quadrinhos. O Núcleo desconfiou da proposta de parceria. Tudo parecia bom demais: papel e impressão de qualidade e participação nos lucros numa revista de circulação nacional. Com essas promessas, teve início produção da Manticore.

Como oportunidades como essa não surgem toda hora, optou-se por deixar a revista o menos comercialóide possível. A idéia era criar algo que suprisse o vácuo deixado pelas revistas nacionais de terror e ficção científica nacionais, que fizeram enorme sucesso entre os anos 70 e 80. E se possível ir um pouco mais adiante. Muita pretensão&qt;& Seja como for, era a chance de fazer quadrinhos como o pessoal do Núcleo achava que deveriam ser feitos. É preciso lembrar que, em 1997, estávamos vivendo o auge das HQs brasileiras a lá Image Comics, feitas segundo a cartilha da exportação. Um período bem negro em se tratando de criatividade nas bancas.

A proposta da Manticore era ser uma revista voltada não apenas à arte, mas que contasse com bons roteiros. Nada de Super-heróis, nem cor de computador. Uma linha editorial na contramão de todas as tendências do mercado. Terminada a mini-série do Chupacabras, era aí que a Manticore começaria de verdade. A revista traria diversas histórias curtas por edição. Além de histórias inéditas, haveria adaptações de clássicos da FC e terror na literatura e no cinema. Tudo isso não só com artistas locais. Outros que se enquadraram à filosofia da Manticore foram agregados ao projeto. Gente do Amapá, São Paulo, Mato Grosso e até do litoral paranaense contribuiu com seus trabalhos.

Feita a primeira parte da mini-série, porém, a realidade começou a se revelar. Como custear um projeto desses&qt;& Como levá-lo às bancas&qt;& A lei Rouanet de incentivos fiscais foi a primeira tentativa. Depois de quase um ano de espera, o projeto foi aprovado (pela metade) e as exigências feitas inviabilizaram esse canal. O jeito foi correr atrás de uma distribuidora que quisesse apostar numa desconhecida revista de uma nada famosa editora estreante.

Mas como convencer alguém que não sabe quem você é que o seu produto é bom&qt;& Simples. Em dezembro de 1998, a Monalisa arcou com os custos e lançou, apenas em Curitiba, uma tiragem limitada de 1000 exemplares. Foi um sucesso. Sem muito alarde e somente em dois pontos de venda, metade das revistas foi vendida. A outra foi usada em divulgação.

As duas principais distribuidoras nacionais marcaram reuniões com o Núcleo, barraram vários contatos nas secretárias, pediram dinheiro e, após meses, disseram não. Nesse meio tempo, foi concluída a segunda parte da HQ do Chupacabras. Surgiu, então, uma terceira distribuidora no mercado que aceitou trabalhar com a Manticore. Com nova injeção de ânimo, os demais números da revista entraram em andamento.

Em outubro de 1999, ainda bancada exclusivamente pela Monalisa, a revista chegou às bancas tendo sido premiada. Alguns exemplares da tiragem experimental chegaram, de algum modo, às mãos dos organizadores do troféu HQ MIX. Assim a Manticore ganhou os prêmios de Desenhista Revelação (Luciano Lagares) e o de Melhor Revista de Terror de 1998, o que empolgou ainda mais a equipe de criação.

Tamanho foi o entusiasmo do editor que este mandou confeccionar até mesmo uma fantasia do Chupacabras (mas, inexplicavelmente, o modelo utilizado não foi o personagem da revista...) que foi vestida por um dos desenhistas em vários programas popularescos de tv locais. Entretanto, o ápice dessa campanha foi um minuto de imagens no programa Vitrine, da TV Cultura e um parágrafo na revista Palavra, dentro de uma matéria sobre HQs alternativas. Outros veículos importantes não deram atenção à Manticore, até mesmo por ser quadrinhos.

Houve muita badalação local, mas, no âmbito nacional, a revista não era achada nas bancas. A distribuição era caótica: enquanto muitas bancas nunca a viram, outras se encontravam abarrotadas. Muita gente pediu a revista por carta e e-mail. A Manticore levou cerca de 3 meses para ser distribuída pelas principais regiões do país e os cartazes de banca só apareceram em Curitiba.

Até hoje, tem Manticore número 1 circulando por aí, pois a distribuidora não recolheu toda a tiragem. Resultado desses primeiros meses de circulação: quase 10.000 exemplares vendidos. Maravilha! Para uma revista que ninguém ouvira falar, uma vendagem estupenda. Houve, porém, uma barreira intransponível. A distribuidora exigiu uma tiragem de 30.000 exemplares! A situação não ficaria tão preta se a editora, para bancar essa empreitada, não tivesse enxugado ao máximo seus custos. Por fim, nenhum envolvido ganhou por isso. Para uma revista de 44 páginas em papel couchê, no formato Veja, colorida a míseros R$ 3,90 fosse viável, seria necessário uma vendagem bem maior...

Começou assim a dívida da Manticore.

O número dois, no entanto, já estava sendo lançado... ainda sem anunciantes ou qualquer patrocínio. Em janeiro último, a revista ( ainda pelo primeiro número) recebeu mais dois prêmios: o Ângelo Agostini de Melhor Roteirista de 1999 (Gian Danton) e o Prêmio Nova (Melhor História em Quadrinhos de 1999) concedido pela SBAF (Sociedade Brasileira de Arte Fantástica).

A distribuição desse segundo número também não foi das melhores, mas as vendas até aumentaram! Mesmo assim, não foi o suficiente para a revista se pagar.

No momento em que vivem os quadrinhos nacionais, vender o que a Manticore conseguiu é uma façanha! Porém daí a dizer que foi a crise a responsável pelo fim da revista é se apoiar numa muleta. Outros fatores foram decisivos para que ela se tornasse inviável, como a própria inexperiência dos envolvidos no projeto ou mesmo a da distribuidora. Ela não vendeu como X-Men, mas certamente se saiu bem melhor que qualquer quadrinho independente nacional.

Dessa experiência, tiramos alguns saldos positivos: É possível sim, no Brasil, fazer um quadrinho de qualidade e ao mesmo tempo original. É possível também vender quadrinhos nacionais, ainda mais se tiverem um preço justo. Afinal, o público ainda sabe reconhecer um produto sério, por mais que esteja amortecido com as fórmulas fáceis e sedutoras. Mesmo assim a Manticore está de molho, sabe Deus até quando. Pois sem dinheiro em caixa, não dá. Alguém mais se habilita nessa aventura&qt;& Quem sabe fazendo direito, a coisa funcione.

Visite o site www.quadrinho.com.br/manticore e tenha uma prévia das edições inéditas da manticore.