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Lá Fora

HQ criada por Emo, sete ex-namorados do mal e o melhor crítico de quadrinhos são os assuntos da colu

Érico Assis
07.02.2008
00h00
Atualizada em
09.01.2017
16h02
Atualizada em 09.01.2017 às 16h02

Na coluna "LÁ FORA", o Omelete lê e comenta todos os grandes lançamentos em quadrinhos nos Estados Unidos.

READING COMICS

Antes dos quadrinhos mesmo, deixe-me falar de um livro que não é em quadrinhos, mas que tem tudo a ver com eles: Reading Comics: How Graphic Novels Work and What They Mean ("Ler Gibi: Como As Graphic Novels Funcionam e O Que Elas Querem Dizer"), de Douglas Wolk.

Reading Comics

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Scott Pilgrim

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Umbrella Academy

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Wolk é o felizardo que se auto-intitulou "o melhor crítico de quadrinhos" perante o mundo lá fora - ou seja, para as pessoas que não lêem gibi. Escreveu um livro para essas pessoas normais, contando como é fazer parte deste mundinho nosso, de leitores, fanáticos e adoradores de histórias em quadradinhos. Um livro que chega na hora certa: quando graphic novels, tanto nos EUA quanto aqui, viram literatura popular e culta, ganham espaço nas livrarias e nas resenhas dos jornais - e começam a vender bem.

Reading Comics divide-se em duas partes. A primeira explica o que são os quadrinhos, dá uma rápida lição de história e desvenda mitos (não, quadrinhos de super-heróis não são só para crianças) e verdades (sim, existem leitores de gibi quarentões que ainda moram com a mãe). Para esclarecer aos não-iniciados que quadrinhos formam uma mídia, e não um gênero literário, Wolk faz uma distinção entre mainstream comics (Wolverine, Superman, Preacher) e art comics (Love & Rockets, Fun Home, Will Eisner) - distinção que pode causar brigas entre leitores, mas que funciona para explicar intenções diferentes em obras bem distintas.

A segunda parte é uma coletânea de resenhas de profundidade, onde o autor analisa o que considera as principais obras dos quadrinhos (norte-americanos). A maioria delas trata de material consagrado - ótimas apreciações das carreiras de Alan Moore e dos irmãos Hernandez, bem como de Eisner e Miller - ou art comics que estão na moda - Alison Bechdel, Chris Ware, Kevin Huizenga. Mas ele também dá espaço ao mainstream, analisando a Tomb of Dracula dos anos 70 (em seus melhores e piores momentos), o Warlock de Jim Starlin e um longo capítulo sobre a variedade da obra de Grant Morrison.

Para os já iniciados, o livro é uma experiência interessante pelas discussões que você pode levantar com o autor. Suas análises são tão minuciosas que ele consegue encontrar problemas até na intocável Watchmen (dos quais eu discordo, aliás). Assim, você consegue encontrar alguns bons pontos de controvérsia para criar debate no seu próximo encontro de fãs.

Não sei dizer se o livro realmente funciona para quem não lê gibi. Wolk é didático, e diz que sua intenção é abrir as portas dos quadrinhos para quem quer conhecê-los melhor. Mas vou esperar a resenha de um não-iniciado para saber se Wolk realmente entusiasma alguém a ler gibi. Espero que sim.

SCOTT PILGRIM GETS IT TOGETHER (VOL. 4)

É um mistério por que Scott Pilgrim, de Bryan Lee O’Malley, ainda não chegou ao Brasil. É quase um mangá, coisa que vende bem aqui. Tem personagens naquela fase entre a adolescência e a universidade, com namoros, bandas de rock e videogame, bem a vida do público-alvo dos gibis de livraria. Vai virar filme, com previsão de lançamento para o ano que vem. E é em preto-e-branco, do jeito que as editoras brasileiras preferem.

Sem falar que é GENIAL.

Scott Pilgrim é um canadense de 20 e poucos anos, baixista da banda Sex Bob-omb, cuja vida funciona - pelo menos na sua cabeça - como um videogame. Ele começou a namorar a adorável e enigmática Ramona Flowers, sem saber que isso atrairia a ira dos 7 ex-namorados dela. A missão de Scott, se quiser continuar com Ramona, é derrotar "Os Sete Ex-Namorados do Mal".

E é o que ele vem fazendo a cada volume (serão 7; sai um por ano nos EUA). Neste quarto, a novidade é que aparecem dois inimigos ao invés de um - e Scott não tem bem certeza se eles fazem parte dos Sete Exes.

Não dá pra contar muito sem entregar as melhores partes da história. Mas o mais divertido é quando O'Malley representa a vida de Scott como se fosse um videogame: no shopping, a gente vê que ele está morrendo de sede, mas sem grana, através de barrinhas de energia (tipo as de Street Fighter ou Super Mario) sobre sua cabeça. Em um volume anterior, após derrotar um dos Sete Exes, Scott vê uma figura da sua cabeça flutuando no ar - ele ganhou uma nova vida.

É uma metáfora para crescer e amadurecer, despretensiosa mas criativa. Scott Pilgrim é parte de uma onda de ótimos quadrinhos pop que estão saindo nos EUA. Ninguém vai se interessar?

THE UMBRELLA ACADEMY #5 (de 6)

Falando em quadrinhos pop: quem diria que um músico emo sabe escrever quadrinhos?

The Umbrella Academy é criação de Gerard Way, vocalista e líder da My Chemical Romance. Tudo que sei da banda é que eles tocam no Brasil este mês, que estou uns 15 anos distante da faixa etária obrigatória para gostar das músicas e que eles fazem sucesso. Esse sucesso foi o principal ponto do marketing do gibi, lançado pela Dark Horse.

São poucos os músicos que se aventuram a escrever sem rima - e, quando se aventuram, o resultado decepciona. Way contrariou as expectativas. Umbrella Academy é daqueles gibis cheios de imaginação, contados em uma narrativa perfeita.

A Academia Guarda-Chuva é uma equipe formada por seis crianças nascidas simultaneamente durante um evento misterioso, trinta anos atrás. Adotadas pelo milionário aventureiro Sir Reginald Hargreeves, elas foram criadas como super-heróis defendendo o planeta de grandes ameaças - como "O Dia Em Que A Torre Eiffel Enlouqueceu", história da primeira edição, onde o cartão postal de Paris começa a matar seus visitantes.

A primeira minissérie dos personagens, The Apocalypse Suite, se passa nos dias de hoje, com a morte de Sir Hargreeves e os heróis separados. Um deles morreu, outro foi morar no espaço, um virou agente secreto e outra, sempre considerada sem talentos especiais, acaba de ser convidada por um vilão para trazer o apocalipse à Terra. É o ponto de partida para a equipe voltar.

Para dar um tom ainda mais pop à HQ, o desenhista é o brasileiro Gabriel Bá (que vinha desenhando outro ótimo gibi de idéias malucas, Casanova). Bá faz desenhos mignolanamente simples para um universo de crianças, chimpanzés falantes, explosões e, nas últimas edições, mortes violentas.

Mesmo se você for um "anti-emita", Umbrella Academy vale a pena. Quem diria?

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