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Artigo

<i>Sandman: Noites sem fim</i>

<i>Sandman: Noites sem fim</i>

Érico Borgo
12.12.2003
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h15
Atualizada em 21.09.2014 às 13h15
Sandman: Noites sem fim - Neil Gaiman - Ed. Conrad - 160 pgs.
5 ovos!

Delirium, por Sienkiewicz

Desejo, de Manara

Morte, por Fabry

Sandman, de Prado

Em outubro, pela primeira vez na história, um gibi entrou na lista dos livros mais vendidos do New York Times, um dos mais importantes periódicos dos Estados Unidos. O feito coube a Sandman: noites sem fim, álbum gráfico que marca o retorno de Neil Gaiman ao universo que ele criou para a revista Sandman, da DC/Vertigo.

Com a publicação nas mãos é fácil entender o motivo de tamanho sucesso. Mas antes, vale a pena lembrar a importância do britânico para a arte seqüêncial.

No final dos anos 80 e durante a década posterior, Neil Gaiman consagrou-se com seu texto às vezes misterioso, às vezes aterrorizante, mas sempre sensível e instigante. A narrativa do escritor era tão poderosa que nem mesmo o entra e sai de desenhistas no título - alguns excelentes, outros pífios - conseguiu abalar a publicação. Sandman conseguiu o que pouquíssimos gibis já conseguiram na história... deixou a esfera dos quadrinhos e foi aclamado como literatura de qualidade.

Agora, sete anos depois do final da série, o autor volta ao reino do Mestre dos Sonhos e vem em excepcional companhia. Para cada uma das histórias de Sandman: noites sem fim, Gaiman convidou um artista diferente. São sete, um para cada Perpétuo (entidades acima dos Deuses que ele criou para o Universo de Sandman): P. Craig Russel (Morte), Milo Manara (Desejo), Miguelanxo Prado (Sonho), Barron Storey (Desespero), Bill Sienkiewicz (Delirium), Glenn Fabry (Destruição) e Frank Quitely (Destino). Completa o time o designer e artista plástico Dave McKean, o mais tradicional colaborador de Gaiman, que assina a programação visual da publicação e a capa.

Na primeira história, "Morte em veneza", Gaiman apresenta uma fábula na cidade italiana, protagonizada por um garoto que encontrou a Morte e volta para procurá-la anos mais tarde. A mais velha dos Perpétuos tem planos para o jovem, que precisa ajudá-la a superar um singelo obstáculo, que guarda um lugar literalmente esquecido pelo tempo. O traço de Russel está, como sempre, excepcional, repetindo a parceria que teve com Gaiman em "Ramadan", uma das mais belas histórias de Sandman.

O segundo conto é dedicado ao andrógino Desejo, irmão/irmã de Morpheus. Na história, uma bela jovem faz um pacto com Desejo para conseguir a afeição do sedutor filho do chefe da aldeia em que vive. O grande destaque aqui são as lindas pinturas de Milo Manara, quadrinhista italiano que tornou-se conhecido justamente por ilustrar lindas mulheres e colaborar em alguns projetos com o cineasta Federico Fellini.

"O coração de uma estrela" marca a primeira participação no livro do personagem principal da série, Morpheus, ou Sandman - o Mestre dos Sonhos. Passada centenas de milhares de ano no passado, a história traz um parlamento de Corpos Celestes, em que Morpheus vai acompanhado de Killalla, sua consorte. Entretanto, um encontro casual trará conseqüências drásticas para o Perpétuo, que ecoarão pelo futuro, causando seu desentendimento com um outrora querido membro da família. A arte de Miguelanxo Prado (Mundo cão, o desenho Homens de Preto) nunca esteve melhor.

A quarta parte do livro é "Quinze retratos de Desespero", quinze pequenos ensaios sobre a mais aflitiva das criações de Gaiman. Cada um é cuidadosamente elaborado por Barron Storey, artista plástico e professor da consagrada School of visual arts de Nova York, com a ajuda de Dave McKean, responsável pelo design.

Um dos momentos mais interessantes de Noites sem fim é "Adentrando", um suspense ilustrado por Bill Sienkiewicz em que um grupo de cinco deficientes mentais é escalado para uma difícil missão: resgatar a inocente Delirium de dentro da mente de uma garota.

O penúltimo capítulo, "Na península", é também o mais convencional. Mas não por isso menos interessante. Os traços de Glenn Fabry, o capista de Preacher, não trazem inovações gráficas, apesar de bastante competentes. Entretanto, a história é ótima: uma expedição científica parte para uma escavação num sítio arqueológico. Mas ao invés de encontrarem objetos antigos, encontram artefatos... do futuro!

A história que dá título ao livro fecha a edição. "Noites sem fim", protagonizada por Destino, é quase que uma recapitulação do Universo de Sandman, uma espécia de manual de instruções de como funciona a criação de Gaiman. Tudo ali já foi explorado ao longo dos 10 volumes encadernados da série, mas nunca de maneira tão sucinta. Os desenhos simples e claros de Frank Quitely, famoso pela série Novos X-Men, estão inspiradíssimos.

Enfim, a edição brasileira, publicada pela Conrad, nada deve nada à original. Capa dura, impressão esmerada, acabamento perfeito, preço justo. Vale destacar também a velocidade com que a editora conseguiu colocar o álbum nas lojas por aqui. A edição brasileira é simplesmente a segunda a ser publicada no mundo todo, fato que mereceu comentários elogiosos do próprio autor em seu site oficial.

Sem dúvida, o melhor lançamento em quadrinhos do ano. Chamá-lo de "imperdível" é quase uma ofensa pela obviedade.