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Artigo

<i>Concreto: Uma rocha entre rochas</i>

<i>Concreto: Uma rocha entre rochas</i>

Gabriel Menotti
02.12.2004
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h17
Atualizada em 21.09.2014 às 13h17
Concreto - Paul Chadwick

Existe uma vantagem estratégica na feiúra e no transbordamento muscular, nas exibições incontinenti de poder, que teria servido tanto a Gandhi como ao Monstro de Frankenstein. Pense em super-heróis: enquanto o samaritano voador distribui raios de calor pelos olhos, derretendo o asfalto e queimando a fachada dos prédios, o grandão feioso intimida o inimigo à distância, evitando o combate e as casualidades civis.

A partir de uma certa centimetragem, os bíceps argumentam diretamente com o bom senso. Todo mundo sabe que o grandão é encrenca, que transforma esportivas brigas de bar em massacres sangrentos por puro efeito colateral. E, quando tudo mais dá errado, ele ainda pode ficar na frente das balas e rasgar portas de aço como se fossem de papel, subjugar o mundo inanimado, pôr as coisas aos seus pés.

Se o estereótipo tem raízes mitológicas, vamos encontrá-las em Hefesto, ferreiro dos deuses. Hefesto nasceu tão feio, vesgo e manco que nem a própria mãe agüentou, e atirou-o Olimpo abaixo em direção ao reprobatório social. Como para vingar sua condição de aborto tardio, Hefesto tornou-se artesão e, embora nunca tenha deixado de ser um Gorbachev da repugnância, forjou o que havia de mais mágico e belo na Grécia olímpica: os raios de Zeus, as flechas de Eros, etc etc.

Naqueles tempos, o grandão feioso já era associado a impulsos primitivos e ao proletariado bolchevique, como se não passasse de potência sem personalidade, como se a mínima fagulha pudesse fazê-lo explodir em saques de comida e eletrodomésticos. Não é verdade. Por baixo da cútis escabrosa, o Hulk ainda é um cientista nuclear, e o Coisa possui o refinamento sarcástico de poucos comediantes de palco.

Assim por diante, os quadrinhos possuem um vasto elenco de monstros sensíveis. Dentre eles, talvez um dos mais bem-resolvidos seja Concreto, personagem da série homônima de Paul Chadwick. A revista, publicada pela editora Dark Horse, estava parada desde 1998, mas será retomada agora em dezembro com o lançamento da seqüência The human dilema.

Apropriadamente, a personagem chega ao Brasil este mês, em uma coletânea da Devir que reúne suas quatros primeiras aventuras. Nelas, descobrimos a inusitada identidade por trás da pele de pedra: um redator de discursos que, abduzido, teve o cérebro transplantado para dentro do robusto corpo alienígena. O corpo lhe deu força e resistência descomunais, mas acabou com seu tato e as raras possibilidade de encontros românticos.

O governo, interessado nesses poderes e preocupado em abafar a existência de vida extraterrena, decide divulgar Concreto como o primeiro cyborg de um certo projeto secreto, esperando que essa lorota esgote o interesse público por ele rapidamente. Daí vem seu nome e sua sina: o isolamento.

Concreto vive plenamente o grande drama do troglodita: quanto mais inteligente, coitado, mais se presta ao clichê da incomunicabilidade humana. Ele próprio não serve para conversa como para briga, ou qualquer outra dialética - quando fala, ainda é pela boca do senador Douglas, para quem escreve discursos. Sua solidão involuntária está espalhada em vários cantos da história, seja na timidez com a cientista Maureen Vonnegut ou na alienação que o status de celebridade lhe impõe.

Nesse ponto, a intelecção reprimida volta-se para o mundo inanimado, preenchendo-o de sentido e fantasia. Como o troll vira pedra ao amanhecer, o monstro encontra solidariedade entre objetos; e santifica o basalto e a pirita, feito o São Francisco do reino mineral. A simples rejeição, porém, não redime sua existência, ou o faz bem-aventurado. Simplesmente descamba no paradoxal narcisismo das coisas feias, que não agem por receio ou prepotência.

Concreto, entretanto, consegue sublimar o isolamento ao aceitá-lo de peito aberto. Em vez de choramingar a humanidade perdida, usa toda potência do corpo grotesco para reencontrar seus anseios de juventude, refazer os passos de grandes aventureiros, escalar montanhas, atravessar oceanos a nado. As restrições emocionais do estado de monstro - que o narrador insiste em lembrar a cada momento - lhe enchem de possibilidades românticas.

Audaciosamente indo aonde nenhum homem jamais poderia estar, Concreto refaz o caminho de volta ao estado das coisas. De ghost writer de político, torna-se escritor best-seller, uma espécie de Amyr Klink blindado, com seu próprio redator. É a esse sofisticado instrumento de escrita, chamado Larry Munro, que ele, impossibilitado de usar uma caneta, confessa sua história e seus amores. Prova que, mesmo para os maiores trogloditas, a receita de vida saudável não deixa de ser terapia e um pouco de exercício físico.