HQ/Livros

Artigo

HQ: <i>Zap Comix</i>

HQ: <i>Zap Comix</i>

Roberto Elísio dos Santos
18.11.2003
01h00
Atualizada em
18.11.2016
14h01
Atualizada em 18.11.2016 às 14h01
Zap Comix

Por causa do psiquiatra Fredric Wertham e da vigência do Comics Code Authority, os quadrinhos norte-americanos da década de 1950 tornaram-se muito caretas, como um retrato da sociedade em que eram publicados. Exceto pela humorística e corrosiva revista MAD, criada em 1952 por Harvey Kurtzman, as histórias em quadrinhos do período eram ingênuas e bem comportadas, como as que mostram Batman e Superman como amigos, que combatem seus inimigos com sorrisos nos rostos.

No entanto, a partir da metade da década de 1960, a situação mudou radicalmente. E este é o termo correto. O período caracterizou-se por atitudes extremadas tomadas pela geração que nasceu no pós-guerra e na competitiva e consumista sociedade norte-americana. Na pauta das contestações encontravam-se a revolta contra a guerra do Vietnã, a recusa ao American way of life, a luta contra a discriminação racial e a rejeição das normas morais estabelecidas.

No âmbito cultural, a Contracultura caminhava na contra-mão da Indústria Cultural, dos produtos culturais fúteis, acríticos e produzidos em série apenas para auferir lucro às empresas da área editorial, fonográfica, cinematográfica, entre outras. O movimento precursor dessa Contracultura ocorreu no final da década de 1950, com a literatura beatnik, prosa e verso que narravam o desconforto com a sociedade, as experiências com álcool e alucinógenos e a atitude de cair na estrada sem destino. Depois, o rock foi o arauto das revoltas. E, finalmente, na metade dos anos 1960, foi a vez dos gibis alternativos abrirem suas páginas à contestação, à rebeldia, ao sarcasmo, ao sexo, às drogas e à experimentação gráfica.

A revista Zap Comix não foi a primeira publicação alternativa de quadrinhos, mas seu sucesso fez eclodir o movimento que consolidou o Comix Underground (o quadrinho alternativo norte-americano: comix diferencia-se dos comics comerciais) e seu criador, o abilolado Robert Crumb, é considerado o influenciador dos artistas que se preocupam em fazer quadrinhos fora das convenções do mainstream.

Depois de largar o emprego em uma editora que produzia cartões (de aniversário, casamento, etc.), Crumb colocou o pé na estrada e dirigiu-se a São Francisco, cidade onde os hippies estavam estabelecendo suas comunidades. Sozinho, escreveu, desenhou e editou os primeiros números de um gibi alternativo chamado Zap Comix, vendido nas ruas e também em algumas head shops (lojas que abasteciam os hippies com pôsteres, roupas, discos etc.) pelo próprio Crumb e sua primeira mulher.

A partir do número 2 (a edição número zero saiu depois, porque o primeiro editor sumiu e os originais se perderam...), outros artistas passaram a dividir as páginas de Zap Comix com Crumb: S. Clay Wilson, Rick Griffin, Robert Williams, Manuel Spain Rodriguez, Victor Moscoso e Gilbert Shelton (criador das histórias protagonizadas pelos Freak Brothers, outro ícone dos comix underground).

No final de 2002, a editora Conrad publicou o álbum Fritz the Cat, de Robert Crumb. Agora, a mesma editora disponibiliza para o leitor brasileiro uma compilação de vários trabalhos publicados na revista Zap Comix, realizados por artistas que, impulsionados por LSD ou por convicções ideológicas e estéticas, renovaram os quadrinhos em seu tempo.

Crumb é, sem dúvida, o destaque deste álbum, com seu Mr. Natural e outras bizarrices. Mas há, também, o Wonder Wart-Hog de Shelton (sátira aos super-heróis reacionários), as histórias psicodélicas realizadas por Griffin e Moscoso (Tipo krazy, bicho presta homenagem a George Herriman, e Loop de Loop tem um desenvolvimento complexo, que faz referência a diversos quadrinhos e desenhos animados do início do século XX, como Mickey Mouse e Little Nemo) e os Piratas pervertidos de S. Clay Wilson, entre outras experiências narrativas e visuais ousadas, cujo conteúdo reflete o clima subversivo dos anos 1960 e 1970. São todas histórias em quadrinhos que contribuem para o engrandecimento artístico desta forma de expressão.

O álbum conta com uma introdução escrita por Rogério de Campos, que contextualiza o comix underground e seus principais expoentes.

Zap Comix tem 187 páginas, com miolo em preto e branco, e custa R$ 39,00.

Roberto Elísio dos Santos é Pesquisador Sênior do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da ECA-USP, jornalista, doutor em Comunicação pela ECA-USP, professor do Centro Universitário de São Caetano e autor do livro Para reler os quadrinhos Disney (Editora Paulinas)