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Artigo

HQ: <i>Estigmas</i>

HQ: <i>Estigmas</i>

Maria Alice Romano Caputo
13.10.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h15
Atualizada em 21.09.2014 às 13h15
Estigmas - Lorenzo Mattotti e Cláudio Piersanti

Conrad Editora - 190 pg

Um drama em três atos. Assim se apresenta uma das obras-primas do quadrinho contemporâneo europeu. O primeiro ato configura-se com a lembrança de um sonho pelo protagonista da história, um sonho premonitório, com a imagem de uma criança falando de dores e esperanças; o segundo é o drama da convivência com os estigmas que levam essa personagem à exclusão social e o último ato ocorre com a vinda da morte simbólica e, a partir dela, a ressurreição da esperança para o homem marcado pelos estigmas.

Recém-lançado no Brasil, Estigmas traz desenhos de Lorenzo Mattotti e roteiro de Cláudio Piersanti. Os dois contam a história de um homem sem nome, um andarilho, um mendigo que vaga pelo mundo sem expectativas. Publicado na Itália em 1999, este álbum em quadrinhos aparece no Brasil pela Conrad Editora, tendo sido lançado durante o Festival Internacional de Quadrinhos, em Belo Horizonte, com presença, exposição e palestra do ilustrador italiano.

A técnica em preto e branco usada no álbum remete a um tom agressivo e, ao mesmo tempo, suave. Essa contradição ilustra uma poética do caos em si mesmo. Desenho e texto casam-se perfeitamente ao longo da história, que vai levando o leitor ao subterrâneo de uma alma atormentada. O homem sem nome tem algo a mais, que o diferencia no mundo: tem as chagas de Cristo nas mãos, que sangram independente de ele ser apenas mais um no mundo. Mais um beberrão. Mais um homem perdido.

Aos olhos dos outros, o homem sem nome é um santo que pode curar e fazer milagres. No entanto, ele resiste. Mantém-se distante dos credos, chega a zombar das velas e preces; mas, no fundo, carrega um espírito doce e, vez ou outra, mostra a ternura que ainda existe num ser embrutecido e marcado por um sonho.

O homem sem nome recebeu um fardo que carregará pelo resto da vida: duas feridas sangrando, uma em cada mão. O simbolismo nos remete às chagas feitas nas mãos de Cristo, quando foi pregado à cruz pelos soldados romanos. No homem sem nome, as feridas nunca cicatrizam e levam-no para um mundo de dor, sofrimento e usurpação do dom que recebeu. Só depois de enfrentar o próprio calvário, quando perde Lorena, a mulher que ama e a quem se dedica de corpo e alma, é que o protagonista viverá um tempo como um morto-vivo e, na morte, ele encontrará a ressurreição e, novamente, a vida.

Neste trabalho de Mattotti, conhecido como um grande artista multimídia e especialmente reconhecido pelos trabalhos com o uso da cor pastel, as imagens sugerem um constante movimento, apesar de nos quadrinhos elas serem estáticas. A própria capa do álbum já constitui uma bela apresentação, cartonada, com um desenho da personagem sem nome em preto e branco e os estigmas pintados em vermelho, sugerindo o tom dramático.

Estigmas tem 190 páginas em preto e branco e custa R$ 36,00.
Confira o p
review: Páginas 1 l 2 l 3 l 4 l 5

Maria Alice Romano Caputo é pesquisadora do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos da Escola de Comunicações e Artes da USP. É mestre em Ciências da Comunicação pela ECA.