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Gibiteca, a maioridade dos quadrinhos

Gibiteca, a maioridade dos quadrinhos

José Aguiar
16.08.2000
00h00
Atualizada em
16.12.2016
13h01
Atualizada em 16.12.2016 às 13h01

Que a maioria das pessoas não leva quadrinhos a sério, isso é fato. Eles são tratados como quinquilharias supérfluas, superficiais e sem conteúdo. Enfim, coisa de crianças. Para essas pessoas, quadrinhos são como um brinquedo velho que se joga fora depois que se cresce. Coitado, então, de quem não larga deles depois de adulto. É tachado de eterno imaturo. Um crianção.

Ledo engano. Longe de ser leitura para preguiçosos, as Histórias em Quadrinhos, há mais de um século, desenvolveram uma linguagem, um vocabulário e estilos próprios que conquistaram o mundo. Viveram altos e baixos, tanto de venda como de criatividade. Bem como acrescentaram mitos e ícones e retrataram (como nenhuma outra arte) o ser humano em seus sonhos, pesadelos, delírios e defeitos. Mesmo assim, ainda há quem não lhes dê a mínima.

Dizem que o público está encolhendo, perdendo espaço para a TV à cabo, os videogames e a internet. Mas há aqueles que não querem que isso aconteça. Que desejam a todo custo preservar a memória dos artistas e suas obras, que ousaram se dedicar a uma arte tão desprestigiosa. Muitos acumulam centenas, às vezes milhares de revistas em suas casa, numa tentativa solitária (e ás vezes egoísta) de manter os quadrinhos longe do esquecimento. Mas de que adianta um acervo maravilhoso se não pode ser partilhado&qt;& Quadrinhos são feitos para serem lidos. Não só por poucos, mas por todos que a ele chegarem. Pois, se não chegam a seu público, como podem querer competir com as novas mídias de entretenimento&qt;&

Foi pensando assim, bem antes do surgimento dessas "concorrentes" modernas, que surgiu a idéia de criar uma Gibiteca. No agora distante ano de 1976, surgiu o Gibitiba, informativo que catalogava e documentava tudo sobre os quadrinhistas e cartunistas locais, editado com o apoio da Casa Romário Martins. Três anos depois, o então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, atendendo ao pedido de um grupo de adolescentes, deu o empurrão inicial que originou a Gibiteca de Curitiba. Os arquitetos Key Imaguire Jr e Domingos Bongestabs elaboraram um ousado projeto para a sede que, por motivos orçamentários não vingou.

Mesmo assim, em junho de 1982, nasceu a primeira Gibiteca do mundo.

Instalada na Galeria Schaffer, no centro de Curitiba, ela começou a operar com uma generosa doação da editora EBAL. O espaço ainda não era o ideal para as pretensões da Gibiteca, que acima de tudo queria ser um centro cultural. Em 1989, por ocasião do I Festival do Gibi de Curitiba, ela ganhou instalações mais adequadas e amplas. Agora contava também com salas de exposições e outras onde eram ministrados cursos e oficinas com artistas não só locais, mas de todo o país.

A Gibiteca entrou os anos 90 com todo o gás, sediando A I Bienal de Quadrinhos, eventos de RPG (quando quase ninguém sabia o que eram) e com exposições mensais, além dos tradicionais cursos e oficinas. Serviu também como espaço de debates, reuniões de artistas plásticos e quadrinhistas e até mesmo de exibição de filmes e desenhos animados de HQs. Enfim, era um espaço dedicado não só aos quadrinhos, mas a todas as manifestações culturais afins. Pena que, hoje, isso tudo quase acabou.

Com a reforma do Solar do Barão (a atual sede), a Gibiteca operou durante alguns meses sem espaço físico. Acabada a reformulação do espaço, veio uma nova realidade. Se antes ela possuía todo um andar com uma série de salas a sua disposição, agora teve que se contentar com a garagem do mesmo solar. Seu acervo hoje está amontoado e dividindo parede com um banheiro, apodrecendo a passos largos graças à umidade. A sala de aula divide o espaço com as prateleiras e exposições e oficinas com convidados de fora nem pensar. Não há mais salas para isso. Novas exposições só se marcadas com um ano de antecedência ou para tapar o buraco de outra que vagou em outro espaço. Em 15 anos de Gibiteca, sua diretora, Márcia Squiba, nunca enfrentou tanto descaso como agora.

A situação está bem longe dos bons tempos, mas nem por isso a Gibiteca parou de divulgar os quadrinhos. Ela ainda mantém seus cursos e, na medida do possível eventos e exposições. Ainda é um polo onde se encontram os quadrinhistas locais. Na verdade, ajudou até mesmo a formar muitos deles. Pois, acima de tudo, é um incentivo ao surgimento de novos talentos, que tem acesso não só aos quadrinhos de antigamente, mas também a outras pessoas que compartilham a mesma paixão pelos quadrinhos.

Talvez o saldo mais animador da trajetória da Gibiteca de Curitiba, seja que ela não foi apenas um catalisador local. A sua idéia e conceitos se espalharam por todo o país. Silenciosamente, outras foram surgindo. Agora, até mesmo algumas escolas e bibliotecas públicas possuem a sua gibiteca, todas com problemas semelhantes aos da original, mas ainda assim preservando os quadrinhos com unhas e dentes.

Parabéns à maioridade da Gibiteca de Curitiba , que acaba de completar 18 anos. E que essa turbulenta adolescência por que vem passando fique logo para trás, dando lugar à uma próspera maioridade aos quadrinhos nacionais. Onde graças essas iniciativas as pessoas passem a acreditar que os quadrinhos não são somente coisa de criança.