HQ/Livros

Artigo

Gibicon já é uma das maiores convenções de quadrinhos do Brasil

Evento será bienal e deve continuar no mesmo molde da edição 2012

Érico Assis
29.10.2012
16h22
Atualizada em
09.11.2016
11h04
Atualizada em 09.11.2016 às 11h04

A Gibicon que aconteceu em Curitiba nos últimos dias, da quinta dia 25 ao domingo dia 28, foi a Gibicon n. 1. Em 2011 houve uma Gibicon, que levou o n. 0 para funcionar como teste - embora não tivesse cara de teste, e sim de evento pra valer. Se conseguir manter o mesmo molde da 0 e da 1 para a próxima edição, a Gibicon será o maior evento recorrente de quadrinhos do sul do Brasil.

Ranxerox

None
Ranxerox

Gibicon

None

Fêmeas Grafipar

None
Revista Fêmeas, da Grafipar

Astronauta: Magnetar

None
Astronauta: Magnetar

Na sexta-feira, uma reunião do fórum dos eventos de quadrinhos anunciou que a próxima Gibicon acontece em 2014. A ideia é intercalar o evento de Curitiba com o FIQ, o Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte, maior do país (em visitantes, em estrutura e em número de convidados) e marcado para os anos ímpares. A estratégia é interessante, pois não só os dois eventos costumam acontecer no segundo semestre, mas também porque estão conseguindo provocar uma movimentação muito parecida.

Por movimentação, entenda-se que FIQ e Gibicon são igualmente grandes pontos de encontro de quem produz quadrinho independente no Brasil. Quadrinistas de São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Florianópolis, Rio de Janeiro e, obviamente, Curitiba saem da prancheta para passar um tempo juntos em mesas de autógrafo, debates e, acima de tudo, mesas de bar. Como não são estrelinhas de cinema nem da música, dividem essas mesas com os leitores tanto para a dedicatória elaborada quanto para bater papo.

Não só os brasileiros. Tanino Liberatore, o italiano criador de Ranxerox, passeava e conversava pelos locais do evento sem nem aparentar a sumidade que é (e bebia Brahma). Mawil, alemão que veio lançar Mas podemos continuar amigos, deu sequência à sua residência artística no Brasil com o objetivo único de enturmar-se com a ginga brasileira.

Fora os comentários atônitos de quem havia apertado a mão ou, ainda melhor, ganhado autógrafo de Liberatore, dois assuntos eram os mais falados na convenção. O primeiro era o lançamento de Astronauta: Magnetar, primeira das Graphic MSP - projeto que bota quadrinistas brasileiros a escrever e desenhar, a seu estilo, os personagens de Maurício de Sousa. Astronauta ficou a cargo de Danilo Beyruth (com cores de Cris Peter).

Beyruth, presente para autógrafos, debates e a oficina mais comentada do evento, ainda estava acostumando-se a passar de Necronauta e Bando de Dois, trabalhos que tiveram ótima repercussão, à tiragem de Astronauta, pelo menos dez vezes maior que de suas publicações anteriores (a tiragem oficial não foi divulgada), e que terá visibilidade ampliada em bancas e livrarias pela relação com Maurício de Sousa. Da próxima Graphic MSP, que sai em março e que estrelará a própria Turma da Mônica, os irmãos Vitor e Lu Cafaggi disseram que tentam se concentrar na produção e não pensar no pulo do independente para os números e projeção que há em fazer, enfim, uma HQ especial e com ampla divulgação da Mônica. E ainda guardam a surpresa do redesign dos personagens.

O segundo grande assunto da convenção foi a Grafipar, editora dos anos 70 e 80 muito conhecida pelos quadrinhos de terror e de sexo, e que funcionava em Curitiba com artistas que na imensa maioria moravam na cidade. O jornalista Gian Danton lançou Grafipar: a editora que saiu do eixo (editora Kalaco) após uma pesquisa de mais de dez anos (que incluiu até um artigo no Omelete de mesmo nome), o quadrinista José Aguiar organizou a exposição Tesouros da Grafipar e, num momento histórico, todos os artistas remanescentes da editora reencontraram-se após 30 anos para a abertura da exposição. A lembrança da Grafipar ajudou a marcar a base histórica que existe para um evento como a Gibicon em Curitiba.

Havia muito mais no evento. Exposições de quadrinhos russos, de alemães, de curitibanos, de latino-americanos que publicam nos EUA. Um evento paralelo sobre Jornalismo em Quadrinhos que teve discussões de nível científico não apenas sobre Joe Sacco, mas sobre o movimento maior (e até mais antigo que Sacco) de fazer reportagem em HQ. Todo tema possível relacionado a quadrinhos - roteiro, desenho, cor, edição, infantis, adultos, adaptações literárias, tradução, mercado europeu, independentes - estava em oficinas, palestras e mesas de debate.

Correram algumas reclamações justamente sobre este excesso: nos primeiros dias, havia três, quatro, até cinco eventos que começavam no mesmo horário. Era difícil escolher uma programação. Eventos como o FiQ ou a Rio Comicon optam por menos coincidência de horários e, com isso, menos debates. Encontrar um equilíbrio entre atender a todos os gostos e facilitar a escolha dos visitantes é sempre um desafio, que falta ser resolvido.

Faltou também buscar públicos diversificados. Por mais que a produção brasileira e europeia estivesse bem representada nos convidados, é sempre atraente trazer norte-americanos da faixa Marvel/DC (os brasileiros Renato Guedes, Joe Bennett e Rod Reis, entre alguns outros, fizeram as vezes deste pessoal) e asiáticos para atrair o público otaku. É o que deixaria o Gibicon no nível dos outros grandes eventos que acontecem no país.

Diferente das grandes convenções norte-americanas sobre as quais você lê aqui no Omelete, as brasileiras não ostentam números gigantescos porque o fim é mais cultural - estimular a leitura de quadrinhos - do que comercial. Nesse mesmo sentido, costumam ter verba pública e não cobram ingresso (caso da Gibicon e do FIQ). Por isso, dependem da boa vontade da administração municipal ou de patrocinadores. O resultado é este: muitas conversas, recuperação da história das HQs, novos leitores e, muitas vezes, novos e ótimos quadrinistas estimulados pelo que veem. Torça para que a boa vontade continue.

Veja também entrevistas com os quadrinistas: