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Emília e a Turma do Sítio no Fome Zero

Emília e a Turma do Sítio no Fome Zero

Waldomiro Vergueiro
08.09.2003
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h14
Atualizada em 21.09.2014 às 13h14

Muitas vezes se comenta a falta de personagens genuinamente brasileiras nas revistas de histórias em quadrinhos disponíveis em nossas bancas de jornal. Costuma-se, inclusive, culpar a invasão de super-heróis norte-americanos como a grande culpada pela ausência de temáticas nacionais nos gibis aqui consumidos. E ainda que os motivos verdadeiros desse hiato mereçam eventualmente ser melhor equacionados, é certo que a realidade mostra poucas publicações nacionais disponíveis aos atuais apreciadores do meio. Os títulos produzidos pelos estúdios de Maurício de Sousa, trazendo suas populares personagens infantis, além de um ou outro esporádico ainda recente - como As Aventuras do Didizinho, pela Editora Escala, e Combo Rangers, pela Panini Comics -, parecem mesmo ser exceções num mercado editorial onde proliferam personagens encapuzados ou guerreiros mutantes e onde as cores da bandeira norte-americana - quando não a própria -, transmutam-se, com gosto duvidoso, nas roupas espalhafatosas utilizadas pelos heróis.

Difícil convencer alguém de que a pouca presença de revistas enfocando a realidade brasileira se deva à pobreza de nosso ambiente sócio-cultural. Pelo contrário, um simples passar de olhos pelos jornais brasileiros - repletos de notícias sobre rebeliões de presos, ataques a delegacias de polícia, guerras de gangues, seqüestros, assaltos e assassinatos, para não falar de outras mazelas sociais -, uma análise de nosso desenvolvimento histórico e uma familiaridade maior com nossas lendas, personagens e contos populares possibilitariam inspiração para uma enorme variedade de narrativas quadrinhísticas que certamente pouco ficariam a dever à inventividade dos heróis estrangeiros e suas façanhas nem sempre muito críveis. Teoricamente, ao menos, bastaria apenas que a esses elementos de inspiração fosse aplicado um trabalho sério de criação, burilamento e edição do produto final, para se ter mais Brasil nas nossas revistas de histórias em quadrinhos.

Tudo isso é muito fácil de falar, é claro, mas sua realização não ocorre assim com tanta facilidade como o discurso otimista acima parece subentender. E essa constatação é infelizmente demonstrada na mais recente iniciativa editorial na área de quadrinhos que tem a preocupação acima mencionada como seu elemento motivador, o gibi Emília e a Turma do Sítio no Fome Zero.

O que é uma pena, pois a idéia tinha tudo para dar certo.

As personagens de Monteiro Lobato já fazem parte do imaginário coletivo nacional: tanto elas como seu autor estão representados em centenas de obras públicas e da iniciativa privada, que vão desde escolas infantis a bibliotecas e logradouros públicos. Além disso, ninguém mais nacionalista provavelmente existiu neste país do que Monteiro Lobato, como bem demonstram sua luta pelo petróleo é nosso, pela modernização de nossa indústria e pelo incremento na publicação de livros. Um baluarte da cultura nacional, sem dúvida, cuja obra infantil esta sendo novamente revisitada pela TV brasileira, em primorosa produção da Rede Globo de Televisão, o que certamente abre caminho para sua transposição a novas mídias, inclusive os quadrinhos (alias, causa admiração, nesse sentido, que isso não tenha ocorrido antes, pois em vezes anteriores, com produtos televisivos de muito menor importância, a versão em quadrinhos surgiu em espaço de tempo mais curto...).

À popularidade da obra de Lobato, soma-se, por sua vez, o Programa Fome Zero, bandeira desfraldada com intensa e positiva repercussão popular pelo Presidente Lula durante os primeiros dias de seu mandato, representando uma fonte de esperança e mesmo uma injeção de otimismo em nossa capacidade coletiva para enfrentar e vencer um problema que acompanha o pais desde seu descobrimento. Enfocá-lo em uma revista de histórias em quadrinhos significa valorizar um esforço governamental que recebeu apoio praticamente unânime do povo brasileiro. E é importante que os quadrinhos, assim como os artistas, estejam onde o povo está.

O resultado de tão oportuna ligação, no entanto, ficou aquém do ideal.

De uma certa forma, a publicação parece representar muito mais um esforço bem intencionado de colaborar com o Programa Fome Zero do que, propriamente, uma proposta objetiva para produção de quadrinhos em torno desse tema. Apesar do título trazer na capa a indicação de número 1, é inevitável questionar a viabilidade de sua continuação como periódico, pois seu leit motiv parece ter sido esgotado neste primeiro número. Do ponto de vista temático, a trama, utilizando as personagens do universo de Lobato, envereda por mensagens de apoio ao programa contra a fome que pretendem se justificar por si mesmas, com escassa solidez em termos de roteiro. A parte artística, por seu lado, elaborada pelo veterano desenhista Roberto Fukue, segue o padrão das revistas infantis brasileiras, nada trazendo de novidade sob esse aspecto e ficando muito longe, em termos gráficos, daquelas histórias desenhadas por Gustavo Machado, Fernando Bonini e outros no final da década de 70, no gibi Sítio do Picapau Amarelo, publicado pela Rio Gráfica Editora (depois, Editora Globo). Assim, tudo parece indicar que esta nova investida ao universo de Lobato representa um produto feito às pressas, com economia de planejamento. Ao final, tem-se o primeiro número apresentando apenas dois episódios que deixam a desejar em termos de roteiro, embora cumpram razoavelmente seu papel de fazer propaganda do esforço governamental contra o flagelo da fome e passar lições de moral no estilo da saudosa O Tico-Tico (as histórias são complementadas por várias páginas de passatempos, que seguem na mesma linha. Nossas bisavós provavelmente aprovariam...).

Assim, talvez a única conclusão possível seja penosamente reconhecer que, apesar de juntar personagens características da literatura infanto-juvenil brasileira com o programa governamental de combate à fome, incorporando em um mesmo produto elementos ficcionais familiares a diversas gerações de leitores e um assunto de extrema atualidade no país, a Enília e a Turma do Sítio no Fome Zero tropeça enquanto construção quadrinhística e deixa um sabor de insuficiência na boca de qualquer leitor medianamente exigente. Ainda que o ato da compra deva ser incentivado - pois, segundo uma matemática meio estranha, a cada exemplar comprado, três (de acordo com informação da primeira página) ou seis cartilhas (como informa a terceira contracapa) serão entregues pela Editora Globo para o Programa Fome Zero - não é possível ignorar o fato de que os quadrinhos brasileiros mereciam alguma coisa a mais do que as louváveis intenções que motivaram a revista.

Pode-se até acreditar que ela colabora para combater a fome em nosso país; à causa dos quadrinhos brasileiros, no entanto, ela pouco ou nada acrescenta. O que é uma pena.

Emília e a Turma do Sítio no Fome Zero
Editora Globo - Preço: R$ 1,00