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Artigo

Crack Bang Boom: O Omelete na convenção de quadrinhos argentina

Saiba tudo o que rolou em Rosário

Érico Assis
26.10.2010
15h53
Atualizada em
05.11.2016
11h07
Atualizada em 05.11.2016 às 11h07

A Crack Bang Boom - o evento apelidado de “Comicon Argentina” - aconteceu em Rosario, terceira maior cidade do país de 21 a 24 de outubro. Os principais pavilhões por onde circularam artistas convidados, cosplayers e público ficavam à beira do rio Paraná: o Centro de Expresiones Contemporáneas (CEC) e o Centro Cultural Parque de España (CCPE), a uma distância de dez minutos de caminhada um do outro.

Nesse trajeto há um parque com um grande gramado onde as pessoas tomam banho de sol, uma plataforma de concreto para quem anda de skate e roller, e pescadores. O contraste dessas pessoas com a horda de barrigas, barbas e roupas pretas - visual padrão dos fãs de quadrinhos - era gritante.

Albuquerque, Moon e Bá

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Albuquerque, Moon e Bá

CBB

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Brian Azzarello

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Brian Azzarello

Centro de Convenções

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Centro de Convenções

Eduardo Risso

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Eduardo Risso

Exposições

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Exposições

Jim Lee

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Jim Lee

Palestra

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Palestra

O MERCADO ARGENTINO

A Argentina tem uma indústria de quadrinhos de respeito em termos artísticos, seja nas tiras (Mafalda e outras obras de Quino, os vários trabalhos de Maitena, Liniers), nos álbuns (O Eternauta, os trabalhos do idolatrado Alberto Breccia, Carlos Trillo) ou nas revistas (a Fierro, espécie de Heavy Metal argentina, que revela os novos nomes do país mensalmente). A forma de produção do mercado argentino e os temas das HQs lembram mais a Europa do que os EUA. Muitos dos artistas de lá publicam na Europa, aliás.

Por outro lado, a Argentina lembra o Brasil nas crises econômicas e na moeda desvalorizada, o que leva muitos de seus artistas a buscarem trabalho nos EUA. Eduardo Risso (100 Balas), Marcelo Frusin (Hellblazer, Loveless), Ariel Olivetti (Justiceiro, Namor), Leo Fernandez (Northlanders) são os melhores exemplos. E estavam todos lá, acompanhados dos convidados internacionais do evento: o artista e agora publisher da DC Comics Jim Lee, o escritor Brian Azzarello (100 Balas) e o editor Will Dennis (100 Balas, DMZ, Escalpo). Aliás, entrevistamos os três, e você vai conferir os bate-papos ao longo das próximas semanas aqui no Omelete.

(Humberto Ramos, o mexicano que atualmente desenha o Homem-Aranha, teve um contratempo de última hora e não compareceu.)

O evento tentou equilibrar estas duas facetas: o apelo dos comics norte-americanos e os expoentes do quadrinho argentino. É óbvio que os convidados estrangeiros tinham mais apelo; estavam sempre cercados de entourages da produção ou de fãs querendo o pacote "foto + autógrafo". Já os quadrinistas argentinos, nem um pouco estrelas, estavam sempre disponíveis para conversar, comentar portfólios, tomar um café com um leitor etc.

AS ATRAÇÕES

Jim Lee

A estatura do diminuto Jim Lee é inversamente proporcional à sua simpatia. Chegavam fãs com coleções de pôsters do início de sua carreira (com Justiceiro e Wolverine), e ele autografava todos, comentando como desenhava na época. Na sua palestra com auditório lotado (a única lotada, aliás), Lee divertiu os fãs contando desde como era trabalhar com Chris Claremont nos X-Men e como foi a época de ouro da Image, quando o estúdio Wildstorm era um bando de caras de 20 e poucos anos que passavam as madrugadas desenhando, comendo porcaria, gastando royalties de 50 mil dólares em carros esporte e só fazendo pausas para realizar reuniões com Steven Spielberg, Demi Moore e outros tipos do showbiz. Ele também falou um pouco sobre o trabalho atual na DC, embora os fãs quisessem saber mais do passado.

No sábado, Lee fez uma sessão de autógrafos não-planejada que levou mais de duas horas. E mantinha o sorriso-Jim-Lee que você conhece de todas as fotos, mesmo que com a expressão um pouco cansada. Na nossa entrevista, pedimos se ele podia fazer um rosto angry-Jim-Lee, mas ele não topou.

Brian Azzarello

Brian Azzarello parecia meio incomodado para falar de quadrinhos. O roteirista foi lacônico e bufou algumas vezes com as perguntas dos fãs na palestra (ou com as perguntas da entrevista do Omelete). Mas durante o papo descobrimos um assunto que não lhe faz bufar: futebol. Não o futebol americano, mas nosso “soccer” mesmo. Azzarello é torcedor do Valencia na Espanha, do Manchester United na Inglaterra (o editor da Panini Fabiano Denardin o convenceu de que também é torcedor do Internacional no Brasil) e assistiu a todos os jogos da Copa do Mundo. Achou Brasil x Holanda muito bom, e estava na Espanha no dia da final.

Mas o que a gente queria saber mesmo era sobre HQs, claro. Na palestra, fãs debateram Batman: Cidade Castigada e sua passagem por Hellblazer e Dr. Thirteen, mais do que perguntaram sobre 100 Balas. O autor disse que a DC e a Marvel já lhe ofereceram vários personagens, mas que ele não aceita um projeto até entender muito bem o que é o personagem - e que tenha algo de novo a dizer. Quanto à estrutura de suas histórias, aparentamente complexas, ele revelou que o segredo é sempre saber o final - “aí posso improvisar no miolo que nem o diabo”.

Assim que Azzarello ouviu que somos brasileiros, disparou: “Quando é que vão me convidar para ir lá?” Convidamos, é claro, apesar de não sermos uma convenção. Ele diz que, combinando dois ou três meses antes, vai para o Brasil sem pestanejar. Alguém?

Eduardo Risso

Eduardo Risso também foi só sorrisos (trocadilho não-intencional). Ele trabalhou como um dos organizadores do evento, sempre caminhando em marcha rápida de uma ponta a outra do pavilhão, e deu dicas para a produção mesmo quando estava ao microfone, na mesa de palestras. Parecia contente com a quantidade de artistas que conseguiu reunir e com a resposta do público.

A exposição dos artistas convidados, no CCPE, mostrou que o estilo que Risso usa em 100 Balas é apenas um de seu arsenal, e o mais estilizado. Com três décadas de quadrinhos, ele já fez todos os gêneros e para cada um encontra um estilo diferente - o noir Parque Chas, dos anos 80, é cheio de detalhes em cinza; enquanto Borderline, dos anos 90, beira o mangá.

O negócio agora é ele encontrar um estilo para Spaceman, o projeto com Brian Azzarello que foi anunciado pela primeira vez na própria Crack Bang Boom. Risso ainda não começou a desenhar, mas adiantou duas coisas: que não gosta de ficção científica e que a história tem cenas em Marte. Como ele vai lidar com estes sentimentos conflitantes? Só lendo Spaceman.

Artistas locais

Obviamente, havia dezenas de quadrinistas argentinos no evento. Nem todos eram convidados oficiais. Gustavo Sala - talvez comparável ao brasileiro Allan Sieber no humor negro - e Lucas Varela - o ilustrador de estilo mais pop na cena argentina, autor dos ótimos Estupefacto, Matabicho e El Sindrome Guastavino (este, com Carlos Trillo) - são destes “não-oficiais”, embora tenham sessões de autógrafos e grandes painéis no CEC, junto à exposição da revista Fierro.

Foi estranho ver Salvador Sanz - outro dos não-oficiais, que publica seu Noturno no Brasil em breve, e já tem pelo menos mais dois álbuns - abordando os criadores estrangeiros no evento como qualquer fã. Ele entregou um de seus trabalhos a Will Dennis, o editor da Vertigo.

Entre os argentinos “oficiais”, o jovem Juan Sáenz Valiente é o que demonstrou mais talento. Este ano ele está em destaque com o lançamento em álbum, depois da serialização na Fierro, de El Hipnotizador, com roteiro de Pablo de Santis. Seu estilo caricaturesco lembra Kyle Baker, mas é muito original.

A Fierro é a revista de quadrinhos mais importante da Argentina, tendo atravessado 100 portentosas edições de meados dos anos 80 ao início dos 90, e retornado em 2006. Juan Sasturain, papa dos bastidores da HQ argentina nas últimas três décadas e editor da revista, teve um bate-papo com os leitores onde explicou que a Fierro tinha um destaque cultural por não trazer só quadrinhos, mas também críticas de cinema e arte. O mais estranho, porém, é que não se encontrava em toda CrackBangBoom um estande que vendesse a Fierro...

Havia também um punhado de estandes de quadrinistas independentes, do mesmo jeito que se vê em convenções do Brasil: há desde álbuns em xerox até edições com bom acabamento gráfico. O conteúdo também variava de medíocre até novos talentos. Fiquei impressionado ainda como o número de editoras presentes. Como acontece no Brasil, parece que várias surgem para apostar nos quadrinhos, mas não duram muito no mercado.

Brasileiros

O pessoal da Mondo Urbano - Rafael Albuquerque e Eduardo Medeiros (Mateus Santolouco, que completa o trio, teve que ficar em Porto Alegre) - ocupou um estande junto com o pessoal do fanzine Tia Chica - Maumau e Azeitona - e outros quadrinistas de Porto Alegre, como Rodrigo Rosa e Rogê Antônio. Ficaram colados ao estande de Fábio Moon e Gabriel Bá, que comentaram portfólios de quem passava e venderam Atelier (a nova HQ que produziram especificamente para a turnê por convenções em três países neste fim de ano). Rafael Grampá, que estava anunciado para participar, não foi.

Albuquerque, Moon e Bá protagonizaram uma das últimas palestras do evento, no domingo, no CCPE. O auditório não tinha nem metade das cadeiras preenchidas, algo que tem uma explicação simples: assim como conhecemos pouco do quadrinho argentino, eles também desconhecem o nosso. Mesmo assim, no final de sábado, com três dias de evento, a Mondo Urbano e Turnê estavam esgotadas.

Variedade

Como todo bom evento de quadrinhos, a Crack Bang Boom não se apoiou somente em quadrinhos, buscando mostrar que todo o universo RPG, fantasia, cosplaying também estaria presente. Veja o anúncio que rodava na TV local:

ATÉ O ANO QUE VEM?

A Crack Bang Boom, enfim, lembrou um pouco a nossa FIQ, embora o número de convidados estrangeiros tenha sido menor. Por outro lado, o apelo pop de um Jim Lee parece mais significativo que o de qualquer outra figura dos quadrinhos que já tenha vindo à América do Sul. Vê-se críticas à Rio Comicon, por exemplo, por não ter um estandarte como este.

O evento argentino certamente pede uma segunda edição - mas com maior integração e participação brasileira, tanto de criadores quanto de leitores (vale lembrar que passagens aéreas para Rosario são mais baratas que vários trechos domésticos no Brasil). O único pedido é que se mantenha o nível dos convidados.

Confira ao lado imagens do evento e aguarde nossas entrevistas com os talentos citados.

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