Enquanto Isso nos Quadrinhos, por Érico Assis

HQ/Livros

Lista

Cheiro de gibi velho e a falsa morte da DC Comics

Demissões da semana na Warner Bros. não significam o fim das HQs como conhecemos

Érico Assis
14.08.2020
20h39
Atualizada em
12.09.2020
11h50
Atualizada em 12.09.2020 às 11h50

A notícia da semana é que a DC Comics vai passar por uma reestruturação séria ou, como se diz no mercado editorial do Brasil, um passaralho. O que está praticamente confirmado é a demissão de vários funcionários e uma dança das cadeiras no alto escalão. A Warner Bros., da qual a DC faz parte, está mexendo em toda sua estrutura desde a semana passada. Fala-se em 600 demitidos em toda a Warner. E que…

E mais nada. É só isso. O resto é boataria ou especulação.

Capa de HQ com falsa morte de Superman

Muita, muita, mas muita gente, inclusive autores, decretou que a reestruturação é o fim da DC Comics. Ou quase o fim. “O fim da DC que conhecíamos”. Ou algo comparável à Implosão DC dos anos 1970, quando a linha de revistas sofreu um corte drástico.

Ou que tudo vai virar digital. Ou que só vão vender nas livrarias e dar adeus pro mercado direto (que, sem DC, afunda de vez). Ou que vão ficar só com Batman, Super, Mulher-Maravilha e licenciar o resto pra editora menor. Ou que vão só fazer filme, seriado, lancheira e calcinha, porque é isso que rende.

Ou pior: que a Warner descobriu que o mercado de quadrinhos dos EUA não é economicamente sustentável.

Tudo isso é boataria ou especulação. Fora a parte de que o mercado de quadrinhos dos EUA não é sustentável: isso é verdade. Por si só, não é. A Warner já sabia.

A DC não se paga. (A Marvel também não.) Ela é útil, porém, quando vista como fazendinha para gerar histórias, personagens, conceitos, estilos e modas dentro do nicho das HQs. Ela fornece tudo isso de um jeito relativamente barato. Aí as outras divisões da Warner – as de filme, seriado, lancheira e calcinha – botam dentro de uma embalagem cara e vendem no supermercado da cultura pop.

Mulher-Maravilha

Só os filmes DC/Warner movimentaram mais de US$ 8 bilhões na última década. Só os filmes, sem contar tudo na TV e todo o licenciamento. A DC Comics, sozinha, levaria mais de 30 anos para movimentar US$ 8 bilhões.

O caso é que a Warner não teria esses 8 bilhões, hoje, sem os últimos 30 anos de DC.

O investimento que a Warner faz para manter o sorriso nos fãs de Adam Strange, Harley Quinzel, Barry Allen e Sojourner Mullein nos quadrinhos é ridículo perto do que se gasta para criar e manter outras marcas globais. Esses fãs servem tanto de pesquisa de mercado quanto de base de apoio na divulgação dos filmes, seriados etc. A DC não se paga sozinha, mas rende.

A demissão de muitos editores pode, sim, significar cortes na linha de publicação. A saída de gente com anos de casa também mexeria com a rede de free-lancers – as centenas de roteiristas, desenhistas, coloristas, letreiristas etc. que não são funcionários, mas que têm anos de relação profissional com as vítimas diretas do passaralho. A cada editor que se perde, perde-se também dezenas de relações de trabalho com os frilas.

Conversei com autores brasileiros que trabalham para a DC, todos free-lancers. O que eles disseram? Que ainda não sabem nada. É isso que se tem.

Por enquanto, não acredite em mais uma morte do Superman.

CHEIRO DE GIBI VELHO

Cheiro de gibi velho

Quer se acalmar quanto ao fim dos gibis como você conhecia? Quem sabe aromaterapia? A empresa norte-americana Familiar Fragrances oferece uma vela com aroma de vintage comic book. Cheiro de gibi velho. “Uma fusão de mofo, jornal velho, tinta e uma pitada de rack da banca da esquina”, segundo o anúncio. Dezessete dólares, aqui.

 

BIENAL ONLINE

Bienal de Curitiba

A Bienal de Quadrinhos de Curitiba deste ano vai ser online. E acontece na semana que vem, de quinta-feira, dia 20, até domingo, dia 23.

Luiz Gê, Ing Lee, Adão Iturrusgarai, Fábio Lyra, Lu Cafaggi, Reinaldo Figueiredo, Fabio Zimbres, Rafael Calça, Rodrigo Okuyama, Paula Puiupo e o italiano Tanino Liberatore vão fazer lives em torno do tema Quadrinhos e Música. Alguns papos vão ser musicados.

A programação será divulgada oficialmente na semana que vem. “Rock ‘n’ Comics”, “Humor, Jazz e Censura”, “Arte na Quebrada” e “Punk Já Morreu” são os nomes de alguns debates. Tudo vai ser transmitido via Youtube ou Facebook.

Também vai ter oficinas, como “Quadrinhos para quem acha que não sabe fazer quadrinhos” (com o casal balburdesco Maria Clara Carneiro e Lielson Zeni), via Zoom. Para saber das inscrições, é preciso ficar ligado na Bienal via Instagram, Facebook ou no http://www.bienaldequadrinhos.com.br/.

A edição online da Bienal de Curitiba será só um aperitivo para a edição física, prometida para 2021.

UMA PÁGINA

Página da HQ Aprendendo a Cair, da editora Nemo

De Aprendendo a Cair, do alemão Mikaël Ross. Na página, o personagem principal, Noel, um garoto com deficiência mental, deixa o hospital onde sua mãe morreu. É só o início da jornada.

Sai este mês pela Nemo, com tradução de Renata Silveira. É um dos quadrinhos mais impactantes, tocantes, brutais e engraçados que vai se ver este ano no Brasil. Compre aqui.

UMA CAPA

Capa de 400 Morcegos, de Fábio Vermelho

De 400 Morcegos, de Fábio Vermelho. Em pré-venda pela Escória Comix, aqui.

Descrição da editora: “Rio de Janeiro, junho de 1968. Seis pessoas que nunca se viram antes terão seus caminhos entrelaçados em uma trama que envolve coincidências, ganância, obsessão, perversidade, passeatas estudantis, drogas, sexo e rituais satânicos. Que tipos de atos hediondos o ser humano é capaz de fazer para alcançar seus objetivos? Enganar o próximo? Persegui-lo? Assassiná-lo?”

Descrição do autor: “Comprando o gibi na pré-venda você ainda leva esse pôster [da capa] horrivelmente maravilhoso cheio de símbolos maneiros de drogas, satã e tudo que nós jovens devemos ficar longe.” 

(o)

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato.