HQ/Livros

Artigo

Aqui Dentro e Lá Fora (10/03/2010)

Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo e Footnotes in Gaza

Érico Assis
11.03.2010
00h00
Atualizada em
11.11.2016
12h03
Atualizada em 11.11.2016 às 12h03

Agora, as colunas AQUI DENTRO e LÁ FORA se fundem e ganham uma periodicidade semanal. Era um projeto antigo e que vai servir pra gente dar mais vazão para as coisas que saem no Brasil e manter você também atualizado sobre o que está acontecendo longe das nossas bancas.

Vamos lá?

Promessas de Amor a Desconhecidos

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Footnotes in Gaza

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AQUI DENTRO: PROMESSAS DE AMOR A DESCONHECIDOS ENQUANTO ESPERO O FIM DO MUNDO vol. 1: LIMBO

O QUÊ/QUEM: HQ independente do catarinense Pedro Franz, que ainda está sendo publicada em capítulos na web. O primeiro volume reúne os quatro (de doze) capítulos. A edição impressa foi financiada por verba da Fundação Catarinense de Cultura, ligada ao governo do estado de Santa Catarina.

POR QUÊ: Em 2018, um grupo de jovens rebeldes que usa o nome Jolly Roger começa um plano para desestabilizar a sociedade. Algo dá errado, porém, quando explode uma bomba e a célula é culpada.

É o que se compreende até agora do plot de Promessas de Amor a Desconhecidos Enquanto Espero o Fim do Mundo. Mas falar somente dessa ideia, que talvez seja apenas pano de fundo, reduz muito a obra.

Promessas, como obra inaugural, parece um exercício de Franz para misturar tudo aquilo que gosta de desenhar e expressar em uma única história. A narrativa é totalmente não-linear, pulando sem muito aviso de personagem em personagem, às vezes viajando no tempo, às vezes em estilo infográfico. Extremamente variada, enfim. E esse é o primeiro grande ponto positivo da coleção: o autor tem sua própria e marcante voz.

O segundo é sua apresentação. Impressa em papel jornal, mais ou menos do tamanho de uma revista Rolling Stone (21x29cm), Franz parece ter resolvido o embate entre a falta de recursos e a necessidade que um autor de primeira viagem tem de apresentar-se bem: Promessas... vol. 1 é um belo pacote, com um cuidado no design que você não costuma ver nos álbuns indie. É uma revista que chama atenção por dentro e por fora, respeitando o próprio estilo de ilustração do autor.

Franz, porém, peca no roteiro. Às vezes falta coerência na narrativa, de forma que só quando há uma recapitulação você entende o que realmente aconteceu. O uso bem variado de palavrões parece querer dar mais realismo ao falar dos personagens, mas acaba soando forçado. São cuidados de texto, portanto, que faltam à obra - o inverso do que se tem no quesito visual.

Considerando que este é o primeiro trabalho que o autor mostra ao mundo, só se pode recomendar muita atenção no trabalho de Pedro Franz. Se continuar desenvolvendo o seu trabalho (e já se nota crescimento de um capítulo a outro de Promessas), espera-se que logo ele esteja no nível dos Mutarellis, Grampás, Moons e Bás que estão puxando a boa HQ nacional. Capacidade ele já mostrou que tem.

ONDE E QUANTO: O autor vai publicar todos os capítulos da HQ online, no blog http://sobreofim.wordpress.com/. Mas vale a pena conhecer o esmero da edição impressa, também vendida no blog, por R$ 10. Algumas comic shops devem receber a edição em breve.

LÁ FORA: FOOTNOTES IN GAZA

O QUÊ/QUEM: Mais recente HQ-reportagem do quadrinista-jornalista Joe Sacco, conhecido por trabalhos como Palestina e Área de Segurança Gorazde. Ele volta ao lugar de seu primeiro álbum de sucesso para tratar especificamente de um massacre de palestinos pelo exército israelense em 1956. O autor levou três anos para produzir Footnotes in Gaza, publicado agora pela Henry Holt / Metropolitan Books.

POR QUÊ: Joe Sacco é o mais proeminente jornalista a usar os quadrinhos como forma de expressão, coleciona prêmios pelos seus trabalhos, publica em jornais de grande renome e, com este último trabalho, trocou editoras que só publicavam quadrinhos, como Fantagraphics e Drawn & Quarterly, para uma "Grande Editora De Livros Sérios", a Henry Holt. Todo esse cacife parece tê-lo direcionado para uma decisão: polemizar.

Palestina, Área de Segurança Gorazde, Uma História de Sarajevo e outros trabalhos de jornalismo em HQ de Sacco são mais HQ do que jornalismo. São reportagens, sem sombra de dúvida, e muito bem construídas, mas atêm-se ao mundo micro das pessoas e lugares em guerra, mostrando pequenas histórias do cotidiano desesperador nos países em conflito. Como mídia visual, as HQs fazem bem esse papel de capturar o micro. É por esse recurso que Sacco consegue transmitir questões macro: as crises de refugiados, a política, a economia, as guerras, etc.

Footnotes in Gaza, porém, é mais jornalismo do que HQ. E a polêmica é a seguinte: com uma predominância pró-Israel na mídia mundial, Sacco ousa ir pelo caminho inverso, juntando dados para provar um massacre de quase 300 civis palestinos pelo exército israelense na cidade de Khan Younis, há mais de cinquenta anos, que virou - por motivos diversos - uma nota de rodapé (footnote) na história, como acusa o título.

O ato desumano é contado em detalhes por pessoas da época, resgatadas por Sacco batendo de casa em casa atrás de sobreviventes. Há apenas dois documentos oficiais sobre o massacre: um relatório das Nações Unidas e uma passagem do general e ministro de defesa israelense Moshe Dayan. O objetivo do quadrinista é justamente montar um novo relato a partir das vozes de testemunhas oculares.

Quando você quer ser levado a sério numa polêmica, tem que estar muito bem fundamentado. Para isso, Sacco acaba deixando de lado a narrativa mais solta, às vezes até cômica, de trabalhos anteriores. Há momentos para o leitor relaxar, mas o grosso do trabalho é dedicado a mostrar sua coleta e cruzamento de dados para montar um panorama - e uma descrição visual, em HQ - do massacre. Coisas que ele nunca tinha utilizado antes, como uma sequência de "cabeças falantes" identificadas por legendas, ou um capítulo dedicado às incongruências de depoimentos entre idosos que entrevistou, acontecem em Footnotes pela primeira vez. Sacco vai para o lado do macro, e perde um pouco da narrativa pessoal marcada, por exemplo, no início de Palestina - quando ele revela que vai visitar o local só para provar-se a uma namorada.

Visto pelos olhos do jornalismo, portanto, Footnotes in Gaza é um trabalho exemplar e ousado. Do ponto de vista da HQ, porém, perde-se um pouco da vivacidade narrativa a que a mídia está acostumada. De qualquer forma, o jornalismo em quadrinhos ainda é uma área em formação, e apenas saber que obras desse peso são aceitas nessa linguagem já é uma grande consquista.

ONDE E QUANTO: Footnotes in Gaza é um livro pesadão de mais de 400 páginas (preto e brancas) em capa dura. O valor original é US$ 29,95 (R$ 44). Como outros trabalhos de Sacco, é bem provável que seja publicado em breve no Brasil.