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Os lançamentos de HQs no Brasil

A cozinha
22.11.2006
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h21
Atualizada em 21.09.2014 às 13h21
Linha Top Cow
Diversos (Panini Comics)
2,5 ovos
Goon - O casca-grossa (Mythos Editora)
4 ovos
Os maiores clássicos do Poderoso Thor (Panini Comics)
4 ovos
X-Men Anual 1 (Panini Comics)
2 ovos
Na coluna irmã da LÁ FORA, o Omelete mergulha nas bancas e livrarias para comentar os principais lançamentos recentes. Nesta edição: Linha Top Cow, Goon - O casca-grossa, Maiores Clássicos do Thor e X-Men Anual 1.

Top Cow
Érico Borgo

Histórias em quadrinhos da editora Top Cow sempre tiveram espaço pequeno nas bancas brasileiras. Até aqui, as iniciativas de publicação desse material foram um tanto cuidadosas, apostando na força de um ou outro título. Agora, pela primeira vez, a linha chega em peso, pela Panini Comics, com vários títulos simultâneos disputando espaço nas prateleiras. Mas será que o conjunto merece tanta atenção?

Agora que parte das séries iniciais já chegou ao final e os demais títulos tomam força, é possível analisar a primeira onda da "Vaca Campeã", formada por Rising Stars: Estrelas Ascendentes, Down - No submundo do crime, Kin - O povo perdido e Midnight Nation - O povo da meia-noite.

Rising Stars é mesmo o destaque da linha. Parcialmente publicada aqui pela Mythos Editora, a história em quadrinhos ganhou uma estréia diferenciada. Para começar diferente, a Panini publicou na primeira edição da série apenas material inédito, previews e histórias especiais. A aventura começa mesmo na segunda edição. A impressão, porém, é que a história não envelheceu bem. Quando a li na época de seu lançamento original achei a saga dos Especiais de Pederson, criada por J. Michael Straczynski, muito melhor. Mas a arte ruim incomodou bastante na segunda leitura. De qualquer forma, deve agradar aos que ainda não a conhecem.

Kin - O povo perdido é decepcionante. Começou bem, com um mistério bacana e personagens interessantes. Mas a conclusão é lamentável e ininteligível. Fica claro que foi terminada às pressas, impressão que comprovei mais tarde ao descobrir que as vendas ruins nos EUA forçaram o autor a encerrá-la antes do previsto.

Down, outra das minisséries que já foram concluídas, é um pouco melhor. A violenta história de uma agente infiltrada numa organização criminosa vale especialmente pelo excelente traço de Tony Harris. No entanto, também parece apressada. A personagem principal não tem profundidade e precisaria ter sido melhor trabalhada para aumentar o impacto dramático. Sobrou ação e faltou história de base. Um trabalho inferior do fantástico Warren Ellis.

Midnight Nation é promissora. Também de Straczynski, o suspense começou bem e tem grande dose de mistério. A ausência de explicações funciona bem até a segunda edição e dá vontade de acompanhar. Resta saber se ela se mostrará à altura do interesse.

DOWN (2 edições) - Preço: R$ 5,50. 52 páginas. Formato Americano. KIN (2 edições) - Preço: R$ 5,90 (1)/R$ 6,50(2). 76(1)/92(2) páginas. Formato Americano. RISING STARS (5 edições): Preço: R$ 6,50(1)/R$ 5,90 (2 em diante). 68(1)/52 (2 em diante) páginas. MIDNIGHT NATION (6 edições): Preço: R$ 6,50(1)/R$ 5,90(2 em diante). 68(1)/52(2 em diante) páginas.

Goon - O casca-grossa
Érico Borgo

The Goon, da Dark Horse Comics, coleciona prêmios nos principais festivais da Nona Arte dos EUA. E merece! A HQ criada, roteirizada, desenhada e colorizada (ufa!) por Eric Powell é divertidíssima. Seu autor brinca a cada capítulo com traços e técnicas, sempre casando o visual com a temática da história. Ora ele homenageia Will Eisner, ora Kelley Jones, por exemplo, mas sempre mantendo sua própria identidade. Até fotonovela (!!!) tem vez no gibizão.

Um exemplar humor-negro se espalha por todos os quadrinhos, que apresenta as histórias retrô-trash de Goon, um valentão superforte e seu parceiro mirim boca-suja. No caminho da dupla estão monstros do mar tarados, lagartos gigantes que falam espanhol, hordas de zumbis famintos, cientistas loucos, mutantes e orangotangos que sofrem combustão espontânea, entre outras ameaças esquisitas.

A edição é igualmente notável. Trata-se de uma das melhores publicações da Mythos até hoje, com um tratamento gráfico impecável em 218 páginas que reúnem os sete primeiros números do título original, inclusive o encontro de Goon com o Hellboy de Mike Mignola.

Formato americano. 218 páginas. R$ 38,90.

Os Maiores Clássicos do Poderoso Thor
Marcus Vinicius de Medeiros

Quadrinhos de super-heróis, de modo geral, costumam ser vistos pelo grande público de forma simplista. Pensa-se apenas nos elementos básicos que ajudaram a estabelecer o gênero durante a Era de Ouro, como a identidade secreta e os superpoderes capazes de superar qualquer dificuldade. Talvez os dramas humanos abordados por Stan Lee durante o início do Universo Marvel também sejam lembrados, mas dificilmente passa disso. À exceção de obras que revolucionaram a indústria, os super-heróis evocam a imagem de fantasia adolescente. As histórias reunidas neste volume de Os maiores Clássicos do Poderoso Thor constituem prova incontestável do quanto tal visão é limitada.

Artista completo, de talento admirável e dotado de larga bagagem cultural, Walter Simonson escreveu e desenhou as aventuras do Poderoso Thor numa série memorável, que finalmente ganha tratamento à altura no Brasil. Simonson é um dos poucos quadrinhistas que dominam plenamente a arte da narrativa seqüencial, explorando ao máximo a junção de texto e imagens. Seu desenho pode não ser exatamente bonito, mas não deixa de surpreender em termos de criatividade narrativa. Logo em sua primeira história com Thor, altera consideravelmente o status quo do personagem, eliminando sua identidade secreta clássica e introduzindo um novo herói alienígena. Trata-se de Bill Raio Beta, novo portador do poderoso martelo Mjolnir. Apesar das referências ao Universo Marvel, como a participação de Nick Fury, o pano de fundo das histórias de Thor é muito mais complexo, incluindo a riqueza da mitologia nórdica reinterpretada para os tempos modernos.

É neste ponto que podemos identificar um dos maiores diferenciais de Thor em relação ao modelo convencional de quadrinhos de super-heróis. Suas histórias não buscam apenas uma relação de identificação com o leitor, ou de deslumbramento com os elementos fantásticos. Em verdade, elas apresentam tudo isso e muito mais. A sensação que predomina na leitura desse clássico, muitas vezes, é a de estranhamento, pois Simonson nos apresenta um mundo inusitado e surpreendente, diferente de tudo a que estamos acostumados. Ainda assim, as emoções e conflitos internos dos personagens têm força inegável, garantindo o prazer da viagem de descoberta. Há momentos muito bem-humorados, como as piadas sobre identidade secreta, com uma genial alusão ao Super-Homem, paixões ardentes e desejo de vingança. Tudo isso numa trama bem amarrada e envolvente.

O leitor que está acostumado a sagas que pedem reviravoltas bombásticas a cada revista em eventos grandiosos merece conferir este trabalho feito com dedicação e muita habilidade. Histórias como a de Balder, o Bravo, e a viagem ao Reino das Fadas são emblemáticas. Em ritmo lento, porém envolvente, sem apelações gratuitas, temos algo que nos faz vibrar, rir, e principalmente, recuperar o prazer da leitura de uma história direta e eficiente. Este não é um discurso saudosista, até porque há muito material de qualidade sendo publicado atualmente. Mas o Thor de Walt Simonson é, sem dúvida, um dos quadrinhos que ajudou a elevar o padrão das histórias de super-heróis e influenciou muitos dos atuais talentos.

Formato americano. 292 páginas. R$ 34,90.

X-Men Anual - Era do Apocalipse
Marcus Vinicius de Medeiros

As tramas desta edição anual dos X-Men soam tão artificiais que não seria surpresa se nos fosse revelado que a revista inteira foi fruto de um programa de computador voltado para a criação de roteiros clichês. Comemorando os dez anos da Era do Apocalipse, épico dos mutantes da Marvel, que, convenhamos, não precisava de comemoração, o texto de Scott Lobdell (um dos arquitetos da saga original), Larry Hama e Akira Yoshida pode não só decepcionar os fãs devotados da equipe quanto causar constrangimento aos leitores que tentam uma incursão no universo-X.

Em A Era do Apocalipse, foi apresentada uma realidade alternativa na qual o professor Charles Xavier havia sido morto por seu filho Legião, os X-Men estavam sob o comando de Magneto e enfrentavam o jugo de Apocalipse. Mesmo muito abaixo do nível das inesquecíveis sagas produzidas pela dupla Chris Claremont e John Byrne, a HQ ajudou a sacudir o mercado e injetou boas doses de energia e criatividade em toda a linha mutante. Ainda assim, sempre esteve mais para uma A Queda do Morcego que para um Batman: Ano Um. A decisão de revisitar a saga deve-se muito mais à sua popularidade que a qualquer qualidade artística.

Na história do anual, acompanhamos os desdobramentos ocorridos na realidade alternativa, que continuou a existir a passou por algumas mudanças. Entre as linhas narrativas, temos Magneto como Diretor de Assuntos Mutantes na Presidência, Wolverine em isolamento, o aparecimento de sua possível filha, X-23, além de traições de antigos membros e retorno de vilões esquecidos. Até poderia render um bom estudo de personagens. Contudo, estes nunca estiveram tão ralos e estereotipados. E a solução dos roteiristas para resolver as crises do roteiro é a introdução consecutiva de personagens, sem a menor noção básica de estrutura. Não que se devesse esperar muito de Scott Lobdell. A arte é irregular, mas salva-se, sobretudo, o sempre competente Chris Bachallo.

(X-Men: Age of Apocalypse One Shot, X-Men: Age of Apocalypse 1-6) Formato americano. 192 páginas. R$ 19,90.