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Turma da Mônica Jovem, muitas novidades da DC Comics, Monstro do Pântano e A Casa ao Lado

A cozinha
20.08.2008
18h30
Atualizada em
18.11.2016
03h08
Atualizada em 18.11.2016 às 03h08

Na coluna irmã da LÁ FORA, o Omelete mergulha nas bancas e livrarias para comentar os principais lançamentos recentes.

Turma da Mônica Jovem

Por Marcus Vinicius de Medeiros

Consagrada durante anos como referência em termos de quadrinhos infantis, as revistas da Turma da Mônica, criação de Maurício de Sousa, vêm tentando nos últimos tempos alcançar o público adolescente. A jogada parece natural e oportuna, se considerarmos o apelo dos super-heróis e dos mangás junto a leitores nessa faixa etária. Como partes desses esforços, foram lançados uma divertida sátira do seriado televisivo Lost (A Turma da Mônica em Lostinho: Perdidinhos nos Quadrinhos), minisséries da Tina e os Caçadores de Enigma, incluindo ficção científica, e mais uma revista que mostraria a turma em clássicos do cinema. Apresentar uma versão da Turma da Mônica jovem, em estilo mangá, seria o passo seguinte e, esperava-se, o mais ousado.

A promessa já se desfaz logo nas primeiras páginas, quando fica claro que os responsáveis pela revista não sabem para quem estão falando. Turma da Mônica Jovem investe bastante em nostalgia, fazendo lembrar personagens, características especiais e brincadeiras do passado. Assim, Mônica, Cebola, Cascão e Magali são apresentados, agora mais velhos, porém numa narrativa pueril que insiste em não fazer grandes avanços. Se o propósito é realmente atrair leitores adolescentes, a revista passa longe dele. A história, quando consegue engrenar, envolve uma trama mística e coloca os heróis crescidinhos contra vilões pouco originais. A única relação que pode ser encontrada com o imaginário adolescente são algumas gírias - que já saíram de moda, diga-se de passagem.

A própria narrativa também falha na tentativa de conquistar o leitor porque os personagens se resumem a versões (mal) evoluídas do que eram nas revistinhas. Fora isso, não há motivação, envolvimento emocional ou qualquer traço que os tornem especiais. Cebola, por exemplo, já não troca mais as letras e tem cabelo. Vale o mesmo para todo o elenco de personagens clássicos, e é triste ver tamanho potencial desperdiçado. O traço, por outro lado, consegue ser dinâmico, arrojado, e manter a Turma da Mônica ainda reconhecível.

Sem dúvida, vale como curiosidade para quem sempre quis saber como Mônica e sua turma ficariam quando crescessem. E só.

(Turma da Mônica Jovem) Panini Comics. 128 págs. Formato 16,0 X 21,3 cm. Colorido. R$ 5,90.

DC Comics 70 Anos - As Melhores Histórias do Lanterna Verde
Por Marcus Vinicius de Medeiros

Idealizado como um herói íntegro e sem medo, o piloto de testes aeronáuticos Hal Jordan tornou-se de imediato um ícone da Era de Prata dos quadrinhos e do próprio gênero super-heróis com o uniforme, o anel energético e o sagrado juramento do Lanterna Verde. Elementos fantásticos e emblemáticos da ficção científica como uma tropa de policiais estelares, culturas diferentes espalhadas pelo cosmos e o controverso papel dos Guardiões do Universo marcaram sua jornada nos quadrinhos.

O especial As Melhores Histórias do Lanterna Verde com histórias selecionadas do heróis e lançado como parte da comemoração dos 70 anos da DC Comics é leitura essencial, mesmo sabendo que algumas histórias antigas pareçam datadas. O importante é que o apelo do personagem resiste. Em narrativas ingênuas, especialmente as assinadas por John Broome, pode-se resgatar toda a magia que os super-heróis um dia representaram incondicionalmente. Idéias mirabolantes fluíam com graça, tocando levemente em questões humanas, e o resultado era diversão. Para o bem ou para o mal, super-heróis mudaram radicalmente, e a seqüência de histórias do Lanterna Verde reflete isso.

Em decorrência do amadurecimento da indústria dos quadrinhos, da mentalidade dos roteiristas e preocupações sociais, e das próprias reviravoltas no mundo real, o conceito das histórias de super-heróis incorporou cada vez mais um papel de contestação. O Lanterna Verde, que em essência é uma figura de autoridade, pode ser o personagem mais representativo disso, e aí está o valor desta coletânea. São explorados temas como a dedicação de Jordan aos Guardiões do Universo e a seu dever para com a justiça e a ordem, em oposição às suas vontades pessoais de ter a vida de um homem normal, e a própria noção de um herói agindo acima da lei.

A história clássica do Lanterna Verde em parceria com o Arqueiro Verde, de autoria de Denny O´Neil e Neal Adams, marcou o personagem e levou os quadrinhos a nova direção. O´Neil era um liberal convicto, e usou os dois super-heróis em tramas de interesse social, nas quais o Lanterna representava autoridade, e o Arqueiro, contestação. Ao longo dos anos, quem saiu perdendo com isso foi exatamente a figura de Hal Jordan, que depois acabou até virando vilão do Universo DC. O especial não aborda essa fase polêmica, mas acerta ao incluir histórias de Mark Waid e Geoff Johns, que sempre lutaram pela sobrevivência de um idealismo defendido pelos super-heróis nos quadrinhos. Algo que nunca deveria ter sido perdido.

(Showcase 22; Green Lantern 1; Green Lantern 31; Green Lantern 74; Green Lantern 87; Green Lantern 172; Green Lantern 3; Flash and Green Lantern: The Brave and The Bold 2; DC First: Green Lantern/Green Lantern; Green Lantern Secret Files and Origins 2005) Panini Books. 192 páginas. Formato americano (17 x 26). Colorido. R$ 22,90.

O Ataque das Amazonas

Por Marcus Vinicius de Medeiros

Tomando como ponto de partida os eventos iniciados na minissérie "Crise de Identidade", escrita por Brad Meltzer e ilustrada por Rags Morales, a saga "O Ataque das Amazonas" é mais uma tentativa de apresentar o Universo DC de forma coesa e realista. Com texto do competente Will Pfeifer e desenhos de Pete Woods, que alterna altos e baixos, a história não decola por vários motivos. O primeiro deles, algo essencial e que deveria estar na cabeça de toda a equipe criativa de um universo partilhado, é que, mesmo sendo parte de um acontecimento maior, uma história deve funcionar por si própria.

Em "O Ataque das Amazonas", a Rainha Hipólita, mãe da Mulher Maravilha, ressurgida dos mortos - para quem perdeu, ela travou sua última e derradeira batalha em outro crossover, "Mundos em Guerra" - declara guerra ao patriarcado. Logicamente, as forças de defesa da humanidade, que incluem a Liga da Justiça, entram em ação, e há um dilema emocional para a Princesa Amazona. O potencial para um bom drama de ação está aí. E começa não funcionando ao não apresentar bem os personagens e suas motivações. A impressão que a leitura transmite é de que simplesmente precisavam de mais uma guerra no Universo DC.

Roteirista que já mostrou talento em Hero, Aquaman e Mulher-Gato, Pfeifer declarou publicamente durante a publicação do título nos Estados Unidos que não teve muita liberdade e, basicamente, seguiu ordens editoriais. Mesmo assim, há qualidade no texto, demonstrando que ele sabe lidar com as convenções do gênero super-heróis e entende como a Liga da Justiça reagiria diante do ataque. Mas colabora negativamente o fato de "O Ataque das Amazonas" não estar de acordo com outros eventos da editora, o que levou a um desfecho bastante contestado pelos leitores.

A própria noção de mais uma guerra no Universo DC - após os eventos de "Crise Infinita" e da "III Guerra Mundial" - invalidam consideravelmente o impacto que poderia ter "O Ataque das Amazonas". Poderia ser um épico e explorar uma jornada de introspecção na Amazona. Em vez disso, temos seqüências de lutas aleatórias e monstros matando gente pelas ruas.

(Amazons Attack! 1 e 2) Panini Comics. 52 páginas.Formato americano (17 x 26). R$ 5,50.

Contagem Regressiva
Por Marcus Vinicius de Medeiros

Já não se discute mais que a DC Comics enfrenta agora sua maior crise. Não nas infinitas terras, de identidade, infinita ou final, mas em todo o processo criativo das revistas de super-heróis e de como manter um universo coeso. A saga "Contagem Regressiva" está na mente de todos como o símbolo máximo de decadência da casa de Superman e Batman. De fato, veremos o quanto ela é problemática. Mas antes propagar o apocalipse, deve-se entender, de fato, o que está acontecendo.

O editor-chefe Dan Didio, que roteirizava a revista mensal do Superboy (e matou o personagem!) e tinha experiência em televisão, assumiu o posto com propósitos bem definidos. Centrar os acontecimentos mais importantes nas séries mensais (não mais em minisséries ou edições de luxo), apresentar os super-heróis de maneira icônica e coerentes com o que existe no imaginário coletivo e, finalmente, explorar os gêneros espionagem, ficção científica, sobrenatural. Em princípio, tudo bem. Brad Meltzer e Rags Morales, em "Crise de Identidade", deram a largada e agitaram o mercado, fãs se entusiasmaram e houve um senso de competitividade no mercado.

A seguir veio um festival de equívocos. Muito do que Didio se propunha a fazer já havia sido alcançado por Mark Waid e Grant Morrison nos anos 1990, especialmente com a Liga da Justiça. E o pior, o grande catalisador das mudanças sem sentido está ligado ao conceito de Multiverso que Didio introduziu - sendo que Waid e Morrison já haviam criado um multiverso funcional chamado Hipertempo. A partir daí seguiram aleatoriamente retcons, mortes de personagens em cenas de mau gosto, e acontecimentos contraditórios não explicados. Geoff Johns manteve-se forte como um raio de esperança, escrevendo o melhor possível e brilhando como nunca. Mas ele era apenas um.

Em "Contagem Regressiva', o roteirista Paul Dini ficou encarregado de apresentar um prólogo para a "Crise Final", de Grant Morrison. O fato é que a saga de Morrison já estava preparada desde antes da entrada de Didio, e partiria do que o escocês produziu em "Sete Soldados da Vitória". A contagem de Dini poderia funcionar para muita coisa, menos para a crise de Morrison. Mas acabou não funcionando em nada. São personagens descaracterizados como A Filha do Coringa, Jimmy Olsen e Donna Troy, numa narrativa arrastada e apelativa, que ainda parece se esforçar ao máximo para deixar o leitor com dor de cabeça. A DC ainda pode dar a grande virada, mas olhando o quadro atual, fica difícil até saber por onde podem começar.

(Countdown 47 a 44) Panini Comics. 100 páginas. Formato americano (17 x 26). R$ 6,90.

A Casa ao Lado

Por Érico Assis

A prova de que a HQ nacional está vivendo um ótimo momento não são os grandes lançamentos agitando o mercado, ou quadrinistas ganhando prêmios internacionais. A melhor prova é quando você pega um álbum nacional qualquer, despretensioso e de autores desconhecidos, e tem meia hora de diversão.

Foi essa boa surpresa que tive com A Casa ao Lado, de Diogo Cesar e Pablo Mayer. A graphic novel deles foi aprovada em um projeto de incentivo à cultura da cidade de Joinville, Santa Catarina, onde a história se passa, e este ano foi publicado pela HQManiacs Editora.

Roteiro de Sessão da Tarde, a trama começa com garotos que são abduzidos ao entrarem na casa mal-assombrada do quarteirão. Cabe ao pai de um deles iniciar a investigação sobre o que aconteceu. O segredo da casa, sem entregar muito, tem a ver com as raízes germânicas de Joinville.

Diferente da Sessão da Tarde, porém, o pai protagonista não vira herói de uma hora para outra. Sua primeira página na HQ é a em que ele diz que queria um fim-de-semana de sossego, e essa atitude sossegada continua pelo resto da história. A ironia e a comédia são a melhor coisa do roteiro do Diogo. Já os desenhos de Pablo têm um estilo mínimo e lembram muito o norte-americano Jim Mahfood.

A narrativa é extremamente competente - não tem exageros, não emperra a leitura nem tem nenhum desses problemas técnicos que freqüentemente afetam as HQs brasileiras. Claro que isso é pressuposto de uma HQ profissional, mas tem que ser elogiado justamente por ser raro por aqui.

Por fim, uma boa graphic novel brasileira a só R$ 14,90 é o que faz toda a diferença. A gente precisa de mais quadrinhos assim.

HQ Maniacs. 60 páginas. Formato 17,3 x 21 cm. R$ 14,90.

Monstro do Pântano - Amor em Vão - 3 ovos

Por Marcus Vinicius de Medeiros

Considerando-se, de início, que a série do Monstro do Pântano, quando foi reformulada na década de 1980 por Alan Moore, tornando-se um marco da chamada "invasão britânica" no mercado de quadrinhos estadunidenses, de todo o processo evolutivo das revistas em termos de temática e estética, e da revolução que redefiniu a mídia para o público adulto, pode-se pensar que não há nada de novo a fazer com o personagem. "Amor em vão", de Joshua Dysart (texto) e Enrique Breccia, corrobora esse pensamento.

Neste especial, que reúne a minissérie anteriormente publicada pela própria Pixel, Dysart já nem se preocupa em carregar o texto com alguma dose de lirismo ou significado maior. A história resume-se apenas a personagens antigos da mitologia do personagem, como Anton Arcane, Abigail e Tefé, com ênfase no apelo grotesco.

Em poucas palavras, temos uma garota que tenta criar seu próprio Monstro do Pântano, para satisfação de desejos carnais, e acaba possibilitando a libertação do condenado ao inferno Anton Arcane. A partir daí, o roteiro segue pelo caminho do gore puro e simples, e acaba funcionando, dentro dessa proposta. O público ávido por sangue e bizarrices sexuais, não há dúvidas, ficará satisfeito com a leitura. Não há problema em se divertir com isso. Mas quando consideramos o que já foi a linha de quadrinhos adultos Vertigo, a situação é preocupante.

P.S. Como dica de leitura sobre o personagem pós-Alan Moore, destacam-se as fases de Grant Morrison, Mark Millar e Brian K. Vaughan.

(Swamp Thing Vol. 4 9 a 12) Pixel Media. 100 páginas. Formato 17 x 26 cm. R$ 12,90.