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O Fótografo: Uma História no Afeganistão, Grandes Clássicos DC 9 - Alan Moore, Metal Gear Solid, Alv

A cozinha
19.12.2006
01h00
Atualizada em
11.12.2016
05h03
Atualizada em 11.12.2016 às 05h03

O fotógrafo
(Conrad Editora)
5 ovos!
Grandes Clássicos DC 9
(Panini Comics)
5 ovos!
Metal Gear Solid - Volume 1
(Editora Pixel)
3 ovos
Alvo Humano
(Opera Graphica)
4 ovos
DC Especial 9
(Opera Graphica)
4 ovos

O fotógrafo - Vol. 1
Érico Borgo

Dando continuidade à sua concisa linha editorial, a Conrad traz mais um lançamento aclamado mundialmente. Uma excelente companheira de prateleira para os trabalhos de Joe Sacco, a HQ O Fótografo: Uma História no Afeganistão é um registro jornalístico do conflito oitentista no Afeganistão, quando russos e rebeldes talibãs enfrentaram-se pelo domínio da região.

O projeto, em três volumes, é o resultado do esforço do roteirista e ilustrador Emmanuel Guibert, o diagramador e colorista Frédéric Lemercier e, principalmente, Didier Lefèvre, fotógrafo e personagem principal da história.

Em 1986, Lefèvre partiu com suas quatro câmeras fotográficas de Paris ao Afeganistão, onde acompanhou uma expedição da organização Médicos Sem Fronteiras, que pretendia abrir mais um posto avançado no país para levar ajuda às vítimas da guerra. O primeiro volume mostra sua chegada ao país e a difícil jornada até o destino, passando por uma zona de combate.

A edição alterna as limpas e incisivas ilustrações de Guibert com as fotos preto-e-branco de Lefèvre, desbravando novo território narrativo e artístico e obtendo sucesso onde outros esforços do gênero falharam, parecendo apenas fotonovelas. O resultado é um apaixonante e honesto relato do drama humano vivido pelo povo afegão e um registro da coragem do MSF em atuar numa das mais inseguras localidades do planeta. Imprescindível.

(Le photographe, tome 1) Conrad Editora. Formato 23 x 30cm, 88 páginas. R$ 46,00.

Grandes Clássicos DC 9 - Alan Moore
Marcus Vinicius de Medeiros

Quando o leitor se prepara para apreciar uma história de Alan Moore, as expectativas são altas - e justificadas. O mago britânico carrega o estigma de ter criado o maior clássico dos quadrinhos de todos os tempos, mudando a visão do mundo sobre os super-heróis, em Watchmen, e de ter revigorado o gênero horror injetando altas doses de lirismo e confrontos psicológicos, com o Monstro do Pântano. Além disso, criou posteriormente universos próprios, como os de Tom Strong e Top 10, prestou homenagens aos clássicos da DC Comics em Supremo, Youngblood e Glory. Pra não falar no seu trabalho de quadrinhista independente. E mesmo nas histórias mais simples, como é o caso de alguns contos reunidos neste volume da Panini Comics, Moore surpreende.

A melhor forma de analisar esta edição de Grandes Clássicos DC dedicada inteiramente ao barbudo é dividindo-o entre as histórias que já se tornaram clássicas e figuram na bagagem cultural de todo fã de quadrinhos, e aquelas menores, quase desconhecidas, algumas das quais estão sendo publicadas pela primeira vez no Brasil. Na primeira categoria, enquadram-se as histórias do Super-Homem - "Para o homem que tem tudo" e "O que aconteceu com o Homem de Aço" -, além do encontro do kryptoniano com o Monstro do Pântano, e a graphic novel A Piada Mortal, que pertence à cronologia do Batman, revela a origem do Coringa e traça um destino trágico para a ex-Batgirl Bárbara Gordon. Hoje, falar do impacto dessas histórias nas carreiras dos dois personagens é como explicar a importância de Cidadão Kane para o cinema, de Walt Disney para a animação e de Isaac Asimov na literatura de ficção científica.

Com o Super-Homem foi trabalhado de forma arrebatadora e diferenciada o aspecto emocional de um deus que caminha entre os humanos. Às vésperas da reformulação empreendida por John Byrne, que humanizou o personagem reduzindo seus poderes, eliminando décadas de cronologia e desfazendo sua ligação afetiva com o planeta Krypton, Moore mostrou que justamente esses aspectos produziriam as histórias mais memoráveis. Em "Para o homem que tem tudo", o roteirista mergulha fundo na alma do herói, mostrando seu desejo mais forte, que seria levar uma vida pacata num Krypton que nunca explodiu. Os temas de isolamento vão desde histórias da Era de Ouro e se estendem além dos filmes de Bryan Singer, mas Moore não foi superado em mostrar um personagem com o qual nos identificamos, justamente por expor emoções humanas como ninguém. O momento de fúria contra o vilão Mongul é emblemático. "O que aconteceu com o Homem de Aço", a história que encerrou a cronologia pré-Crise do Super-Homem, encanta por mostrar a crueldade dos vilões numa trama bem amarrada que encerra uma jornada mitológica de três eras de quadrinhos, com todos os convidados a que tinha direito e uma conclusão mais que satisfatória.

Com a Piada Mortal, um trabalho que Moore não coloca entre seus melhores, temos uma história que está no topo de qualquer lista de melhores histórias do Coringa. O Palhaço do Crime, afinal, é o astro maior desta obra de arte. Poderia ser apenas a origem de um grande vilão e o fim trágico de uma heroína querida pelo público. Mas as histórias de Moore sempre são muito mais do que poderiam ser. Há todo um subtexto envolvendo o caminho que leva um homem à loucura, a tênue linha que a separa da sanidade, e o quanto Batman e Coringa estão ligados. Os atos de crueldade estão num patamar poucas vezes visto numa revista de super-heróis e, ainda assim, herói e vilão nunca estiveram tão próximos. No final, perde-se tudo o que se tinha como certo. Para Moore, um trabalho inferior. Para os leitores, ele disse tudo o que precisava e algo mais.

Nas histórias curtas, estreladas por Arqueiro Verde e Canário Negro, Tropa dos Lanternas Verdes, Vigilante, Omega Men e Vingador Fantasma, algumas publicadas pela primeira vez no Brasil, nota-se o mesmo brilhantismo, criatividade e visão anárquica ao lidar com personagens consagrados. Pequenos detalhes como os criminosos que passam mal na presença de heróis uniformizados e a tentativa de se recrutar um Lanterna Verde num planeta onde não há cores fazem com que esses contos transcendam as limitações do próprio gênero ao que pertencem. Todas as histórias contam com arte de primeira grandeza, variando apenas o estilo, de um tradicional Curt Swan a um arrojado Klaus Janson. Deve-se lembrar que o roteirista escreve roteiros com o máximo de detalhes, estilo que ganhou o apelido de roteiro-Alan Moore. Após constatar que Moore faz em cinco páginas o que outros nomes de peso fazem em cinco anos, o leitor fica mal acostumado. Ao ler a próxima história evento de super-heróis, vai constatar que Moore já o fez antes - e melhor.

(Action Comics 583, Batman Annual 11, Batman: The Killing Joke, DC Comics Presents 85, Detective Comics 549 e 550, Green Lantern 188, The Omega Men 26 e 27, Secret Origins 10, Superman 423, Tales of the Green Lanter Corps Annual 2 e 3, Superman Annual 11 e Vigilante 17 e 18) Panini Comics. Formato Americano, 308 páginas. R$ 40.

Metal Gear Solid - Volume 1
Érico Borgo

Videogame revolucionário, Metal Gear Solid gerou uma série popularíssima, em que cada capítulo das aventuras do protagonista, o supersoldado Solid Snake, é aguardada com enorme ansiedade. Parte desse sucesso deve-se à narrativa cinematográfica criada por Hideo Kojima, que fascina jogadores e crítica, frequentemente colocando os games da série entre os melhores do ano.

A bem-sucedida franquia estendeu-se também às histórias em quadrinhos e Metal Gear Solid - Volume 1, lançada no Brasil pela Pixel Media, apresenta a primeira parte de uma aventura inédita.

Na trama, escrita por Kris Oprisko (Ladrão da eternidade), Solid Snake é forçado a deixar a aposentadoria quando terroristas geneticamente modificados invadem uma unidade de armas especiais no Alasca. Reviravoltas e segredos encontram-se adiante, incluindo personagens e tecnologias que julgavam-se eliminadas.

Os fãs certamente reconhecerão referências e costuras do roteiro da HQ com os games, mas quem nunca comandou Solid Snake nos consoles terá a diversão prejudicada - apesar da história ser autoexplicativa. De qualquer forma, a narrativa de Oprisko é um tanto truncada. Ter à disposição um artista gráfico como o excelente Ashley Wood (Spawn) exige um domínio técnico grande, pois a arte do ilustrador, apesar de estilosa e lindíssima - lembrando muito os trabalhos mais experimentais de Bill Sienkiewicz -, é confusa. Ficam prejudicadas assim as reviravoltas e ganham as cenas com menos texto, como as páginas em que a ação predomina. Mas com ou sem apoio, Wood vale o preço de capa.

(Metal Gear Solid) Pixel Media. Formato Americano, 146 páginas. R$ 32,90.

Alvo humano
Érico Borgo

Christopher Chance, o Alvo Humano, foi criado na década de 1970 por Len Wein e Carmine Infantino, e reformulado em 1999 para a linha Vertigo da editora DC Comics por Peter Milligan e Edvin Biukovic. O personagem é o maior especialista do mundo em disfarces, assumindo com perfeição a identidade e o cotidiano de abastados que o contratam quando estão ameaçados de morte.

O primeiro arco de histórias do Alvo Humano - o da era Milligan - finalmente chega ao Brasil, em edição caprichada da Opera Graphica. E valeu a espera. A história é repleta de surpresas, conflitos de personalidades e dúvidas existenciais de um homem que trabalha para ser outras pessoas. Pena que não haverá outra, já que a editora acaba de informar que não renovou contrato com a DC Comics (fruto das mudanças editorais pelas quais a DC passa no país).

Felizmente, o arco de Milligan e Biukovic tem final bem delineado e não precisa de continuações. Aliás, quem acompanha a série lá fora garante que a qualidade caiu muito e que esta primeira compilação é mesmo o ponto alto. Dessa forma, vale a visita, mesmo que única, ao intrigante mundo de Christopher Chance.

(Human Target 1 - 4) Editora Opera Graphica. Formato americano, 114 páginas. De R$ 49,00.

DC Especial 11 - Gotham City Contra o Crime - Vol. 3
Marcus Vinicius de Medeiros

Nas histórias tradicionais de Batman, o herói e o Coringa se enfrentam regularmente. Muitas vezes, cidadãos comuns de Gotham City são feitos reféns e a policia desempenha papel periférico nessas tramas. Este novo arco da série Gotham City Contra o Crime inverte a situação, colocando o confronto entre Batman e Coringa como pano de fundo para as investigações e dramas burocráticos do Departamento de Polícia de Gotham. O conceito que funcionou tão bem até aqui não mostra sinais de esgotamento.

Tudo começa com o assassinato do prefeito de Gotham, alvejado por um atirador durante reunião com o novo comissário de polícia. A partir daí, começa uma onda de pânico crescente, que alcança níveis inimagináveis com a revelação de que o responsável por tudo é o Coringa. Se numa história de super-heróis o confronto com o vilão é fundamental, em Gotham City Contra o Crime se sobressaem a ambientação e o cotidiano dos policiais, pessoas comuns com uma responsabilidade sobre-humana, lidando com a mente mais psicótica do planeta. A parceria de Greg Rucka, Ed Brubaker e Michael Lark produz um resultado memorável em termos de conceitos e técnicas narrativas. O clima é denso, brutal, e não se alcança a redenção esperada em um quadrinho convencional.

O segundo arco de histórias da edição, tendo como roteirista apenas Ed Brubaker, apresenta uma queda considerável na qualidade do texto e dos desenhos, que apresentam figuras humanas alongadas e perdem muito do realismo fundamental ao título. O grande problema é tratar-se de uma boa história policial, mas pouco conectada ao universo de Batman. Ainda assim, salva-se a interação dos policiais e suas técnicas de investigação. E a série segue como um dos melhores e mais inusitados materiais da DC Comics publicados atualmente no Brasil.

(Gotham Central 12-18) Editora Panini Comics. Formato americano, 164 páginas.