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A chegada dos mangás e a queda dos super-heróis

A chegada dos mangás e a queda dos super-heróis

Alexandre Nagado
11.07.2002
00h00
Atualizada em
25.11.2016
23h05
Atualizada em 25.11.2016 às 23h05

Planeta DC - a última tentativa da Abril com os super-heróis

Love Hina

Dr. Slump

Superman Premium

O cancelamento dos super-heróis na Editora Abril não causa muita surpresa a quem tem acompanhado o mercado de quadrinhos como um todo nos últimos anos. A crise criativa dos quadrinhos americanos tem sido grande, e os editores de lá vivem com dores de cabeça, tentando melhorar as vendas. Constantes reformulações, mega-eventos sem sentido e supervalorização da imagem em detrimento do conteúdo fizeram cair as vendas dos quadrinhos de super-heróis em seu próprio país de origem.

Com esse mesmo material sendo escoado para o Brasil, os heróis de colante enfrentaram ainda outro desafio em tempos recentes, além da forte crise econômica que obriga os leitores a selecionarem melhor suas compras.

A entrada pesada dos mangás foi e tem sido o grande rival em bancas dos heróis do Tio Sam. O público de mangá é amplo e atinge ambos os sexos, o que não acontece com os heróis americanos, consumidos primariamente pelo público masculino. Até por quê a temática dos mangás é variada, atingindo a todo tipo de gosto. Entre Love Hina (comédia romântica), Vagabond (drama épico sobre samurais) e Dr.Slump (comédia de fantasia), praticamente não existe nenhuma semelhança. Mas eles têm, certamente, identidades estruturais comuns ao mercado de onde vieram. E talvez aí esteja o segredo de seu sucesso, que tem se espalhado do Japão para o mundo todo.

FORMATO EDITORIAL

Além de todo um conjunto de características estéticas, uma das grandes diferenças que o mangá traz é o formato adotado. Editar quadrinhos em formatinho, em papel jornal e em preto-e-branco é tudo o que a Abril tentou apagar com suas pretensiosas edições Premium e é tudo o que se vê em termos de mangás editados por aqui. Quadrinhos de luxo para leitores exigentes é o que a Abril quis firmar nos últimos dois anos. Na verdade, o que se viu foi uma iniciativa de se ganhar o máximo de dinheiro possível às custas de cada vez menos colecionadores. No entanto, editar lixo em papel luxuoso e cores vistosas não é algo que se sustenta por muito tempo. Passada a novidade e o deslumbre do formato especial, o leitor passa a se concentrar mais na história e a exigir qualidade. Todavia, com a já citada crise criativa do quadrinho americano de linha, isso estava um pouco difícil de se conseguir.

Além disso, os mangás têm oferecido muitas páginas de leitura (mais de 100) a preços baixos (entre R$ 2,90 e R$ 3,50). Comparando isso com revistas de 160 páginas a R$ 10,00, a relação custo-benefício pende para o lado dos quadrinhos nipônicos, mesmo com um formato mais humilde e sem pompa. E isso quebrou alguns mitos tidos verdades absolutas no mercado nacional.

Dizia-se que quadrinho em preto-e-branco não vendia. Porém, todos os mangás são editados assim. Da mesma forma, dizia-se que o formatinho estava acabado. Todos os mangás saem em formatinho, que é o mesmo empregado para compilações de séries no Japão. Mais barato, diversificado e com mais conteúdo, o mangá busca a popularização, ao contrário do quadrinho americano, cada vez mais restrito e segmentado.

SEGMENTAÇÃO OU POPULARIZAÇÃO?

Buscar só os leitores mais fanáticos não gera um grande mercado para quase nada. Principalmente com revistas a R$ 10,00. Quantos colecionadores fiéis compravam todos os títulos da Abril, com a crise que galopa no país?

Faltou buscar o leitor do material de linha, o consumidor do arroz-com-feijão e que busca diversão ligeira, pois é isso o que movimenta o mercado. Esse grande público é sensível às ondas de consumo e é decisivo no sucesso comercial de qualquer coisa. Porém, fisgar esse comprador não é tão fácil quanto pode parecer. Alguém achou que o enorme público que viu o Homem-Aranha nos cinemas compraria o gibi do Escalador de Paredes? Bom, talvez alguns até tenham tentado. E teriam procurado mais se o gibi fosse como o filme, sem saga dos clones e outras bobagens que os editores do Aranha têm empurrado goela abaixo dos leitores. Se para os fãs já é difícil engolir os intrincados lances cronológicos que exigem a leitura de inúmeras revistas ao longo de muitos anos, o que dizer do leitor esporádico que apenas viu o filme e resolveu comprar o gibi para se divertir um pouco mais? O infeliz ficou perdido, de saco cheio e deixou o gibi de lado.

Neste aspecto, o mangá dá outro banho de marketing, pois quem comprar o mangá Samurai X depois de assistir à série na TV, vai ver exatamente o mesmo herói e o mesmo universo. Até Cavaleiros do Zodíaco, cuja versão mangá é diferente da versão para TV em vários aspectos, ainda conserva o mesmo enredo, espírito e características que ajudam o leitor e o telespectador a se sentirem consumindo variações da mesma obra.

Já um fã do novo desenho da Liga da Justiça que tenha comprado uma revista da equipe editada recentemente, pode ter se deparado com uma longa e chatíssima história que explica pela enésima vez a complicada origem da Mulher Maravilha. Com longos textos, o roteirista tentou relacionar a atual personagem com a heroína original da Segunda Guerra, num enredo confuso e forçado que exige muito conhecimento prévio do Universo DC. No quadrinho americano obcecado por cronologia, justificar situações acaba sendo mais importante do que contar boas histórias.

É o problema de ter que se conhecer muita coisa para acompanhar uma história da Marvel ou da DC. Diversas sagas também envolvem longos planejamentos com equipes de diferentes revistas, abalando o trabalho isolado dos autores e produzindo colchas de retalhos. A própria palavra autor acaba tendo um significado diferente no mangá, onde este é o criador da personagem e quem vai assinar os rumos da história do começo ao fim.

O PESO DOS AUTORES

Um mau quadrinho japonês ainda assim é um bom quadrinho de autor. O autor é quem cuida dos rumos da personagem e sua assinatura confunde-se com a história. No Japão, o autor normalmente faz o roteiro e o desenho a lápis (e em alguns casos a arte-final) das personagens. Geralmente, cenários são esboçados de leve para que a equipe de assistentes complete os fundos, dê acabamento e aplique efeitos gráficos. É uma linha de produção que padroniza muita coisa, mas preserva o roteiro, a narrativa e os componentes principais do trabalho do autor.


Dragon Ball Z

A Fênix Negra, em um dos melhores momentos dos X-Men de Claremont & Byrne

Mesmo sucumbindo a pressões editoriais por determinados rumos nas histórias, os autores são associados às suas personagens por toda a vida. Não se concebe ler Dragon Ball escrito e desenhado por outro autor que não seja Akira Toriyama, por exemplo. E qual é a identidade dos heróis americanos? Como franquias, são controlados por diferentes pessoas e obedecem a interesses corporativos. Como marcas fortes, os heróis principais jamais terão sua produção encerrada, sendo constantemente reformulados e atualizados. Ou alguém achou que a morte do Super-Homem era pra valer?

A liberdade dos autores sempre passa pela mesa de executivos. Isso também ocorre no Japão, mas se lá o autor não concordar com o rumo pedido pelo editor, ele não será substituído por outro desenhista ou escritor.

Se tivesse sido criado no Japão, teria existido um último capítulo para os X-Men e somente Bob Kane teria feito Batman, dando um fim ao herói quando julgasse oportuno. Claro que isso teria nos privado de obras-primas como Asilo Arkham e Cavaleiro das Trevas, mas graphic novels não são revistas de linha. Os gibis de todo mês é que sustentam o mercado. Lampejos de trabalho autoral em bases regulares foram vistos poucas vezes na indústria americana de super-heróis. Os X-Men de Chris Claremont & John Byrne, o Demolidor de Frank Miller, a Liga da Justiça de J.M. de Matteis, Keith Giffen & Kevin McGuire são algumas exceções, não a regra. Mesmo assim, nenhum destes foi o criador das personagens citadas e nem continuou nas revistas até se chegar a um final definitivo.

FORMATINHO

No desespero de recuperar o terreno perdido para os mangás, a Abril resolveu ressuscitar o formatinho, mas já era tarde. Os leitores que ainda gostavam de quadrinhos já haviam migrado para os gibis japoneses e os que voltaram depararam-se com obras de gosto duvidoso como a saga Mundos em guerra. Isso quando a Abril anunciou que a saga Terceira guerra mundial, escrita por Grant Morrison, não seria publicada por ser considerada de baixa qualidade. Não li a tal saga, mas seria ela tão precária quanto a que nos foi apresentada? Mesmo que fosse boa, conseguiria alavancar as vendas para além do gueto?

Estas sagas costumam exigir a leitura de várias revistas inter-relacionadas, o que normalmente incomoda qualquer leitor. E também, como é de praxe, requerem muito conhecimento prévio.

E assim, com todos esses problemas, alguns vindos dos Estados Unidos e outros próprios daqui, a publicação de heróis regularmente pela Editora Abril chegou a um fim.

O FUTURO

Com o espólio da Abril dividido entre outras editoras, a tendência é que os super-heróis formem de vez um mercado fechado, somente para iniciados, deixando mais caminho livre para os mangás. Um caminho parecido pode se formar para os heróis Marvel no futuro, caso a Panini não tenha aprendido com os erros da Abril.

Claro que o mangá tem suas limitações e defeitos e não representa a salvação dos quadrinhos. Por outro lado, é inegável que a multiplicidade de temas, respeito ao autor e atenção ao grande público são lições importantes a serem observadas. E que, se um povo acostumado com alta tecnologia como é o japonês lê gibis em preto-e-branco editados em papel jornal sem preconceitos, talvez o problema não seja falta de requinte na apresentação do produto. Quem sabe a questão toda esteja em torno do conteúdo e do preço que se pede por ele.

A solução talvez seja voltar ao básico, tratando quadrinhos não como peças para colecionadores, mas como uma forma de entretenimento barato. Uma lição a ser estudada por editores e empresários.