Oscar Explicado: a premiação ainda é relevante?

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Oscar Explicado: a premiação ainda é relevante?

Diretor Daniel Rezende opina sobre o que está por trás da queda da audiência da cerimônia nos últimos 20 anos

Marcelo Forlani, Mariana Canhisares e Victoria Frere Milan
06.04.2021
09h00
Atualizada em
13.04.2021
09h19
Atualizada em 13.04.2021 às 09h19

O Oscar não é mais o mesmo. Do ponto de vista da diversidade, essa afirmação é uma vitória e tanto. Depois de edições dominadas por homens e brancos, nos últimos três anos a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas finalmente começou a atender os apelos por uma lista de indicados mais representativa dos rostos por trás da própria indústria. Por isso, o reconhecimento de Parasita, um longa sul-coreano, como o melhor filme do ano foi muito simbólico, assim como a pluralidade dos títulos e profissionais selecionados neste ano.

No entanto, esta não foi a única mudança que a cerimônia passou. Desde 2001, a audiência do evento segue uma trajetória decrescente, tendo atingido no ano passado seu pior desempenho: 23,6 milhões de espectadores, aproximadamente 20% a menos do que o ano anterior. Não à toa a organização tem tentado revigorar o prêmio, reduzindo sua duração, incluindo mais blockbusters nos indicados e até mesmo deixando para trás a tradicional figura do apresentador fixo. As tentativas de dinamizar o Oscar e, assim, manter o espectador diante da TV alcançaram resultados oscilantes até agora. Logo, é difícil não se perguntar se o problema está mesmo no formato ou se, na realidade, a premiação deixou de ser relevante.

Para o diretor Daniel Rezende, membro da Academia desde 2004, a questão não é tão simples. Em entrevista ao Oscar Explicado (ouça abaixo), ele afirmou que a audiência é um reflexo da mudança de comportamento do público e do próprio mercado. Afinal, ao mesmo tempo que os streamings conquistam um espaço maior na indústria ano após ano, as pessoas passam mais tempo consumindo séries, vídeos no Youtube e stories no Instagram. “Hoje em dia o filme é menos relevante do que era há 10, 15, 20 anos atrás.[...] Antigamente, assistir à cerimônia era um programa. Quem hoje vê qualquer coisa sem olhar as redes sociais? Acho que a audiência talvez seja um reflexo disso."

Para o cineasta brasileiro, porém, esse cenário não quer dizer que o Oscar se tornou insignificante. “Não é por acaso que a gente está aqui falando sobre ele. Talvez ele tenha um pouco menos de relevância. Mas nunca tivemos uma edição como a deste ano", disse, referindo-se à diversidade dos indicados de 2021. "Tem coisas boas e coisas ruins nisso que está acontecendo."

Ainda que enfrente uma crise de audiência, o Oscar continua sendo o evento de cinema mais reconhecível do grande público. "Ele é o único que não precisa de bula", brincou o diretor de Bingo: O Rei das Manhãs e Turma da Mônica: Laços. De fato, as muitas siglas que representam os prêmios dos sindicatos - SAG é o prêmio do sindicato de atores, WGA é o evento do sindicato de roteiristas, entre outros - e até mesmo os festivais de cinema podem confundir. “Quando você fala do Festival de Cannes ou de Berlim, a pessoa já ouviu falar, mas ela não sabe de onde é o Urso de Ouro”. O próprio Daniel Rezende não sabia o que era o BAFTA, prêmio de cinema da academia britânica, no início da carreira, quando foi indicado pela edição de Cidade de Deus. “Lá em 2003, o Fernando Meirelles me escreveu falando 'você está indicado a melhor montagem no Bafta', e eu perguntei 'o que é isso?'." Nesse sentido, não há dúvidas de que a estatueta dourada é bastante autoexplicativa. Ela é o símbolo do que houve de melhor naquele ano, certo? Não exatamente.

"No fundo, o Oscar é um grande comercialzão de quatro horas, que move a indústria três meses antes da cerimônia e dois meses depois”, explicou o diretor brasileiro. “Sempre foi uma festa para promover o mercado deles e que, de vez em quando, entravam uns penetras". Como bem descreveu a diretora Laís Bodanzky no episódio anterior do Oscar Explicado, a premiação manifesta a opinião dos profissionais do próprio setor sobre o que se destacou no último ano. Mas, diante de centenas de filmes elegíveis, quem cava um espacinho na imprensa especializada ou já é um nome conhecido no mercado acaba levando vantagem.

Logo, não dá para falar em um melhor absoluto. Para Rezende, no entanto, o prêmio anual tem sim um papel importante de estimular a evolução do cinema. "Você pode até discordar de quem é indicado, você pode até discordar de quem ganha, mas o Oscar é uma premiação que procura elevar a qualidade: você tenta fazer filmes melhores para que eles sejam indicados e vençam mais para, então, fazer filmes ainda melhores."

De fato, a lista de indicados de 2021 comprova que não há apenas uma maneira de atingir a excelência, mas sim múltiplas - isso sem mencionar os filmes que ficaram de fora da seleção dos membros da Academia. Mesmo assim, apenas um título sairá com a estatueta de melhor filme. Descubra com a gente, acompanhando a live, o site e as redes sociais do Omelete no dia 25 de abril, quando ocorre a cerimônia deste ano.

O que é o Oscar Explicado?

O Oscar Explicado é um projeto original do Omelete, que reúne profissionais gabaritados do cinema nacional para destrinchar a maior premiação do cinema. A primeira temporada discutiu as categorias técnicas da premiação, usando como ponto de partida os indicados de 2020. Agora, adaptando-se à pandemia, a série toma conta do podcast TBT, com episódios inéditos todas as terças e quintas até o dia da cerimônia, em 25 de abril, apresentados por Victoria Milan, Marcelo Forlani e Mariana Canhisares.

Ouça o episódio anterior:

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