Oscar 2020 | Por que Jennifer Lopez foi esnobada?

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Oscar 2020 | Por que Jennifer Lopez foi esnobada?

Esquecimento da Academia pode estar associado à quebra de padrões de seu papel

Julia Sabbaga
06.02.2020
13h02

Durante o último final de semana, Jennifer Lopez fez uma performance histórica no intervalo do Super Bowl que ajudou a cimentar seu legado como uma estrela absoluta do entretenimento. A apresentação impecável, temperada por uma postura desafiadora e confiante, incluiu um item que muitos entenderam como simbólico: um pole. Remetendo à sua memorável performance em As Golpistas, a cantora subiu ao palco quase 20 anos após o auge comercial de sua carreira musical para cantar hits que todo mundo lembra, mas a mensagem que ficou, na verdade, pareceu distante de sua faceta no pop. Todo o espetáculo soou como um grito preciso à Hollywood que dizia: “meu Oscar é desnecessário”.

Logo no domingo seguinte ao Super Bowl, o espetáculo da televisão será outro, e o Oscar entregará suas estatuetas para as performances que considerou as melhores do ano, resumidas em uma lista que muitos consideraram questionável. Um dos principais fatores para isso foi a esnobada de Jennifer Lopez. Sua interpretação como a stripper Ramona ficou claramente entre as mais aclamadas de 2019, e mesmo assim, ela não foi citada entre as indicadas. 

Jennifer Lopez foi lembrada no Globo de Ouro, Critics’ Choice Awards e Screen Actors Guild mas aparentemente não agradou a Academia o suficiente para ser incluída na lista de finalistas. E enquanto as indicações ao Oscar, por muitas vezes, se resumem a intensidade de campanha por nomeações, a ausência de Jennifer Lopez parece muito mais associada a uma questão simples: o ineditismo de seu papel, que talvez não ressoe com os membros de uma tradicional e talvez antiquada Academia. 

Uma das maneiras mais claras de entender o motivo da esnobada de J. Lo é relembrar as últimas latinas indicadas ao Oscar. No ano passado, a mexicana Yalitza Aparicio foi indicada pela performance em Roma, no qual interpreta a empregada doméstica de uma família de classe alta. Antes disso, outros nomes mais relembrados e aclamados por suas performances são atrizes como Adriana Barraza, que interpretou uma babá cruzando a fronteira dos EUA em Babel, ou Catalina Sandino Moreno, protagonista de Maria Cheia de Graça, drama com a delicada sinopse: “uma adolescente colombiana grávida se torna mula de drogas para conseguir dinheiro que a família desesperadamente precisa”. Deu para perceber um padrão?

Ao contrário do familiar estereótipo, a Ramona de Jennifer Lopez é uma mulher distintamente poderosa. Ela é uma stripper, mas sua profissão não é retratada como seu último recurso, e nem como algo que ela precisa passar, sofrer, lidar. Ramona é uma mulher orgulhosa de seu poder magnético, provocadora e empreendedora, que toma sua vida em suas próprias mãos, quebra as regras, e mesmo quando lida com as consequências de suas ações, faz isso de modo sem remorso. Talvez sua postura tenha confundido membros da Academia, desacostumados a assistir este tipo de poder vindo de uma atriz de origem latina. 

O padrão não é exclusivo a este grupo de mulheres, como também tem o seu correspondente para as indicações de atrizes afro-americanas, geralmente aclamadas após performances ligadas a sofrimento intenso. Não é a toa que a única atriz negra indicada ao Oscar este ano é Cynthia Erivo, protagonista de Harriet, que narra a história da escrava e líder abolicionista Harriet Tubman. 

Seria apropriado ver o nome de J.Lo entre as indicadas, até porque este ano a Academia abriu duas vagas só para Scarlett Johansson (em Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante) e citou até Kathy Bates, indicada pela quarta vez, por O Caso Richard Jewell, filme que chegou a ser boicotado em Hollywood por sexismo. Mesmo assim - e como ela mesma deixou claro na NFL - Jennifer Lopez não precisa da estatueta para se reafirmar. Ela segue pioneira (J.Lo foi a primeira latina a ganhar mais de US$ 1 milhão por um papel, na cinebiografia Selena) e agora adiciona outro marco em sua carreira como uma mulher que desafiou os padrões tradicionais da indústria.