Oscar 2020 | Como os maiores indicados revelam uma crise masculina

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Oscar 2020 | Como os maiores indicados revelam uma crise masculina

Separação clara dos gêneros e perspectivas peculiares simbolizam sociedade em transição

Julia Sabbaga
07.02.2020
11h40
Atualizada em
09.02.2020
15h15
Atualizada em 09.02.2020 às 15h15

O cinema serve como um dos maiores reflexos da sociedade. Se não necessariamente reproduz o que o mundo é de fato, a sétima arte no mínimo nos apresenta a visão de uma geração de contadores de história, isto é, o que pensam, problematizam ou simplesmente imaginam. Enquanto produtos de uma sociedade, filmes são objetos de estudo de um tempo, e dizem muito sobre de onde vêm. Por isso, quando a cada ano um grupo de representantes da indústria escolhe os filmes que devem ser prestigiados, a seleção diz algo não apenas sobre a qualidade do cinema no último ano, como também sobre que tipo de discussão e temas estão na mente desta Academia. 

O significado por trás das escolhas do Oscar talvez nunca tenha sido tão transparente como em 2020. A gritante falta de diversidade entre os indicados nas categorias de atuação ou a ausência de uma mulher na categoria de direção diz algo sobre o cinema de 2019 e sobre os membros da Academia, mas mesmo quem não quer problematizar cada uma das escolhas questionáveis da instituição não pode deixar de ver que a maioria dos filmes mais indicados este ano são produções de homens, sobre homens. Três dos filmes mais indicados nesta edição da premiação - Coringa, O Irlandês e Era Uma Vez em… Hollywood - são longas que focam na trajetória masculina e a falta de rumo que se desenvolve quando o homem perde o seu tradicional espaço na sociedade. 

Em Coringa, Arthur Fleck vive em uma sociedade (frase que até virou meme) que o despreza e marginaliza. Em O Irlandês, os protagonistas representam uma organização criminosa que perde seu espaço com o passar do tempo. Em Era Uma Vez em… Hollywood, talvez o exemplo mais claro desta ideia, Leonardo DiCaprio vive um ator em crise por ter passado o auge de sua carreira e não encontrar mais o seu lugar na indústria. Enquanto as narrativas, épocas e estilos são absolutamente diferentes, algo tornou a seleção de filmes do Oscar tão característica que sua familiaridade salta aos olhos. 

Com exceção de Adoráveis Mulheres, que também não colabora para inclusão de narrativas não-brancas, mas apresenta uma visão feminina, e Parasita, representante de uma diversidade mínima, que foca mais em questão de classe do que qualquer outro aspecto, todos os indicados a Melhor Filme em 2020 destacam a perspectiva e o sofrimento masculino. 1917 é um filme de guerra, e não surpreendentemente não foca em problemáticas de outros indivíduos senão soldados, e Jojo Rabbit, apesar da perspectiva infantil, não foge à regra. Até História de uma Casamento, que pretende estudar a brutalidade do fim do amor e uma separação, é a perspectiva de seu diretor, Noah Baumbach, sobre seu divórcio de Jennifer Jason Leigh

Vale notar que nada disso diz respeito, necessariamente, à qualidade dos filmes indicados. A história da Academia já passou por alguns anos sofríveis e premiou longas que ninguém se lembra, e 2020 passa longe disso. O ano trouxe o filme mais pessoal de Tarantino, o longa que pode ser considerado o encerramento de um ciclo para os filmes de gângsters de Scorsese e uma realização técnica espetacular de Sam Mendes. Como se não bastasse, ele também introduziu nomes novos à categoria, que prestigiam trabalho de outros países, gêneros e celebram produções de nomes mais recentes. Não há exatamente algo de “errado” no Oscar de 2020. Ele é um simples produto interessante de um ano peculiar para o cinema. 

Parte disso é resultado de uma divisão clara que aconteceu no ano passado. Como bem destacou Steve Rose, do The Guardian, existiu uma clara distinção entre os filmes protagonizados por homem e os filmes focados em mulheres este ano. Enquanto os concorrentes ao Oscar na temporada de premiação se distinguem em longas como Coringa, O Irlandês, Ford Vs. Ferrari, Dois Papas ou até O Farol, de outro lado temos O Escândalo, Adoráveis Mulheres, As Golpistas. A segmentação é tão clara que os indicados de atuação este ano, de modo geral, protagonizam longas focados em seu próprio gênero. 

Claro que as escolhas do Oscar estão associadas à uma Academia majoritariamente formada por homens brancos, e isso não surpreende ninguém em 2020. Mas a semelhança dos longas em destaque são resultado de um tempo de discussão sobre a masculinidade tóxica e o empoderamento feminino, que causa, no mínimo, uma reflexão dos homens sobre seu espaço na sociedade, justamente em um contexto de batalha para tirar o predomínio do homem branco. 

É curioso também que isso tenha acontecido logo após o movimento Me Too, o que pode remeter tanto à uma reação masculina de se afastar da narrativa das mulheres, como também a um movimento claro de resistência a histórias e perspectivas femininas. Mas enquanto os indicados bem nos mostram que a mudança ainda demorará para vir, eles também são representantes de uma crise e introdução de uma nova era.