Oscar 2020 | Nos esportes e na guerra: quando o cinema deixa que homens chorem

Créditos da imagem: 20th Century Studios/Divulgação

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Oscar 2020 | Nos esportes e na guerra: quando o cinema deixa que homens chorem

Cinema traz na prática esportiva uma das poucas formas de protagonistas lidarem com suas emoções sem perderem sua masculinidade

Nicolaos Garófalo
05.02.2020
22h59
Atualizada em
05.02.2020
23h10
Atualizada em 05.02.2020 às 23h10

Apesar da expressão “masculinidade frágil” ter recentemente virado jargão popular, seus efeitos na cultura pop são sentidos há décadas. Se nos quadrinhos homens fortes, viris e heroicos descontam suas emoções e decepções em vilões com emocional igualmente reprimido, o cinema traz, além da violência, uma segunda válvula de escape que permite aos protagonistas acalmar seus sentimentos sem ferir sua masculinidade: o esporte.

Muitas vezes, a relação que os homens têm com a prática esportiva vem do berço. As diferenças entre gerações criam um certo afastamento emocional entre pais e filhos e, muitas vezes, o esporte se torna um meio de conexão e compreensão nesse núcleo masculino da família, que se sente mais à vontade para expor suas ansiedades, tristezas e alegrias em comemorações de títulos ou derrotas em jogos eliminatórios. Recentemente, a série Crazy Ex-Girlfriend parodiou essa relação não tão sadia em sua quarta temporada por meio da canção “Sports Analogies”, em que Josh (Vincent Rodriguez III) e Nathaniel (Scott Michael Foster) só conseguem se entender ao usar referências esportivas – assista abaixo: 

Boxe, futebol americano, baseball, basquete, corridas, trenó – não existe uma modalidade que ainda não tenha sido usada para que a união de um grupo de homens não invalide sua masculinidade. Exemplos clássico desse estilo de filme são Golpe Baixo (1974), estrelado por Burt Reynolds; Duelo de Titãs (2000), protagonizado por Denzel Washington; o indicado ao Oscar 2020 Ford vs Ferrari; e, é claro, a franquia Rocky, cuja fala “eu tenho uma fera dentro de mim”, proferida por Sylvester Stallone no sexto longa, escancara a conexão entre o esporte e emocional masculino, já que a tal “fera” só seria expurgada após o sexagenário lutador sobrevivesse uma nova luta contra o então campeão mundial de boxe.

Se em Ford vs Ferrari, por exemplo, uma das primeiras cenas em que vemos a relação de amizade entre os personagens de Matt Damon e Christian Bale é justamente quando os dois brigam em frente à casa Ken Miles (Bale), o resto do filme foca em como o mundo das corridas completa definitivamente as vidas dos dois protagonistas. Miles, aliás, tem uma vida aparentemente perfeita, com uma família compreensiva, mas é apenas por meio de seu trabalho como piloto que consegue expressar seus sentimentos.

Associar o “homem-macho” com o esporte para evidenciar suas emoções no cinema não tem fundamentos apenas em suas relações no mundo real. O histórico de personagens carrancudos, “homens de verdade”, criado em clássicos de faroeste ou mesmo nos filmes de 007 fizeram com que o padrão de representação da masculinidade  se mantivesse por décadas na indústria. Personagens eternizados por Clint Eastwood e Sean Connery, por exemplo, apresentavam duas vertentes do que um homem deveria ser: alguém sério, reservado e que não atura nenhum tipo de desrespeito, resolvendo qualquer discussão na bala, ou um galanteador com total desapego emocional, que usa mulheres como objetos para alcançar seus objetivos.

Não à toa, filmes esportivos, que costumam apresentar relações mais profundas de companheirismo e uma maior exploração emocional e psicológica de seus personagens masculinos, fascinam até hoje por permitir que homens chorem e, ainda assim, mantenham sua masculinidade intacta, mesmo em casos de derrota, como no primeiro Rocky ou em Ford vs Ferrari. Por causa da cultura esportiva de berço, a conexão entre homens e o esporte valida demonstrações de afeto que deveriam ser consideradas normais em qualquer situação.

Outro gênero em que esse paralelo se faz presente é no cinema de guerra. Assim como em filmes de esportes, os protagonistas de longas como 1917, também indicado ao Oscar deste ano, Dunkirk (2017), O Resgate do Soldado Ryan (1998) e Apocalypse Now (1979) têm suas reações emocionais compreendidas com maior facilidade pelo público por causa das atrocidades que vivenciam. Além disso, muitos destes filmes ainda se valem do valor histórico das guerras para justificar seu apelo sentimental sem “ferir” a hombridade de seus protagonistas.

Responsável por grandes clássicos do cinema – como os longas já citados acima -, o esporte e a guerra se conectam com facilidade com o público por sua grandiosidade, mas, ao mesmo tempo, reforçam em alguma medida o estereótipo de que apenas esses eventos além do cotidiano , e não uma busca mais profunda  por autoconhecimento, permitem a expressão de emoções.