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Gay Nerd | A importância da vitória de Moonlight no Oscar 2017

Mais do que um grande filme, o longa de Barry Jenkins inclui um público marginalizado em Hollywood

Igor Esteves de Oliveira
27.02.2017
21h14
Atualizada em
29.06.2018
02h43
Atualizada em 29.06.2018 às 02h43

Existe um conjunto de significados no prêmio de melhor filme do Oscar 2017 que podem ser analisados em diferentes camadas. Nenhuma das razões que dão o merecimento da vitória de Moonlight - Sob a Luz do Luar reduzem o brilho de La La Land - Cantando Estações, no entanto. O musical do jovem Damien Chazelle e o drama de Barry Jenkins abordam questões em campos bem distintos e provocam sentimentos que não se assemelham em natureza. Ambos possuem temas que podem ser recebidos universalmente, temas que são, cada um de sua forma, necessários para nosso tempo. E acima de tudo, temos dois filmes incríveis. Ainda assim, Moonlight ilumina a representatividade de um público marginalizado que ganha, com essa vitória, seu espaço na grande Hollywood. 

A sensibilidade com que a vida do protagonista Chiron, da infância à fase adulta, é desenvolvida é um dos grandes acertos do filme, que consegue transmitir sua mensagem sem apelar ao melodrama e apostando em diálogos marcados por momentos de silêncio. Tudo que não é dito pelo protagonista pesa, especialmente em quem já deixou de dizer algo ou se expressar para que não fosse exposto e ridicularizado.

A mãe de Chiron (Naomie Harris), em uma conversa com Juan (Mahersala Ali), o traficante que apadrinha o garoto em sua infância, aponta como filho anda de forma afetada. Vemos também Little Chiron na aula de dança, onde demonstra desenvoltura e movimentos soltos, se destacando das outras crianças. Temos a pergunta que ele faz a Juan, em um dos momentos mais intensos do filme, sobre o que é ser bicha (em inglês, é usado o termo faggot, de significado pejorativo semelhante), algo que deve ouvir com frequência em sua infância perseguida – em casa, na escola e nas ruas. São momentos apresentados ainda no primeiro ato e que constroem sob o silêncio e o jeito contido do protagonista a repressão de quem tem que deixar de ser quem se é.

É muito real e próximo de quem assiste como a homossexualidade de Chiron desaflora. Quando vi Little dançando não pude deixar de olhar para o meu parceiro, com quem eu assistia ao filme e quem havia me contado sobre como gostava de dançar na infância e como isso o fazia demonstrar certa feminilidade desde cedo. Eu mesmo me encontrei na adolescência do protagonista, de moleque magro e desajeitado, quieto, que fantasia sobre as aventuras sexuais contadas por amigos. E seu primeiro contato íntimo com um garoto, em um momento apresentado delicadamente, em que se vê nele um conflito entre a felicidade de encontrar carinho em meio a tanta violência e a culpa pelo prazer que sente, com certeza encontra em muitos um espaço de identificação afetuosa. 

Essas observações podem ser feitas em camadas e deixam o filme único – apenas apresentei o que foram minhas impressões como um homem branco e gay. O elenco, de grande peso e talento, é inteiro de pessoas negras e isso traz um universo além da representatividade. Um exemplo é como o crime funciona para os personagens, sendo um destino difícil de se desviar. Eu trabalho em um projeto educacional com adolescentes em regiões carentes de São Paulo e me emocionei ao lembrar de alguns deles quando o vício em crack da mãe de Chiron tem seus desdobramentos apresentados. E, ainda que muitas das situações fujam do meu domínio pessoal, são questões pelas quais me solidarizo e nas quais encontro uma empatia que me comove. 

Tudo funciona de forma orgânica e sincera, para que uma boa história seja contada, e você não precisa se identificar com seus temas para que o veja como um baita filme. Como disse a majestosa Viola Davis em seu discurso, ao ganhar o Oscar de melhor atriz coadjuvante, os atores são “a única profissão em que se celebra o que significa viver”. E Moonlight é sobre vidas que existem, mas que têm sua beleza ignorada. Nos resta torcer para que seu impacto não se limite ao prêmio que levou e que alcance um público maior – a Netflix já anunciou que o filme chegará aos assinantes da América Latina na primeira metade do ano.  O filme pode ser visto como um importante exercício de empatia, para que outras obras parecidas ganhem mais espaço e que a diversidade de histórias contadas pelo cinema só se enriqueça, para que mais personagens marginalizados, como Chiron e como os muitos que se identificarão com ele, ganhem seu espaço de luz.

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