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Artigo

De Rambo a Old Guard! A evolução da ação no cinema

Entenda como a pandemia pode afetar o gênero nos próximos anos

Marcelo Hessel
13.07.2020
15h39

Como vai ser o filme de ação depois da pandemia? De uma forma intencional ou inconscientemente, o cinema sempre é um Raio-X do seu tempo. No caso de The Old Guard, por mais que a história termine numa nota otimista, o tom de esgarçamento e de impaciência com que os guerreiros imortais encaram novos e repetidos desafios tem muito a ver com o clima de fim dos tempos que encaramos neste novo século, em que nossos modos de viver parecem todos ultrapassados, improdutivos, vazios de sentido.

No passado, Hollywood e o cinema de ação mundial responderam a dilemas existenciais e sociais de maneiras muito distintas. A derrota americana no Vietnã concebeu uma geração de heróis sobre-humanos como Rambo e Braddock - os anos dos grandes heróis de ação musculosos e de poucas palavras, como Sylvester Stallone, Steven Seagal e Arnold Schwarzenegger - como se isso, de algum jeito, remediasse a moral do país. Quando esses filmes pegam a virada dos anos 80 para os 90, a desesperança da Geração X e o clima de fim de século resultam em heróis suicidas de ação, de John McClane em Duro de Matar aos icônicos papéis que Chow Yun-fat viveu nos filmes que definiram a carreira do diretor John Woo, como Alvo Duplo (1986) e O Matador (1989).

Então voltamos aos anos 2020. Em The Old Guard, uma conexão psíquica une os guerreiros quando uma nova imortal surge no planeta. Se há um incentivo que serve de alento para a Velha Guarda no combate dia após dia é essa camaradagem: eles precisam uns dos outros, antes de mais nada, para fazer companhia século após século. Esse misticismo não é estranho a outros filmes e séries que apostam nas conexões globais inexplicáveis, como Sense8, também da Netflix. Já no terreno das apostas, é possível notar que - numa época em que o esoterismo e a espiritualidade voltam a ganhar força ante o descrédito na ciência - o cinema de ação tende a seguir o mesmo caminho.

Logo teremos na tela uma nova adaptação de Duna (que une o ambientalismo a uma história essencialmente mística e messiânica) e também a volta de Matrix (que desde o primeiro filme promove o encontro da filosofia com a espiritualidade). Não são apenas os filmes de ação e aventura mais esperados dos próximos anos; são, também, duas produções de franquia que podem indicar o norte de como esse gênero vai se comportar pós-pandemia. Matrix vai dobrar a aposta nos estímulos sensoriais e nas conexões metafísicas, como o Sense8 das irmãs Wachowski? Ou vai escolher o escapismo feliz das projeções da Matrix, como Jogador Número 1 (menos às terças e quintas-feiras!)?

Em breve saberemos. O fato é que o mundo, hoje, parece bem mais disposto a aceitar histórias carrregadas de um misticismo inexplicável, que leve a mente para outro estado ou outro lugar, e assim resolva os problemas que, rotineiramente, nos parecem insolucionáveis aqui na Terra doente e superpovoada.