Neil Gaiman, 60 anos: A obra e o legado do autor de Sandman e outros clássicos

Créditos da imagem: Charley Gallay/AFP

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Neil Gaiman, 60 anos: A obra e o legado do autor de Sandman e outros clássicos

Escritor e roteirista que revolucionou fantasia na literatura e nos quadrinhos ao longo dos anos 1990 e 2000 faz aniversário nesta terça-feira (10)

Gabriel Avila e Nicolaos Garófalo
10.11.2020
11h20

Poucos autores cravaram seu nome na história das artes como o aniversariante - e convidado de honra da CCXP Worlds - Neil Gaiman. Escritor de mão cheia, o britânico é reconhecido especialmente por dar vida a quadrinhos, livros e contos fantásticos que entraram para o cânone da cultura pop por construir mundos únicos, de forma bela e inovadora, em obras de grande sucesso que vão da fantasia ao horror, passando pela ficção científica e contos infantis, nas páginas mas também nas telas do cinema e da TV, e até mesmo na música.

Nascido em 10 de novembro de 1960 no sul da Inglaterra, Neil Richard Gaiman se tornou um leitor entusiasmado já na infância, tendo como grandes influências O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien e As Crônicas de Nárnia, de C. S. Lewis. Com a literatura como grande companheira, Gaiman chegou à vida adulta com o sonho de se tornar escritor. Seu contato com o mundo literário começou pelo jornalismo, na década de 1980, escrevendo críticas e fazendo entrevistas para conhecer melhor os bastidores dessa arte. As HQs ganharam sua atenção mais ou menos nessa época, quando passou a consumir mais revistas depois de ler uma edição da fantástica fase de Alan Moore à frente do Monstro do Pântano.

Seu primeiro livro publicado foi uma biografia da banda Duran Duran, durante o período em que escrevia artigos e contos para grandes revistas britânicas, além de roteirizar histórias para a icônica HQ britânica 2000 AD. Mas o trabalho de sua vida veio pela DC Comics em 1989: Sandman. A HQ, que em breve ganhará uma série na Netflix, mudou os rumos não apenas da carreira de Gaiman, como ajudou a popularizar os quadrinhos adultos no mainstream dominado por super-heróis.

O resto, é história. E são os pontos altos dessa história que relembramos neste dia 10 de novembro, quando Gaiman completa 60 anos.

Sandman

Os perpétuos de Sandman
Divulgação/Vertigo

A magnum opus de Gaiman, Sandman é constantemente lembrada em listas de melhores histórias em quadrinhos de todos os tempos. A história de Sonho dos Perpétuos começou a ser publicada em 1989 e, ao longo de sete anos, contou com alguns dos artistas mais reconhecidos da indústria, como Jill Thompson, Sam Keith, Kent Williams e Kelley Jones.

Misturando elementos de fantasia e terror, Sandman já trazia aspectos que se tornariam constantes no resto da obra de Gaiman, incluindo referências a crenças, religiões e mitologias de diferentes momentos da história e a construção de universos fantásticos que se misturam, e às vezes até se confundem, com mundos extremamente semelhantes à realidade.

As escolhas então incomuns de Gaiman em termos de estruturas narrativas, temas abordados e retrato de personagens renderam não só um reconhecimento crítico comparável ao Watchmen do colega Alan Moore, mas também mais de 20 troféus do Prêmio Eisner, incluindo três de melhor série recorrente e dois de melhor roteirista. Os efeitos de Sandman na DC e na Vertigo foram tão significativos que o personagem (ou pelo menos uma versão dele) chegou a aparecer em outras histórias da editora, como o arco Noites de Trevas: Metal.

Gaiman retornou ao personagem duas vezes. A primeira foi em 2013, quando se juntou ao artista Joshua J.H. Williams III para escrever Sandman: Prelúdio, HQ que narra as batalhas que exauriram Morfeus e permitiram que ele fosse capturado no começo da obra original. Seu retorno mais recente foi em 2018, desta vez no cargo de supervisor, após a DC lançar a linha Sandman Universe, com histórias baseadas no universo criado pelo autor no final dos anos 1980. O roteirista também serve como produtor da adaptação live-action que está sendo produzida pela Netflix.

DC Comics/Vertigo

Grandes obras de Neil Gaiman na DC e na Vertigo
Divulgação/DC Comics

Apesar de ser mais conhecido pelos fãs da DC (e de quadrinhos em geral) por seu trabalho em Sandman, Gaiman estreou na editora em Orquídea Negra, minissérie de 1988 que conta a história de duas das personagens que usaram o manto da heroína. Bem-recebida pela crítica e pelo público, a HQ abriu caminho para que a DC, por meio da Vertigo, lançasse uma nova série protagonizada pelas versões da heroína criadas por Gaiman e pelo artista Dave McKean.

Já familiarizado com o universo DC, tendo incluído personagens como Batman, Constantine, Caçador de Marte, Monstro do Pântano, Lex Luthor e Doutor Destino em Sandman e Orquídea Negra, Gaiman foi o escolhido para dar início a Os Livros da Magia, série sobre um jovem garoto que descobre ter um grande potencial para as artes místicas. Autor das quatro primeiras edições do título, publicadas em 1990, ele introduziu o adolescente Tim Hunter em uma rica expansão dos conceitos mágicos da DC, com ideias que hoje são constantemente comparadas à franquia Harry Potter, que só chegaria às livrarias sete anos depois.

Em 2009, Gaiman teve a oportunidade de trabalhar com dois elementos clássicos da DC. Fazendo referência ao ótimo O Que Aconteceu ao Homem de Aço, escrito por Moore em 1986, o roteirista trabalhou em O Que Aconteceu ao Cavaleiro das Trevas, que explora diferentes versões da morte do Batman. Ilustrada por Andy Kubert, a história mostra o velório do Homem-Morcego, que recebe aliados e inimigos, cada um contando uma versão diferente da morte do herói, que assiste a tudo como um convidado invisível.

A DC também foi a responsável pela publicação original de Stardust, em 1997. Segundo Gaiman, o título sempre foi planejado mais como um livro ilustrado do que como um quadrinho. Com imagens de Charles Vess, a obra conta a história do jovem Tristan, que enfrenta uma aventura fantástica em busca de uma estrela cadente, para presenteá-la à mulher que ama. Gaiman a considera um “conto de fadas para adultos”, com assassinatos, política e sexo.

Entre os outros trabalhos do autor publicados pela editora estão Mr. Punch, versão para uma tradicional peça infantil inglesa com fantoches; Dias Da Meia Noite, uma compilação de histórias do escritor para o selo criada para aproveitar a popularidade de Gaiman e Sandman; e A Cruzada das Crianças, crossover de alguns dos principais títulos da Vertigo, incluindo Patrulha do Destino, Monstro do Pântano e Homem-Animal.

Marvel Comics

HQs de Neil Gaiman para a Marvel Comics
Divulgação/Marvel Comics

Tecnicamente, o primeiro trabalho de Neil Gaiman para a Marvel foi publicado enquanto ele ainda trabalhava em Sandman para a DC. Em 1994, o autor roteirizou os quadrinhos que integravam o álbum conceitual The Last Temptation,de Alice Cooper. Seu projeto seguinte para a Casa das Ideias foi uma história em Heroes, quadrinho beneficente em homenagem aos atentados do 11 de setembro.

Sua entrada no Universo Marvel propriamente dito aconteceria apenas em 2003, na minissérie 1602, cuja proposta é tão engenhosa quanto simples. Na história, Gaiman imaginou grandes heróis da editora - como Homem-Aranha, X-Men e o Quarteto Fantástico - durante a Inglaterra renascentista. Mais do que simplesmente dar novas origens e trajes para os personagens, o enredo os coloca em meio a personalidades reais e flerta com literatura clássica em um belíssimo universo alternativo.

Gaiman voltaria à Marvel em 2007 para criar uma nova versão dos Eternos, equipe criada na década de 1970 que aos poucos caiu no esquecimento. Com arte de John Romita Jr., a publicação traz o time liderado por Ikaris ao mundo moderno, servindo tanto como homenagem quanto continuação do trabalho de seu criador, Jack Kirby.

A essa altura o leitor mais experiente deve estar se perguntando: mas e Miracleman? Primeiro é importante lembrar que Gaiman assumiu o título em 1989, logo após o final da histórica fase de Alan Moore à frente do personagem - que ainda se chamava Marvelman. A fase foi abruptamente encerrada após sete edições por conta da falência da editora Eclipse, seguida de uma longa batalha judicial pelos direitos do título, que só chegou ao fim em 2013, quando a Marvel Comics anunciou sua compra. Além de anunciar reimpressões de antigas histórias do personagem, a editora prometeu que Gaiman voltaria ao título para terminar sua passagem conforme planejado - o que ainda não aconteceu até a publicação deste texto.

Quadrinhos autorais

HQs autorais de Neil Gaiman
Divulgação

A carreira de quadrinhos de Neil Gaiman começou em 1986, quando roteirizou histórias curtas de Choques Futuristas de Tharg, da icônica 2000 AD, publicação britânica que revelou grandes nomes como Alan Moore, Grant Morrison, Garth Ennis e mais. Suas curtas histórias dessa fase inicial foram publicadas no Brasil na revista Juiz Dredd Megazine da Mythos.

Seu primeiro trabalho de fôlego foi Violent Cases, criada em parceria com Dave McKean, lendário artista que voltaria a colaborar com Gaiman em outros quadrinhos autorais, como Sinal e Ruído, Mr. Punch, além de livros infantis.

Fora das grandes editoras, mas ainda no universo dos heróis, Gaiman teve uma breve passagem pelos títulos de Spawn nos anos 1990. Seu grande legado desse período foi a criação de Ângela, personagem que anos depois acabaria no Universo Marvel após uma disputa judicial entre o autor e Todd McFarlane, dono da franquia.

No início dos anos 2000, Neil Gaiman publicou uma leva de quadrinhos autorais pela Dark Horse. Nessa fase, o autor escreveu A Paixão do Arlequim com John Bolton, adaptou seu conto Criaturas da Noite com Michael Zulli e teve seu conto Mistérios Divinos adaptado para os quadrinhos por P. Craig Russell, além de escrever uma curta história de The Spirit, clássico herói de Will Eisner.

Vale destacar ainda sua participação em The Matrix Comics, e também Como Falar Com Garotas em Festas, uma adaptação em quadrinhos do conto homônimo de Gaiman, produzida pelos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá.

Literatura

Neil Gaiman na literatura
Divulgação

Gaiman acumulou uma volumosa bibliografia de contos e livros ao longo de sua carreira. Prosa, poesia, infantil, adulto, ficção-científica, fantasia, terror, comédia, biografia - o escritor passou por praticamente todos os estilos e gêneros desde que lançou seu primeiro conto, em meados dos anos 1980.

Embora seu primeiro romance, Belas Maldições, tenha co-autoria de Terry Pratchett, é inegável a influência do criador de Sandman nos elementos místicos da obra. Mas foi com Deuses Americanos que Gaiman finalmente alcançou sucesso nas livrarias. Assim como na HQ que o consagrou, o autor usou diversos elementos de mitologias e religiões antigas e atuais para montar sua narrativa, inserindo divindades, novas e já conhecidas, em um cenário contemporâneo. A modernização que Gaiman trouxe a esses deuses foi repetida em Os Filhos de Anansi, de 2005, que cita personagens retratados em Deuses Americanos.

Gaiman também se destacou na literatura infantil. Tanto Coraline quanto O Livro do Cemitério, aventuras de terror voltadas para crianças, foram elogiadíssimas pela crítica especializada após seu lançamento, marcando presença em várias listas de melhores livros infantis do século, e conquistaram legiões de fãs ao redor do mundo.

Coraline transcendeu as barreiras da literatura graças às várias adaptações que recebeu ao longo dos anos. Além da versão cinematográfica em stop-motion criada pelo diretor Henry Selick, o livro foi adaptado para videogames, quadrinhos e peças de teatro, e foi parodiado em um episódio de Os Simpsons.

O trabalho literário recente mais notável de Gaiman é Mitologia Nórdica, de 2017. No livro, o escritor recria diferentes contos e lendas da tradição que dá título ao livro.

Outras mídias

Adaptações de obras de Neil Gaiman no cinema e na TV
Divulgação

Com uma enorme obra em livros e quadrinhos, não é de se estranhar que Neil Gaiman tenha chegado também ao cinema e à TV. Curiosamente, seu primeiro contato com a sétima arte aconteceu por meio do filme Princesa Mononoke do Studio Ghibli, cuja adaptação para o inglês ficou por conta do autor. Seus primeiros roteiros originais para o cinema foram os de A Short Film About John Bolton, documentário lançado direto em vídeo sobre a vida e obra do artista John Bolton, e Máscara da Ilusão, dirigido por seu antigo parceiro dos quadrinhos Dave McKean. Gaiman também co-escreveu A Lenda de Beowulf, adaptação do clássico poema épico com direção de Robert Zemeckis (De Volta para o Futuro; Forrest Gump).

Dentre os filmes que adaptam suas obras, destacam-se Stardust: O Mistério da Estrela, de 2007, além de Coraline e o Mundo Secreto, de 2009. Outra de suas publicações a chegar às telonas foi Como Falar com Garotas em Festas, que adapta um de seus contos, que já havia sido levado aos quadrinhos pelos gêmeos brasileiros Fábio Moon e Gabriel Bá.

Já na TV, Neil Gaiman ingressou ainda em 1996 com Neverwhere, minissérie criada para a BBC Two,que ganhou adaptações em livro e até quadrinhos pela Vertigo. Ele voltaria a ser destaque nas telinhas 15 anos depois, ao escrever “The Doctor’s Wife”, episódio da sexta temporada do revival de Doctor Who. A ideia de Gaiman de dar vida à TARDIS, nave em que o Doutor e seus companheiros viajam, foi elogiada pelos fãs da série, assim como sua capacidade de unir comédia, terror e ficção científica, ao mesmo tempo que expandia as ideias de um dos seriados mais queridos do Reino Unido. Seu retorno à série, “Nightmare in Silver”, no entanto, foi mais controverso, e raramente é lembrado pelo público de maneira alegre.

Já em 2016, Gaiman teve alguns de seus contos adaptados na série Neil Gaiman's Likely Stories. Ainda naquele ano, aconteceu a estreia de Lucifer, que é levemente inspirado na versão criada por Gaiman nas HQs de Sandman.

Dentre as séries baseadas em livros do autor, destacam-se ainda Deuses Americanos e Belas Maldições, que adapta o livro de mesmo nome escrito por Gaiman em parceria com o Terry Pratchett. Atualmente, a aguardada adaptação de Sandman está em produção pela Netflix, com envolvimento direto do autor, que afirmou ter sentido uma “profunda emoção” ao assistir uma das cenas.

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