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Sugestões dos chefs: <i>Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band</i>

Sugestões dos chefs: <i>Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band</i>

Alexandre Nagado
28.01.2004
01h00
Atualizada em
20.11.2016
21h08
Atualizada em 20.11.2016 às 21h08

Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band - The Beatles

Lançamento: 10/06/1967

Produtor: George Martin

The Beatles
John Lennon: voz, violão, guitarra e piano
Paul McCartney: voz, baixo, violão, piano e guitarra
George Harrison: guitarra, voz, violão e cítara
Ringo Starr: bateria, voz e percussão



E mais:
George Martin ao piano e orquestras de música ocidental e música indiana.

Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band
With a little help from my friends
Lucy in the sky with diamonds
Getting better
Fixing a hole
She´s leaving home
Being for the benefit of Mr. Kite
Within you, without you
When I´m sixty-four
Lovely Rita
Good morning, good morning
Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club Band (reprise)
A day in the life











Todas as músicas compostas por Lennon e McCartney, exceto a faixa 8, por Harrison.

Os Beatles atravessaram a década de 1960 não apenas com grandes sucessos comerciais, mas também com uma insaciável curiosidade musical e muitas inovações sonoras. Sempre pesquisando novos timbres, efeitos de estúdio e as melhores combinações para as habilidades do quarteto, seu ápice criativo veio em seu oitavo disco de estúdio, o lendário Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band.

Em Help (de 1965), a música "Yesterday" mostrou pela primeira vez uma orquestra de cordas. Em Rubber Soul (também de 1965), eles usaram pela primeira vez no pop ocidental um instrumento de música indiana, na faixa "Norwegian wood". Em Revolver (1966), mais experimentalismo sonoro com "Tomorrow never knows" e um mergulho de cabeça no som indiano com "Love you to" e no psicodelismo de "Yellow Submarine".

Todas essas mudanças graduais e importantes foram um balão de ensaio e prepararam o terreno para Sgt Pepper´s, lançado em 1967.

Um álbum conceitual

Paul McCartney achava curiosos e divertidos os longos nomes de tantas bandas psicodélicas que apareciam naquela época nos EUA e quis inventar um nome que soasse bem para embalar o próximo disco dos Beatles.

Sua idéia era a de que seria um disco tocado por uma banda de fanfarra imaginária, e todo o trabalho daria essa idéia. Um álbum conceitual e um evento por si só. Uma idéia talvez meio ingênua, mas que veio embalada por uma sucessão memorável de sucessos de público e crítica. O disco foi produzido para apresentar dois lados de música contínua, sem intervalos entre as faixas, da apresentação à despedida da banda.

Mas se o nome do álbum e seu conceito eram motivo de empolgação para Paul, John Lennon achava tudo isso uma grande bobagem. Ele dizia que as músicas que compôs para o disco caberiam em qualquer outro álbum do grupo, independente do tal "conceito". E ele estava certo. Mas certamente o conceito de Paul foi um gancho de marketing muito bom, como o tempo provou. As sessões de gravação ainda renderam dois singles fantásticos, "Strawberry fields forever" e "Penny Lane", que não entraram no álbum. Na verdade, poucos singles foram incluídos em álbuns ao longo da carreira dos Beatles.

A elaborada capa assinada por Peter Blake (projeto visual) e Michael Cooper (fotos), que não tem o mesmo impacto quando vista no reduzido formato do CD, traz uma reunião de pessoas famosas que, de um jeito ou de outro, influenciaram a arte ou a História do século XX. As sugestões de pessoas a terem suas ampliações fotográficas incluídas na foto de capa foram de Paul, John e George Harrison. Entre as personalidades escolhidas, estavam Marlon Brando, Carl Jung, Marilyn Monroe, Bob Dylan, Albert Einstein, Lewis Carrol, o Gordo e o Magro, Marlene Dietrich, Shirley Temple e vários outros famosos do passado, incluindo também atletas, gurus e políticos. E bonecos representando os próprios Fab Four em início de carreira foram incluídos na insólita composição visual. Ao centro, os verdadeiros Beatles apareciam trajando coloridas e psicodélicas fardas militares.

As músicas

A música-tema que abre o disco faz a apresentação da fictícia banda e seu líder Billy Shears, mais um nome da galeria de personagens criados pelo incansável Macca. É um rock memorável, vigoroso e com toda a potência vocal de seu compositor.

Em seguida, ouve-se a voz grave e forte de Ringo Starr, cantando uma música de Lennon & McCartney escrita especialmente para ele, que entra emendada com o final da faixa 1. Com letra poética e sentimental, a belíssima "With a little help from my friends" acabou sendo regravada por Joe Cocker e sendo utilizada anos depois na abertura do seriado Anos incríveis (Wonder Years).

A faixa 3, "Lucy in ths sky with diamonds", foi muito comentada na época graças às suas iniciais, que formavam a sigla LSD. Segundo Lennon, a idéia veio de um desenho de seu filho Julian e não tinha relação com alusão ou apologia às drogas. Não adiantou nada e mais uma lenda foi acrescentada à história do quarteto. Entra depois outro rock de Paul, a poderosa "Getting better", música arrasa-quarteirão sobre um homem rude que melhora com a idade. "Fixing a hole", também de Paul, é a seguinte, com uma letra despretensiosa que supostamente menciona estados alterados da mente.

"She´s leaving home", escrita por Paul (com a ajuda de John), é uma triste canção que fala sobre uma garota que fugiu de casa, mesmo tendo tudo, segundo a ótica de seus pais. A letra foi inspirada numa notícia de jornal da época. Um clima sentimental e erudito, que é seguido pelo bom humor que pontua a faixa seguinte, "Being for the benefit of Mr. Kite", música de John que fala sobre artistas de circo.

O lado B do vinil abria com "Within you, without you", uma música de George Harrison com uma letra profunda e inspirada que fala sobre relacionamentos. A música é uma seqüência natural de "Love you to", do disco anterior, e é outra incursão de George no estilo peculiar da música indiana. É uma música-solo de George, acompanhado de músicos convidados.

Em seguida, "When I´m sixty-four" contava uma singela historinha sobre o envelhecimento, citando personagens e suas vidas cotidianas, bem ao estilo de Paul, que escreveu a estrutura básica da canção quando tinha apenas 16 anos. Seu arranjo orquestrado ao estilo de velhas canções dos anos 30, aliado à doçura com que é cantada, conforta o coração de qualquer um. "Lovely Rita" e "Good Morning Good Morning" (de Paul e John, respectivamente) são rocks mais ingênuos e vibrantes, mostrando que os Beatles alegres e festivos dos primeiros anos ainda faziam música por pura diversão.

E volta a música-tema do disco. Mas ao invés de ser só uma reprise, a faixa 12 tem uma pegada mais roqueira e uma letra diferente, com a despedida da banda do Sargento Pimenta agradecendo a audição, abrindo espaço para o grand finale.

Fechando o disco, entra "A day in the life", arrebatadora música composta e cantada em sua maior parte por John (inspirado por notícias do jornal), pontuada por uma bateria ousada, acordes arrepiantes no piano (tocado por Paul) e uma grande sacada instrumental. Em dois momentos, na metade e no final, John pediu ao produtor George Martin um som que "viesse do nada e fosse ao infinito". O resultado foi uma explosão orquestral caótica e tensa que causa arrepios, tamanha sua força dramática. Ouça BEM alto.

Depois dessa sucessão de clássicos, duas brincadeiras ainda foram incluídas. Uma gravação de uma frase sem sentido ("I never could speak any other way" ou algo assim) e em velocidade alterada foi deixada para tocar infinitamente, enquanto a agulha não fosse tirada do LP. Finalmente, um sinal de 20 kHz - uma freqüência que seria audível somente para cães - foi incluído, com Paul mandando uma mensagem para sua cachorrinha. Segundo consta, nem todas as edições em CD trazem esse brinde (De qualquer forma, só os cachorros podem atestar isso ;-) ).

Quem influenciou

Segundo Paul McCartney, os grandes rivais criativos dos Beatles eram os Beach Boys. Depois de ouvir Pet Sounds, Paul achou que ele e seus amigos de Liverpool precisavam experimentar e ousar ainda mais do que haviam feito em Revolver. O interesse crescente de Paul por música clássica e de George e John por cultura indiana também tiveram seu peso decisivo em alguns sons do disco. E, claro, a batuta do maestro George Martin orientou a maior parte das elaboradas orquestrações do disco.

Mas, acima de tudo, o disco é ao mesmo tempo reflexo de seu tempo e uma conseqüência natural do processo criativo e de descoberta dos quatro jovens.

Influências e influenciados

Difícil mensurar o tamanho da influência, não só dos Beatles, mas desse álbum em particular, no cenário do pop-rock mundial. Conseqüência natural de Revolver e fruto da rivalidade de Paul McCartney com Brian Wilson, o líder dos Beach Boys, o disco foi também um retrato de seu tempo, conforme filtrado pelos Fab Four. Para entender melhor leia aqui sobre Revolver.

Curiosidades

  • As gravações duraram cerca de 700 horas. O primeiro disco da banda, Please please me, de 1963, foi gravado em menos de 10 horas.
  • O disco também inspirou um filme homônimo, dirigido por Robert Sigwood em 1978, que foi bastante malhado pela crítica, tendo os Bee Gees e Peter Frampton à frente. A trilha era repleta de versões de clássicos Beatles, a maioria vinda do disco que inspirou o filme.
  • Foi o primeiro disco a apresentar um encarte com letras. Outro brinde eram bottons, acessórios e até um bigode do Sargento Pimenta para recortar de uma cartela.
  • Durante a gravação da orquestra, acompanhada de perto pelos Fab Four, visitantes ilustres foram dar uma conferida, como Mick Jagger (dos Rolling Stones) e Mike Nesmith (dos Monkees). Isso é mostrado no documentário Anthology.
  • Catapultado ao primeiro lugar nos EUA logo no seu lançamento, literalmente atropelou o belo disco Headquarters, dos Monkees, que ficou 11 semanas em segundo lugar, depois de ter perdido o posto de número 1 na parada da Billboard. O lançamento na mesma época foi, sem duvida, um caso de azar histórico.
  • Depois desse clímax criativo, os críticos que apostavam numa decadência causada pelo desgaste e superexposição, tiveram outra surpresa: no ano seguinte veio um disco duplo: o individualista e solene White Album (álbum branco). Mas aí já é assunto para outra ocasião...

Leia

  • The Beatles: Antologia - The Beatles - Editora Cosac & Naify
  • Beatles - Coleção Para saber mais vol. 18 (Coleção Superinteressante) - Ricardo Alexandre/ Ed. Abril 

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